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‘Pablo Escobar’ peruano também terá sua própria série de televisão

A história do ‘Vaticano’, que se apaixonou por uma apresentadora de TV e subornava o Governo

Sapatos esportivos de cor laranja chamavam a atenção no visual de Demetrio Chávez Peñaherrera, conhecido como Vaticano, na quarta-feira, 13 de janeiro, quando ele recuperou sua liberdade. Foi o mais importante narcotraficante peruano – preso desde 1994 – e terminou de cumprir sua pena de 22 anos. A saída da prisão do Pablo Escobar do Peru ocorreu em meio a um outro escândalo, o que envolve a atriz mexicana de novelas Kate del Castillo e o narcotraficante Joaquín El Chapo Guzmán. Por isso, é natural a comparação entre suas histórias: filhos de famílias pobres e excluídas em povoados isolados, corruptores de autoridades, deslumbrados por belas mulheres da televisão. Livre, Vaticano retomará o projeto de produzir uma série de televisão autobiográfica, e o pesquisador em cujo livro o roteiro é baseado confirmou ao EL PAÍS que será uma coprodução colombiano-peruana.

Demetrio Limonier Chávez Peñaherrera na saída da penitenciária Miguel Castro Castro, após 22 anos encarcerado, dia 13 de janeiro.
Demetrio Limonier Chávez Peñaherrera na saída da penitenciária Miguel Castro Castro, após 22 anos encarcerado, dia 13 de janeiro. Agencia Andina

“Um canal mexicano e um espanhol também estão interessados, a história é boa porque a rede do tráfico inclui pessoas de várias nacionalidades”, diz Hugo Coya, o jornalista que durante dois anos entrevistou 74 pessoas e analisou documentos públicos do Governo norte-americano e da DEA (a sigla em inglês da agência norte-americana antidrogas) para publicar em 2011 o livro Polvo en el viento. Vaticano: esplendor e miserias de un narcotraficante, pela editora Aguillar.

“Vou ficar no Peru, vamos fazer a série. Já falei com a produtora Michelle Alexander e vamos ver o que acontece”, disse o narcotraficante aos jornalistas que o esperavam do lado de fora de uma prisão de segurança máxima em Lima. Michelle Alexander, citada por Vaticano, é uma das mais prolíficas produtoras de séries e telenovelas no Peru.

“Em 2011 assinamos um contrato com Michelle porque o livro tinha um propósito claro: ser a base para um documentário e uma série de televisão, mas nesse momento os canais foram cautelosos porque na história existem implicações políticas muito fortes, e estávamos em meio a uma campanha eleitoral”, revela Coya, autor de quatro livros de não-ficção, um deles levado ao cinema em Hollywood.

Para Coya, “o que aconteceu com a prisão de El Chapo e a profusão da narcoliteratura fazem com que agora Vaticano possa entrar no cenário nacional”.

Em 2010, o escritor se propôs a indagar o que é preciso fazer para que alguém poderia se transformar no maior traficante de drogas do Peru e quem deve ser subornado, e acabou descobrindo como Vaticano se diferenciava de outros criminosos. “Ele cresceu no negócio porque em um povoado da selva central, Campanilla, criou uma variedade de pasta base de cocaína de altíssima pureza e ganhou fama no mundo do narcotráfico porque por cada 1.000 quilos de pasta era possível obter 1.000 quilos de cocaína. Isso chegou aos ouvidos de Pablo Escobar, com quem se associou por alguns anos, o suficiente para ganhar milhões de dólares. A DEA começou a persegui-lo, mas ele ficava sabendo da operação antes da chegada dos agentes e escapava”, disse o escritor ao EL PAÍS.

Vaticano acertou com os habitantes de Campanilla e os chefes militares a utilização de uma rodovia nacional para usá-la como uma pista do tráfico, e o Governo dos EUA pediu ao presidente Alberto Fujimori que impedisse as ações do traficante. Diante da pressão internacional e a desconfiança da DEA, diz Coya, Vladimiro Montesinos, o assessor de inteligência do presidente, exigiu 50.000 dólares (205.460 reais) e depois 100.000 dólares (410.920 reais) mensais para mantê-lo informado sobre as operações, mas Vaticano não aceitou o aumento e fugiu para a Colômbia, com o apoio dos irmãos Rodríguez Orejuela.

Um caso de amor com ares de ficção

Em 1992, sob a identidade falsa do empresário madeireiro Camilo Ferrer, conheceu e se apaixonou por Susan León, uma rainha de beleza, modelo e famosa apresentadora de televisão. Um oficial de polícia que investigou vários narcotraficantes disse a Coya que a companhia de mulheres exuberantes mostrava não só a prosperidade, mas também o poder de sedução. 

Dois anos depois, a modelo passou o Ano Novo de 1994 com Vaticano na Colômbia e, desconfiada, lhe disse: “se está envolvido em algo ilegal, largue porque só assim ficarei com você”. O criminoso pediu então que ela lhe desse um ano de prazo para deixar o crime, mas pouco depois ele foi preso em Cali e foi a julgamento. Então, ela descobriu o verdadeiro nome e profissão do homem por quem havia se apaixonado, em mais um capítulo da história do traficante que tem ares novelescos.

Algum tempo depois, voltou às páginas dos jornais quando um médico que o examinou disse que o narcotraficante peruano havia sido submetido a uma craniotomia, uma cirurgia que teria lhe deixado lacunas mentais. A imprensa noticiou à época que no julgamento, o acusado tinha sintomas da utilização de eletrochoques.

Passadas duas décadas, parece não ter sequelas do procedimento cirúrgico e, apesar de confirmar que sua história chegará a TV, a exemplo de Narcos (Netflix, 2015), já declarou esperar que os jovens que não sigam seu exemplo.

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