el chapo guzmán

‘El Chapo’ se encontrou com Sean Penn às escondidas em outubro

O ator entrevistou o narcotraficante durante sete horas A reportagem foi publicada pela revista 'Rolling Stone'

Cidade do México - 10 ene 2016 - 14:01 UTC

Nasceu pobre, jamais buscou problemas e quer morrer em paz. É com esse retrato seráfico que o impiedoso Joaquín Guzmán Loera, El Chapo, quer se apresentar ao mundo. E, para isso, escolheu um surpreendente caminho. Após sua fuga de uma prisão de segurança máxima, o narcotraficante se reuniu em segredo com o ator norte-americano Sean Penn para uma entrevista que foi publicada pela revista Rolling Stone neste domingo.

Sean Penn e El Chapo Guzmán.
Sean Penn e El Chapo Guzmán.'Rolling Stone'.

O encontro entre o líder do Cartel de Sinaloa, detido na sexta-feira após um sangrento enfrentamento com a marinha mexicana, e a estrela norte-americana ocorreu em outubro, em um lugar que a publicação apenas descreve como “montanhoso e selvagem”. O formato eleito foi um jantar, que contou também com a presença da atriz mexicana Kate del Castillo, famosa por seu marcante papel na série La reina del sur (2011). Em janeiro de 2012, em plena guerra contra o narcotráfico, Castillo afirmou publicamente que confiava mais no El Chapo que no Governo.

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O evento, para o qual Joaquín Guzmán Loera vestia camisa de seda e calças pretas justas, não foi o único contato dele com Penn. Posteriormente, continuaram a se falar através de ligações com Blackphone (um telefone que criptografa a comunicação), trocaram e-mails com contas anônimas e houve também um vídeo entregue por um mensageiro a Castillo, a verdadeira intermediária do encontro.

"Forneço mais heroína, metanfetamina, cocaína e maconha que qualquer um no mundo. Tenho frotas de submarinos, aviões, barcos e caminhões"

Tudo isso enquanto as forças de segurança mexicanas mobilizavam milhares de soldados e policiais em busca do capo foragido. A reunião, que durou sete horas, se encaixa perfeitamente com as delirantes tentativas de El Chapo para iniciar as gravações de um filme sobre sua vida. Uma pretensão que o fez entrar em contato com atores e diretores enquanto estava escondido e que, segundo o próprio Governo mexicano, forneceu uma pista-chave para localizá-lo e realizar a primeira operação de captura.

Embora tudo indique que foi, precisamente, o encontro com Penn que levou as forças de segurança até o esconderijo do narcotraficante nas montanhas de Durango, nenhuma fonte oficial confirmou tal hipótese. O que o próprio ator reconhece em seu texto, um relato em primeira pessoa repleto de meandros discursivos, é que, depois do jantar, ficaram para fazer a entrevista, mas os operativos militares que chegaram pouco tempo depois frustraram a reunião, obrigando-o a fazer as perguntas através de terceiros, sem possibilidade de réplica e em vídeo.

Na primeira parte da entrevista, que corresponde às conversas com o ator, Guzmán Loera, apesar de elusivo e vulgar, deixa cair a máscara. Se durante anos, em um exercício de imenso cinismo, negou dedicar-se ao narcotráfico, diante da estrela de Hollywood, admitiu seus negócios sujos e não hesitou em vangloriar-se do imenso poder de seu cartel, considerado o maior do planeta. “Não quero ser retratado como uma freira. Forneço mais heroína, metanfetamina, cocaína e maconha que qualquer um no mundo. Tenho frotas de submarinos, aviões, navios e caminhões”, afirmou.

Também não mostrou arrependimento por sua carreira criminosa nem pelos massacres atribuídos a ele ao longo de três décadas: “Olha, eu me defendo, e nada mais. Se eu começo os problemas? Nunca”.

Mas o tom que El Chapo utiliza no vídeo gravado com posterioridade, em resposta às perguntas enviadas por Penn, é diferente. Aí emerge outro Guzmán Loera. Um que evita qualquer problema e que se mostra suspeitosamente humilde. Conta que começou a trabalhar aos seis anos de idade, colhendo laranjas e vendendo doces e bebidas em sua cidade natal, Badiraguato, na Sierra Madre, e que, para “sobreviver”, aos 15 anos, decidiu plantar e vender maconha e ópio. Nesse ponto, reconhece que, sem chegar a ser viciado, consumiu drogas, mas que já faz duas décadas que não toca nenhuma. “As drogas destroem. Infelizmente, onde eu cresci, não havia outra forma de sobreviver, e continua sendo assim”.

– Acha que é verdade que você é o responsável pelos altos índices de consumo de droga no mundo?

– Não, isso é mentira, porque o dia em que eu não existir mais, o consumo não vai diminuir de nenhuma forma.

– Você viu o fim que teve Pablo Escobar. Como imagina seus dias finais em relação a esse negócio?

– Sei que algum dia morrerei. Espero que seja de causas naturais.

O vídeo, do qual apenas dois minutos foram divulgados publicamente, foi filmado em uma fazenda, ao ar livre. O canto de um galo interrompe a gravação sem cessar.

Sentado e sem bigode, El Chapo não se prolonga em nenhuma das respostas. Em certos momentos, inclusive é possível notar que se sente incômodo. Responder por seus atos nunca foi seu forte.

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