A bomba norte-coreana

A comunidade internacional tem a obrigação de atuar para acabar com o regime de Kim Jong-um, que se converteu em um risco para o resto do planeta

FERNANDO VICENTE

As cifras eram horripilantes, tanto em número de mortos e feridos como em poluição do ar, das águas, da fauna e da flora, a tal ponto que, cedo ou tarde, poderia decorrer desse processo a extinção de toda forma de vida no astro que habitamos.

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Se isso for correto, e suponho que seja, não é incompreensível que um assunto tão relevante – a preservação da vida – só chame a atenção do público muito de vez em quando? Por exemplo nesta semana, quando Kim Jong-un, o patológico sátrapa da Coreia do Norte, anunciou que, celebrada por toda a população norte-coreana, acaba de fazer explodir sua primeira bomba de hidrogênio. Os técnicos dos Estados Unidos e da Europa se apressaram em dizer que esse anúncio foi exagerado, que a última ditadura stalinista do planeta só conseguiu até o momento fabricar uma bomba nuclear. O Conselho de Segurança das Nações Unidas, a União Europeia e diversos Governos – entre eles, o da China – condenaram o experimento (verdadeiro ou falso) anunciado por Kim Jong-un. Haverá novas sanções como castigo ao regime norte-coreano? Teoricamente, sim, mas, em termos práticos, nenhuma, porque esse país vive em um isolamento total, como dentro de uma proveta, e sobrevive graças ao punho de ferro que aferrolha seus infelizes cidadãos-escravos, ao contrabando e à demagogia delirante.

Oficialmente, há seis países no mundo que possuem armas nucleares – Estados Unidos, Rússia, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte –, e só dois deles, Estados Unidos e Rússia, testaram bombas de hidrogênio, que têm uma capacidade destrutiva sete ou oito vezes maior que as bombas que aniquilaram Hiroshima e Nagasaki. Só uma décima parte do arsenal nuclear já acumulado seria suficiente para acabar com todas as cidades do globo e fazer a espécie humana desaparecer. Devemos estar todos muito loucos neste mundo para ter chegado a uma situação semelhante sem que ninguém faça nada e sigamos contemplando, ao nosso redor, como os arsenais nucleares permanecem ali, talvez até aumentando, à espera de que, a qualquer momento, algum fanático com poder acenda a fagulha que provoque a gigantesca explosão que nos extermine.

Sei bem que há organizações pacifistas que tentam – sem muito sucesso, ainda por cima – mobilizar a opinião pública contra esse armamentismo suicida, e Governos e instituições que, de maneira ritual, protestam cada vez que um novo país, como o Irã até recentemente, tenta entrar para o clube exclusivo das potências atômicas. Mas o fato é que, até agora, o desarmamento foi uma mera retórica sem consequências práticas, e os planos de desarmamento, começando pelos dos Estados Unidos e Rússia, não avançam. Os depósitos de armas de destruição em massa continuam aí, como anúncio permanente de um cataclismo que acabaria com a história humana.

Devemos estar loucos para seguir esperando que algum fanático com poder acenda a fagulha que provoque a gigantesca explosão que nos extermine

É preciso que nos resignemos, esperando que esta situação se prolongue, ou é possível fazer algo? Sim, é possível, e é preciso começar por fazer exatamente o contrário do que fiz há dez anos com aquele livro aterrador. É preciso tomar consciência do horror que nos cerca, e, em vez de bancar o avestruz, encará-lo, difundi-lo, alarmar cada vez mais gente com a sinistra realidade, a fim de que as campanhas pacifistas deixem de ser obra de minorias excêntricas e ganhem uma magnitude que afinal mobilize os Governos e faça os organismos internacionais funcionarem de maneira efetiva. Nada disto é utópico; quando há uma vontade política resoluta, é possível sentar-se a uma mesa de diálogo com os adversários mais encarniçados, como ocorreu com o Irã, que consentiu em deter seu programa atômico em troca da suspensão das sanções que haviam paralisado a sua economia.

E se a negociação for impossível? Em raros casos isso pode acontecer, e um desses casos sem dúvida poderia ser o regime do Pyongyang. A satrapia dos Kim não só condenou ao povo norte-coreano a viver na miséria, na mentira e no medo. Com sua busca frenética pela arma nuclear que, acredita, lhe garantirá a sobrevivência, ela põe em perigo os seus vizinhos da península e a Ásia inteira. A comunidade internacional tem a obrigação de agir, colocando em ação todos os meios ao seu alcance para acabar com um regime que se transformou em um risco para o resto do planeta. Até a China, que foi um dos escassos protetores da ditadura norte-coreana, parece ter compreendido o perigo que as iniciativas demenciais de Kim Jong-un representam para sua própria sobrevivência. E a forma mais eficaz de agir é cortar pela raiz a possibilidade de que o regime de Pyongyang continue a fazer experimentos nucleares que constituem, de imediato, uma gravíssima ameaça para Coreia do Sul, China e Japão. A comunidade internacional pode impor um ultimato ao regime norte-coreano, através das Nações Unidas, dando-lhe um prazo preciso para que desmantele suas instalações atômicas, sob pena de proceder à sua destruição. E cumprir a ameaça caso não seja escutada. Não acredito que haja um caso mais evidente em que um mal menor se imponha sobre o risco de que Pyongyang provoque uma catástrofe com centenas de milhares de vítimas na Ásia e, talvez, no mundo inteiro.

É preciso tomar consciência do horror que nos cerca, e, em vez de bancar o avestruz, encará-lo

Num desses lúcidos ensaios com que enfrentou o messianismo ideológico ao qual sucumbiram tantos intelectuais do seu tempo, George Orwell se perguntava se o progresso científico deveria ser celebrado ou temido. Pois esses extraordinários avanços no conhecimento, ao mesmo tempo em que criaram melhores condições de vida – na alimentação, na saúde, na coexistência, nos direitos humanos – desenvolveram também uma indústria da destruição capaz de produzir matanças que nem a imaginação mais doentia de antigamente poderia antecipar. Em nossos dias, o avanço da ciência e da tecnologia semeou o planeta com artefatos mortíferos que, na melhor das hipóteses, poderiam nos devolver ao tempo das cavernas, e, na pior, retroceder este planeta sem luz àquele passado muito remoto em que a vida ainda não existia e estava por brotar, não se sabe ainda se para o bem ou para o mal. Não tenho resposta para esta pergunta. Mas o que farei imediatamente será procurar aquele livro que deixei sem terminar, e desta vez lê-lo até a última linha.