Coluna
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Os dias perdidos

O primeiro dia do ano de 2001 transcorreu em um almoço pleno de alegria. Comemos, tomamos vinho, conversamos, rimos

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Durante o período em que exerci o jornalismo, e foram duas décadas, tive que fazer escolhas salomônicas por conta da divisão de plantões nos feriados prolongados: ou folgava no Carnaval ou na Semana Santa; ou no Sete de Setembro ou no Finados; ou no Natal ou no réveillon... Como para mim, à exceção do Dia dos Mortos, essas datas não possuíam significado especial, não me importava em trabalhar quando todos se divertiam. Por isso, em geral, encontrava-me na redação durante os festejos de Momo, na semana em que se comemora a Independência, na virada do ano, épocas preferidas por meus colegas. No entanto, houve dois anos consecutivos em que essa regra se quebrou.

Na passagem de 1999 para 2000, enquanto o mundo inteiro comemorava a entrada no século XXI, uma era ansiosamente aguardada por estar sob a vigência do signo de Aquário, os jornalistas mantinham-se em alerta máximo: havia o risco do chamado “bug do milênio”, uma falha nos cronômetros digitais que poderia zerar os contadores, com consequências inimagináveis para a Humanidade. As folgas foram suspensas e acompanhamos angustiados os ponteiros do relógio de parede da redação sobreporem-se à meia-noite. Logo, o alívio substituiu a tensão. Nada de anormal ocorrera, o ser humano habilitara-se para continuar explorando a Terra por mais mil anos.

Em 2000, estava escalado para o plantão de fim de ano. No dia 31 de dezembro, saí de casa à sete, tomei café da manhã na padaria, entrei em um táxi e me dirigi ao jornal. Passava pouco do meio-dia quando o editor-chefe me chamou à sala dele e disse: “O dia está fraco, vamos reduzir as páginas ao mínimo, você teve um período pesado de eleições (eu trabalhava na editoria de política), então está dispensado. Só me apareça aqui no dia 4”. Dispensado?, pensei. Já havia me conformado em ouvir sozinho os fogos de artifício de dentro do meu apartamento. E agora, o que fazer com quatro dias de ócio? Talvez percebendo minha inércia, ele completou: “Aproveite e vá visitar sua família”.

Sim! Visitar minha família! Há meses eu não conseguia viajar para Cataguases, distante 600 quilômetros de São Paulo, por conta do excesso de trabalho. Sem pensar duas vezes, e temendo que ele mudasse de ideia, recolhi minhas coisas, fechei a gaveta, desliguei o computador e corri para casa. Enfiei algumas mudas de roupa na bolsa e fui para a rodoviária. Quase desisti, entretanto, tamanha a quantidade de gente que atravancava o lugar. Achava-me em meio a um cenário como o de Serra Pelada, só que ao invés de ouro, buscávamos resgatar algo mais valioso e substantivo, os filões de afeto só existentes na terra-natal.

Frustrado, descobri o óbvio, não havia lugares disponíveis para Cataguases. Mas, nas imediações do guichê da empresa que percorre a Rio-Bahia rumo ao Nordeste, deparei com uma pessoa que desistira de viajar. O problema é que o ônibus ia para Bezerros, em Pernambuco, e eu teria que descer em Leopoldina, Minas Gerais, percorrendo assim um quarto, talvez, da trajetória total daquela linha. Mas não me restava opção. Paguei o elevado preço da passagem e esperei até às sete da noite, horário previsto para a saída. Para minha sorte, Leopoldina era ponto de troca de motoristas, ou seja, obrigatoriamente pararíamos por lá e então eu desceria. Adormeci sonos intranquilos.

Passava pouco das cinco horas e a luz baça da manhã iluminava os mares de morros que banham a Zona da Mata. Encontrava-me no posto da Polícia Rodoviária, onde gentilmente o novo motorista havia me desembarcado, e esperava impaciente um meio para vencer os últimos 25 quilômetros que me separavam da minha infância. Não tardou muito, um dos dois policiais de plantão penetrou sorridente na guarita onde eu bebia café da garrafa térmica e mastigava uns biscoito-maria e disse que havia arrumado uma carona para mim. Me despedi de ambos, entrei na boleia do caminhão que, soube em seguida, transportava mudanças, e deixei-me embalar pelo ruído do motor, pela música caipira que saía do rádio acordando os bichos e a vegetação, pela cortina de melancolia que descerrava sobre meus olhos úmidos.

O muro baixo que cercava a casa de meus pais denunciava quem percorria o passeio. Minha mãe, sempre debruçada sobre o tanque, via passar a cabeça da visita flutuando sobre os ombros, e, enxugando as mãos no avental, entrava em casa para arrumar os cabelos, ajeitar a roupa, compor-se, enfim, vaidosa. Naquele dia, ao me avistar, suas pernas quase a traíram, me confessou depois. Sentiu uma tontura e, sem conseguir reagir, permaneceu estática, a boca entreaberta, o coração pulsando irregular, os braços sem força para levantar-se e enredar-me.

O primeiro dia do ano de 2001 transcorreu em um almoço pleno de alegria. Comemos, tomamos vinho, conversamos, rimos. Em torno à mesa, além de minha mãe e eu, meu pai, minha irmã, meu cunhado, minha sobrinha. Lembramos com saudade de episódios antigos e evocamos os mortos amados que gostaríamos tanto estivessem ali conosco. Os outros dois dias percorri ruas e casas há muito soterradas pelas areias que sopram do deserto das lembranças perdidas. No dia 3, tomei um ônibus à noite para São Paulo e na manhã seguinte já me encontrava na redação do jornal trabalhando. Mal sabia que aquela havia sido a última vez em que estivemos de mãos dadas com a felicidade. Minha mãe morreria em outubro. Meu pai, dois anos depois. Eu, a cada dia que passa.