Coluna
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Para ajudar você a sair de 2015

Para todos nós que estamos discutindo política mais do que na Grécia Antiga, foi tenso, todavia rico e democrático o arrastado 2015. Mas ainda não acabou

Fogos na árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, no último dia 12.
Fogos na árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, no último dia 12. Silvia Izquierdo (AP Photo)

Para você que foi abandonado(a) no amor, o ano que teima em não acabar foi a morte em câmera lenta. Um interminável e repetido “dia da marmota”, como no filme O Feitiço do Tempo (1993). Corta para a indescritível cara de mal-estar do ator Bill Murray, você se lembra? Rs, risos. Reveja e ria do tempo que nos prende e tortura no tic-tac de eventuais desacontecências.

Para você que se separou em um dito rito de “comum acordo”, discordo: há sempre um que deseja separar mais do que o outro. Coube a uma das partes guardar civilizadamente uma incômoda dorzinha no peito diante da certeza absoluta da ex-pessoa amada.

Para você que está triste sentimentalmente, um aviso: não se morre de amor nos trópicos

Você se separou mesmo ou foi apenas aquele stress de fim de ano, período em que a D.R., a mitológica discussão de relação, dura mais que o Antigo Testamento, a novela “Os dez mandamentos” e o Brasileirão de pontos corridos?

Para uma amiga que não consegue se livrar do marido acomodado –quase uma década de casamento– , 2015 foi/foram cem anos de solidão. Para ele, tudo foi harmonia e a arte de empurrar o barril de chope da rotina com a barriga. Do próximo ano não passa, ela escreve nas resoluções para a nova temporada. Veremos.

Para a amante que vai ficar de novo sozinha no Natal e no Réveillon, depois de mais 365 dias de promessas do seu Rolando-Lero do amor, que desastre. Dificilmente ele vai se separar até a Copa de 2018, minha estimada leitora.

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Ah, como o ano passou rápido, diz o porteiro de Copacabana, na sua inércia diante do prédio e do radinho de pilha que lhe traz as notícias do Flamengo –“Em 2016 ganharemos tudo, caixinha, obrigado!”.

Já vai tarde, demorou demais, rebate o guardador de carros, que vendeu vagas na rua na velocidade da luz –“Em 2016, manobrarei o meu próprio carrão, se liga, parceiro”.

Relativo, meu caro Einstein, só a relatividade salva. Tem razão o gênio linguarudo, é relativíssimo.

Para você que é viciado em WhatsApp, por exemplo, a breve suspensão do serviço no Brasil foi uma eternidade, mesmo sabendo que não perdeu nada com isso. O amigo Cândido, o maior otimista da Vila Tolstói, zona leste de SP, me contou eufórico: leu o livrinho mais incrível do planeta, Fup, de Jim Dodge, um velho hippie da Califórnia. Havia recomendado ao fdp desde o começo do Orkut. Que maravilha, que milagre. Lindo.

Terceiro turno

Para quem perdeu o emprego, 2015 também foi terrível e se arrastará até o próximo carimbo do RH na carteira de trabalho.

Para uma amiga que não consegue se livrar do marido acomodado, 2015 foi/foram cem anos de solidão

Para quem perdeu democraticamente a eleição em 2014, o 15 foi um eterno terceiro turno do inconformismo; para quem venceu, um inferno com o fantasma do impeachment –com 50 tons azulados de golpe aecista– em vez dos bons votos para 2016.

Ao Eduardo Cunha, o ano reservou a paciência de Jó ou do japa-zen da Polícia Federal. Contas na Suíça, cantadas de pneus morais em arriscadas manobras chantagistas, Bê-Ó no bolso do paletó etc... Nada foi suficiente para prendê-lo, nem que apenas algemá-lo no tempo, como no filme da cumeeira dessa crônica. Deixa quieto...

Tempo, tempo, tempo, tempo...

Tudo é relativo. Para um mensaleiro tucano, por exemplo, é estranho ser acusado, ainda em Primeira Instância, depois de 17 anos de comprovação do crime... Tempo, tempo, tempo, tempo... Essa gente é dona do próprio domínio do fato.

Vale recurso, vale tudo no país da Vale do ex-rio Doce.

Alerta natalino

Para todos nós que estamos discutindo política mais do que na Grécia Antiga, foi tenso, todavia rico e democrático o arrastado 2015. Principalmente para você que não desfez amizades –mas quase!- por causa do embate. Mas ainda não acabou. Epa. Todo cuidado é pouco com a ceia de Natal e os outros encontros protocolares da família.

O bicho costuma pegar nesses momentos solenes. Releve, fale pouco, encha a boca de farofa diante da sogra ou do sobrinho-coxinha que acha que o PT inventou a corrupção no Brasil. Recomendo a resignação natalina. O que é aguentar um parente diante do que você suportou durante duzentas mil horas de equilibradíssimos e imparciais telejornais este ano que já vai tarde? Meu particularíssimo mimimi sobre mídia não poderia faltar nessa hora à beira dos perus crepusculares –coisa de cronistas bolcheviques como os Veríssimos, Duvivieres e Pratas.

Risos, amigos leitores, é hora de risos e brindes. Seja de champanhe Veuve Clicquot, Sydra Cereser ou Jurubeba Leão do Norte.

Quem não celebra, se quebra...

Para você que está triste sentimentalmente -esta sim é uma preocupação subjetivíssima e difícil de resolver a esta altura do campeonato-, um aviso: não se morre de amor nos trópicos. Isso é coisa lá do alemãozinho e jovem Werther, o garoto que fez besteira diante do primeiro suspiro amoroso. Toma uma, se joga na muvuca, vai ao limite da irresponsabilidade, transgride, depois ria disso tudo.

E, pensando bem, mire-se no exemplo de dois movimentos incríveis nesse dois mil e crise/crazy. Esses agitos me deram crença de sobra para o 16 que se aproxima:

1) Os meninos que ocuparam as escolas de São Paulo, depois da determinação escrota e ditatorial do governo Alckmin de fechá-las sob as patas dos soldados e as botas dos cavalos;

2) Os homens e mulheres de todas as idades do “Ocupe Estelita” -eles barraram a construção do maior monstrengo urbano no Recife de todos os tempos. Um torreão de torres sem fim e sem escrúpulos que lascaria uma ideia já arrombada de cidade. Os mesmos empreiteiros de sempre que financiaram campanhas do PSB todo-poderoso local, do PT, do PSDB e de outras tantas nanicas legendas.

Então é Natal, encha a boca de farofa e não discuta mais política... Rs, risos, muitos risos nesta hora. Discuta amor, todos nós teremos uma queixa mais justa sobre tal assunto.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Os Machões Dançaram –crônicas de amor e sexo em tempo de homens vacilões” (ed. Record), entre outros livros.

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