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Pablo Iglesias: “Relações com a América Latina são estratégicas”

Candidato esquerdista ao Governo espanhol promete diálogo com toda a região

Pablo Iglesias, líder de Podemos.

Pablo Iglesias (Madri, 1978) sabe perfeitamente que não pode demonstrar cansaço, apesar do ritmo intenso da campanha eleitoral. “Estou com energia, com a adrenalina do mais, mais, mais.” Ao falar com o EL PAÍS, ele havia acabado de conversar com o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, para colher informações sobre a reunião do pacto antijihadista.

Pergunta. O atentado contra a embaixada da Espanha em Cabul fará o seu partido reconsiderar o apoio ao pacto?

Resposta. Vamos manter a lealdade de Estado. Expus [a Rajoy] nossa vontade de participar como observadores dessas reuniões, e achamos que as propostas que fizemos confirmam que seguramente o que está ocorrendo é consequência de erros na política externa do passado.

P. O que vão fazer, então?

R. Precisamos estar todos unidos com as vítimas, com os familiares dos dois policiais espanhóis mortos, mas consideramos que as estratégias fundamentais têm a ver com tirar a água do peixe, em vez de chutar o vespeiro. Não acredito que nos dias de hoje alguém diga que é preciso enviar tropas como solução para esse problema.

P. O Podemos está há meses insistindo na necessidade de diálogo. Com quem vão se entender em um Parlamento tão fragmentado?

R. Neste momento estamos pensando mesmo é em ganhar as eleições. Quem pensa nas políticas pós-eleitorais certamente se equivoca por enquanto. Estamos sentindo que a virada é real, e nosso principal objetivo é ganhar. A partir daí, veremos o cenário que se dá. Vamos fazer uma legislatura histórica, em que parece que ninguém terá maioria absoluta, e em que as forças políticas vão ter que dialogar. Temos um mapa para a mudança constitucional a partir de cinco garantias, e esse será o nosso eixo na hora de estabelecer o diálogo, de falar de propostas e falar da Espanha.

P. Vocês fizeram concessões a Mònica Oltra [vice-presidente da Comunidade Valenciana] e a Ada Colau [prefeita de Barcelona] para chegar a acordos?

O Podemos surgiu das pessoas e se tornou uma força madura

R. Acreditamos de verdade na plurinacionalidade [dentro da Espanha] e na diversidade. Para nós, não é uma questão de generosidade, é o que merecem. Temos a possibilidade de um novo compromisso histórico, de um novo contrato que de alguma forma reúna as maiorias sociais para um novo projeto de país que nós defendemos a partir da diversidade e da plurinacionalidade. E provavelmente por isso somos a única força política estatal [com abrangência em toda a Espanha] que terá vitórias onde outras forças políticas se tornaram marginais.

P. Você se comprometeu a convocar um referendo catalão em 12 meses. Por que acha que é viável?

R. Uma pessoa como Rubio Llorente, que é um constitucionalista que procede de uma tradição social-democrata, assim como Pérez Royo, observaram que a partir da lei orgânica que regula as distintas modalidades do referendo há vias jurídicas e constitucionais para que esse referendo possa ocorrer. Nós, democratas, além disso, temos que entender que a democracia é a base da lei. E num momento como este é preciso ter a estatura suficiente para reconhecer algo que a maioria social na Catalunha já expressa de alguma maneira.

P. Mas não teme que a defesa do referendo possa assustar em Cádiz, em Oviedo, em Madri…?

R. Na Catalunha tentou-se fazer acreditar que as pessoas da Espanha são as que aparecem na 13TV e Intereconomía [canais de TV conservadores], e não é verdade, eu acredito que as pessoas tenham medo da desigualdade e da corrupção, não da diversidade. O povo está muito à frente das elites políticas do imobilismo. O povo sabe se gostar.

P. Como o Podemos mudou? Tornou-se mais moderado?

R. Acredito que o Podemos se tornou uma força madura para pilotar o Governo da Espanha, sempre empurrado pelas pessoas, por esse processo de mudança. O Podemos surge das pessoas, e pouco a pouco vai se tornando uma força política que pode assumir responsabilidades de Governo.

Quem pensa agora nos pactos pós-eleitorais se equivoca

P. Sua estratégia eleitoral não fortalece o PP?

R. Justamente pelo contrário. A preocupação de Rajoy é a mudança. Nosso objetivo é ser uma alternativa ao PP, sabendo além do mais que, se o Podemos estiver mais forte que o Cidadãos (Ciudadanos), possivelmente poderá ser ouvido para falar de regeneração e para afastá-los desse caminho que trilharam na Andaluzia com o partido dos ERE e em Madri com o partido da Púnica [alusões a escândalos que envolvem o PSOE e o PP, respectivamente], abusando do copia e cola. E se estivermos mais fortes que o PSOE, talvez possamos levá-los a se emendarem e apostar em políticas sociais.

P. Em janeiro, você irá ao Congresso com gravata ou sem gravata?

R. Não decidi. Eu já coloquei muita gravata, sobretudo gravatas estreitas para [o programa de televisão] La Tuerka, e eu gosto. E certamente voltarei a colocar. Algumas vezes irei de gravata, e outras não. Acho que é preciso desdramatizar esses elementos.

P. E o que fará com o rabo-de-cavalo?

R. O que tenho comprometido com o Xavi Domènech [principal candidato do Podemos em Barcelona] é que quando ganharmos vou ter que soltar o cabelo, e isso se transformará em uma promessa cumprida, mas depois de soltar voltarei a prendê-lo no rabo-de-cavalo.

P. Os vínculos com [o primeiro-ministro grego Alexis] Tsipras o prejudicaram?

R. Na Grécia, vimos que os avanços às vezes precisam chegar devagar em relação ao que a gente desejaria. Nosso exemplo, em todo caso, são as prefeituras da mudança [governos municipais esquerdistas na Espanha].

P. Maduro terá de dialogar depois da derrota nas urnas na Venezuela?

R. Quando as pessoas votam, lançam mensagens. A mensagem destas eleições foi clara, e os venezuelanos ao que parece mostraram em liberdade quais são suas preferências. Acredito que o mundo todo precisa tomar nota. Digo uma coisa que não é muito diferente do que disse o ministro [espanhol] de Relações Exteriores, o senhor Margallo: as relações exteriores com a América Latina são relações estratégicas. Se governarmos, teremos boas relações com todos os países latino-americanos, independentemente da coloração de quem governe.

P. O que vai acontecer com o Podemos no dia 21 (um dia após as eleições)? Há quem fale em refundação.

R. O Podemos a partir do dia 21 terá de se preocupar em formar Governo e governar.