Opinião
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Haja coração

Situação política e econômica do Brasil terá que piorar muito antes de melhorar

Voltei agora de um mês nos Estados Unidos, passado entre Nova York e Los Angeles. Acompanhei os primeiros debates entre os candidatos dos dois partidos. Vi muitas coisas e conversei com muitos amigos. Mas confesso que fiquei o tempo todo, de manhã, de tarde e de noite, com os olhos postos no computador a acompanhar o desenrolar da crise brasileira.

Em países democráticos, eleições dividem a nação. Cada candidato tende a maximizar suas diferenças com os oponentes de forma a acentuar suas qualidades e minimizar as dos outros. Após as eleições, a tendência é reunir, ampliar as aproximações e criar espaços de governança.

Os Estados Unidos encontram-se numa pré-campanha eleitoral particularmente antagônica e dispersiva. Vão se acomodar no final do ano que vem, após as eleições. No Brasil, porém, a dispersão e as divisões cresceram exponencialmente após as eleições de 2014. Por ora cada candidato democrata ou republicano se preocupa mais em diferenciar-se dos contendores do seu próprio partido. No Brasil, os antagonismos estiveram presentes durante toda a campanha. Mas foi após as eleições que as diferenças políticas se tornaram mais ferrenhas e radicais.

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Millôr Fernandes dizia que as eleições nos Estados Unidos são tão importantes para o mundo, que todos os cidadãos, em todos os países, deveriam estar habilitados a votar. Difícil imaginar, ainda que num exercício de fantasia, em quem votar nas presentes eleições americanas.

Parece provável do lado democrata que Hillary Clinton sairá candidata. A indecisão prolongada do vice-presidente Joe Biden - que teria sido o candidato mais próximo ao Brasil - tornou inviável sua candidatura. Hillary concorre praticamente sozinha. Só mesmo ela poderá inviabilizar sua própria candidatura. É uma mulher decidida e forte, movida por ambições de poder e de equiparação com o marido infiel. Quer ser melhor do que ele. Tem boas ligações com as bases sindicais do Partido Democrático. O problema é que não é simpática. Acha-se tão superior a todos que transmite um certo ar de arrogância. Foi desnecessariamente arrogante com o Brasil ao final da comédia de erros cometidos na administração Lula em torno do Irã. Não tem o charme, nem a simplicidade do marido.

Do lado Republicano, o perfil radical das primárias tenderá a conduzir a uma escolha com poucas oportunidades de vitória. Donald Trump é ainda mais arrogante do que Hillary. Assume posições tão radicais à direita, que dificilmente ganharia a eleição, se vier a ser escolhido. No último sábado foi o apresentador do programa "Saturday Night Live". Chegou a ser ridículo. Imagino que tenha feito um dano a sua candidatura. Dos demais candidatos, Ben Carson conta com certa simpatia. É negro, mas não parece ter uma proximidade maior com a causa racial nos EUA. Curiosamente, tanto Trump quanto Carson, que estão na frente das pesquisas, não fizeram carreira política. Jeb Bush é certamente melhor do que o irmão George. Mas não dá impressão de estar movido por uma vontade indomável de poder como se supõe que um candidato deva estar. Restam Marco Rubio e Ted Cruz. Ambos tem mais vocação para vice do que para presidente. Carly Fiorina não parece ser nem simpática nem competente, à vista do desastre em que se meteu enquanto CEO da Hewlet Packard. Poderá ser vice? Pouco provável.

Há um pré-candidato republicano, que ainda não decolou nas pesquisas (e talvez não decole jamais), que me dá boa impressão. Trata-se de George Pataki. Ex-governador do Estado de Nova York (1995-2006), é equilibrado e parece bastante sensato. Conheci quando fui consul geral em Nova York. É ligado a uma empresa de advocacia com interesses no Brasil. Convidei-o para almoçar. Fiquei impressionado com sua boa disposição em relação ao Brasil.

A esta altura do campeonato, portanto, se a sugestão do Millôr Fernandes viesse a se materializar, eu pelo menos não teria a menor ideia sobre em quem votar...

No Brasil, caso haja um impeachment da Presidenta, se a causa for irregularidades de campanha, haveria a probabilidade de novas eleições no curso de 2016. A crise se arrasta, a inflação ameaça e a competitividade do país se deteriora. Sem falar na inquietação social e na violência urbana, que tendem a aumentar com o prosseguimento da crise. Ainda não apareceu uma liderança nova com um discurso novo, capaz de fazer renascer a esperança na sociedade. Não que isto seja necessariamente vital. Há muita descrença na sociedade. Da última vez que aconteceu, Collor revelou-se um líder sem liderados. E afundou o Brasil. Do jeito que as coisas vão, teremos crise ainda por muito tempo.

Nossa situação não é, contudo, significativa para o mundo. A menos que se produza um estalido social de tal magnitude que provoque consequências impensáveis. A situação dos EUA, no entanto, é crucial para a economia global e para a estabilidade política e de segurança do mundo. A dívida americana monta a vários trilhões de dólares. A Europa sofre ainda as consequências do colapso grego e lida com o problema intratável das migrações dos países ameaçados pelo radicalismo islâmico. Japão, Coreia, Alemanha desaceleraram seu crescimento. A China também. As bolsas de valores mundo afora não oferecem perspectivas otimistas. Há quem ache que o tradicional sistema político binário americano não oferece possibilidades maiores para que se tomem as medidas necessárias para o encaminhamento da crise interna e externa do país. Há, porém, um dado positivo para os Democratas: a economia voltou a crescer e o desemprego está caindo.

Mudar o sistema político binário é praticamente impossível.

Já no Brasil, não seria de todo impossível transformar o quadro político. Talvez seja esta a crise que nos permita lidar de uma vez por todas com a corrupção que vem de longe na nossa História. Se assim for, tudo bem. Só que se assim for mesmo, a situação ainda terá que piorar muito antes de melhorar.

Haja coração!, como dizem os nossos narradores de futebol.

Luis Felipe de Seixas Corrêa é diplomata, chefiou a missão do Brasil na ONU e na OMC. Foi por duas vezes secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores (1992 e 1999-2001).