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Chile se aproxima da verdade sobre a morte de Neruda e pede cautela

Relatório do Ministério do Interior causa um grande impacto no país sul-americano

Funeral de Pablo Neruda em 1973.
Funeral de Pablo Neruda em 1973. © Christian Simonpietri/Sygma/Corbis

Quarenta e dois anos e um mês depois da morte de Pablo Neruda, o Chile se aproxima da sentença sobre o falecimento de seu Nobel da Literatura, em 23 de setembro de 1973. As reações à informação do EL PAÍS que revelou que o Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior chileno, em um relatório do sumário declarado secreto, mostrava um possível assassinato de Neruda, chamou a atenção de familiares, autoridades chilenas, especialistas em Neruda e a imprensa da Europa e América.

O documento oficial faz parte da biografia escrita pelo historiador de Alicante Mario Amorós, de nome Neruda. O Príncipe dos Poetas. De acordo com o relatório oficial, “injetaram calmante no poeta, que produziu uma parada cardíaca que seria a causa de sua morte”. O documento acrescenta: “O que se sabe é que o estado de saúde de D. Pablo Neruda piorou rapidamente após essa injeção, e que sua morte ocorreu somente 6 horas e 30 minutos depois da mesma”. Até agora, sem uma sentença, a história indica que o poeta morreu de um câncer de próstata, 12 dias depois do golpe de Estado contra Salvador Allende.

Um dos sobrinhos do poeta, Rodolfo Reyes, querelante na investigação, afirmou à rádio Bío-bío: “Está prevalecendo a nossa tese. Essa revelação mostra que o atestado de óbito de Neruda na prática é falso”.

O magistrado Mario Carroza Espinosa, encarregado da investigação da morte de Neruda disse ao EL PAÍS que não é absurda a teoria do Governo sobre o poeta não ter morrido “em consequência do câncer de próstata que sofria” e que é “muito possível e altamente provável a intervenção de terceiros”. Segundo Carroza Espinosa, “não é uma teoria tão disparatada, mesmo que ainda precise ser completamente comprovada a versão dada pelo chofer de Neruda, Manuel Araya, responsável pela abertura da investigação em 2011”.

Hernán Loyola, especialista na obra de Neruda e amigo do poeta, não exclui a possibilidade de ele ter sido assassinado. Além disso, diz ao EL PAÍS que “existem os antecedentes do ex-presidente Eduardo Frei e do político Orlando Letelier. A Junta Militar não tinha escrúpulos. Mas acredito que Neruda teria gostado de aparecer como mais um morto da ditadura”. A notícia do assassinato do poeta teria sido uma denúncia de impacto excepcional contra a Junta Militar durante as primeiras semanas após o golpe de setembro de 1973, afirma Loyola. E continua: “Após 42 anos, quando o mundo inteiro já sabe muito bem quem foram Pinochet e seus cúmplices, sem dúvida continua sendo muito importante estabelecer a verdade sobre a morte do poeta. Mas, conhecendo-o pessoalmente como amigo e companheiro de batalhas, acredito que hoje ele iria preferir não ser o protagonista dessa notícia, mas lembrado como mais um entre os milhares de desaparecidos, torturados, assassinados pela ditadura, mais um dentro da enorme lista das vítimas do terror, uma lista longa como aquela lida pelo senador Neruda no Parlamento chileno em 1947 nomeando, um a um, os homens e mulheres que caíram vítimas da perseguição do presidente González Videla”.

Versões contraditórias

As escritoras Diamela Eltit e Carla Guelfenbein dizem que a investigação do Ministério confirma a suspeita que sempre existiu em seu país. “Todos os sinais indicam que foi morto nessa clínica onde estavam muitos militares e pessoas do serviço de inteligência. A mesma onde anos depois mataram Frei”, lembra Eltit. “Para mim é muito adequado que o Governo do Chile não esmoreça em seu empenho de buscar provas”, pede Guelfenbein.

O advogado Eduardo Contreras, representante do Partido Comunista, que apresentou a primeira querela por essa causa, disse à CNN Chile que compartilha a tese do Ministério, mas esclareceu: “Enquanto não a provarmos ninguém poderá ser processado. É uma atribuição exclusiva do poder judicial”.

O Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior emitiu um comunicado onde recorda que “existem versões contrapostas em relação à causa de morte de Neruda, as quais continuam sendo investigadas para tentar chegar a um veredicto judicial definitivo (…). Como querelante no processo, esta unidade sustenta que ‘diante dos fatos citados no processo, é claramente possível e altamente provável a intervenção de terceiros em sua morte’. Ela não antecipou conclusões que cabem apenas ao tribunal”.

"Este relatório é muito valioso, o documento mais completo que já surgiu no transcurso da investigação judicial desde 2011, porque ressalta os marcos mais importantes e tem a importância de validar o relato de Manuel Araya em seus aspectos fundamentais", afirma o pesquisador Francisco Marín, autor do livro El Doble Asesinato de Neruda, que revelou o possível assassinato graças a uma entrevista com o motorista Araya. Sobre a possível injeção, por exemplo, acrescenta Marín, “inclusive foi registrada no jornal El Mercurio, de Santiago, em sua edição de 24 de setembro de 1973”. O autor está convencido de que a morte de Neruda foi provocada por terceiros e que há muitos poderes cruzados tentando ocultar a verdade. Marín observa que na quinta-feira, quando o EL PAIS revelou o documento do Ministério do Interior chileno, ele conversou com Araya e ouviu dele “que sentia uma alegria muito grande pelo fato de a verdade estar sendo estabelecida e por terem escutado seu testemunho. Se não, isso teria morrido no esquecimento”.

Reunião em Santiago

Por intermédio do seu secretário-executivo, Fernando Sáez, a Fundação Pablo Neruda também reagiu: “Há três semanas ocorreu uma reunião em um hotel de Santiago com todos os peritos científicos, onde estava o magistrado Carroza, o Ministério do Interior e os órgãos e pessoas que participam da investigação, e evidentemente não existe nenhuma segurança de nada até este momento. Até agora não há nenhuma conclusão científica, absolutamente. Como fundação, evidentemente, estamos a favor da verdade, e neste momento é uma irresponsabilidade negar que Neruda morreu de câncer, como também negar que foi assassinado”, afirmou Sáez. Bernardo Reyes, outro dos herdeiros de Neruda, disse que “é preciso descobrir a verdade, mas à base de não forçar os argumentos que são bastante frágeis em algum sentido”.

Durante a investigação, em abril de 2013, o corpo de Neruda foi exumado, e em março deste ano o Ministério do Interior entregou seu relatório, incorporado ao processo, que corre sob sigilo. Em maio, o comitê científico comunicou ao juiz que havia detectado a presença do Staphylococcus aureus. Essa bactéria não está associada aos tratamentos do câncer e, quando alterada, pode ser altamente tóxica e acelerar a morte de uma pessoa, segundo os especialistas.

Em março de 2016 uma equipe científica entregará o último relatório. Então Carroza dará, a qualquer momento, o veredicto, com base nos laudos, provas documentais e depoimentos.

Quem quer assassinar um moribundo?

Jorge Edwards, escritor chileno e ganhador do Prêmio Cervantes, disse na sexta-feira em Madri: “Assassinar um moribundo? Quem quer assassinar um moribundo? É melhor deixá-lo morrer, não? E seguir um moribundo vencedor do Prêmio Nobel de Literatura... não faz sentido pretender assassiná-lo”.

Subordinado de Pablo Neruda durante sua etapa como secretário de embaixada em Paris, Edwards referiu-se dessa forma ao documento do Ministério do Interior chileno que reconhece a possibilidade de Neruda ter sido assassinado. Fez a declaração durante a apresentação da reedição de seu livro Persona Non Grata, que narra sua experiência como diplomata em Cuba durante a ditadura de Fidel Castro, quando Allende era presidente do Chile.

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