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Odebrecht usa carta a Moro para não responder a interrogatório do juiz

Empresário nega acusações sobre subornos para conquistar negócios com a Petrobras

Marcelo Odebrech, em foto de 2012.
Marcelo Odebrech, em foto de 2012. AFP

Preso há mais de 130 dias acusado de envolvimento no escândalo da Petrobras investigado pela operação Lava Jato, o empreiteiro Marcelo Odebrecht entregou nesta sexta-feira uma carta ao juiz federal Sérgio Moro. Convocado para prestar depoimento – o primeiro na presença do magistrado -, o herdeiro de um dos maiores impérios industriais do país optou por entregar por escrito um documento com perguntas e respostas, rebatendo algumas das principais acusações feitas pelo Ministério Público Federal. Contra ele pesa a suspeita de participação em esquemas de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa que lesou os cofres públicos.

Ao invés de responder oralmente aos questionamentos de Moro e do Ministério Público, o empresário pediu a palavra para dizer que estava sendo vítima de uma "publicidade opressiva" e de um "pré julgamento", caracterizado por vazamentos de dados pessoais à imprensa. "Apesar dessa minha manifesta e publica intenção de contribuir e colaborar com a investigação", afirmou Marcelo, "em retribuição a isso, o que vi: prisões preventivas, uma sobre outras, buscas e apreensões, interceptações telefônicas,bloqueio de bens e quebras de sigilo fiscal e bancário". Odebrecht chegou a dizer que os telefones de suas filhas menores de idade foram grampeados, fato prontamente desmentido por Moro.

O empresário criticou a dificuldade que sua defesa tem de acessar alguns documentos do caso. Quando o magistrado perguntou quais dados estavam sendo negados a seus advogados, o depoente respondeu dizendo que "seria importante" para ele nestas considerações "seguir uma linha de raciocínio ". Ele não respondeu à pergunta do juíz.

A maioria dos pontos refutados por Odebrecht em seu texto tem como base mensagens de e-mails e notas encontradas em seu celular e em seu computador, apreendidos pela Polícia Federal. Parte destes documentos serviu de base para alguns dos pedidos de prorrogação de sua prisão preventiva, já que no entendimento dos procuradores o executivo estaria tentando atrapalhar as investigações e até mesmo deixar o país. No entanto, quando o juiz indagou sobre acusações que não haviam sido respondidas na carta de Marcelo, o depoente se resumiu a dizer que "tudo o que eu conheço está nas minhas perguntas e respostas, entregue a vossa excelência". Entre as perguntas sem resposta citadas por Sérgio Moro estava o motivo de uma transferência de 21,8 milhões de dólares de uma conta da Odebrecht em Nova York para outra na Suíça.

"Respostas por escrito"

Em um lembrete escrito no aplicativo bloco de notas de seu telefone - apreendido pela PF -, Marcelo escreveu “trabalhar para parar/anular (dissidentes/PF)”. Para os procuradores foi um indício que o empresário estaria tentando influenciar os rumos da investigação. No documento entregue a Moro, o empreiteiro afirma que a nota em questão era um lembrete “feito apenas para acompanhar o assunto [que havia sido citado em uma reunião da empresa tendo como base reportagens da imprensa]”, e que segundo ele não tem “qualquer relação com as ilações feitas pelo MP no sentido de que eu estaria manipulando as investigações”. Na carta, ele aproveita para desqualificar o trabalho feito pelo Ministério Público: “A interpretação da anotação é propositadamente deturpada”.

Mais adiante, Odebrecht comenta um email enviado para ele por um executivo da Braskem, subsidiária da empresa. Na mensagem, o remetente cita um sobrepreço de 20.000 a 25.000 dólares por dia por sonda. A interpretação do MP foi de que a mensagem deixa clara a prática de prejudicar o erário. Já na explicação de Marcelo, “sobre preço não se trata de superfaturamento, mas de uma modalidade contratual usual neste mercado”.

O empresário também nega que a construtora tenha pago propina para obter contratos (“ Jamais orientaria esse tipo de conduta ilegal”), e diz que a Odebrecht não participou de nenhum cartel de empreiteiras para prejudicar a Petrobras. “Nunca tratei de assuntos relacionados à Petrobras, nem sobre qualquer licitação específica, com qualquer um deles [diretores de outras empreiteiras]”.

Uma das principais acusações contra a empresa envolve informações repassadas pelo Ministério Público suíço. De acordo com os documentos, empresas subsidiárias da Odebrecht fora do Brasil foram usadas para pagar 17,6 milhões de dólares (59 milhões de reais) a ex-dirigentes da Petrobras em contas secretas na Europa. Na carta entregue a Moro, Marcelo admite que a empreiteira tem contas no exterior, "já que existe atuação relevante [da Odebrecht] fora do Brasil", mas diz não ter conhecimento sobre os supostos pagamentos feitos a funcionários da estatal.

O empresário, que comanda um império que faturou 32,2 bilhões de reais no ano passado, estava na mira da Lava Jato desde o início das investigações em abril. Em novembro de 2014, quando o foco da operação se voltou para os corruptores (as empresas), foram presos diversos executivos de empreiteiras, mas a Justiça não conseguia chegar à Odebrecht, considerada a 'joia da coroa', e possível chefe do cartel, segundo a PF. O suspense terminou em junho deste ano, quando a Justiça dispunha de documentos que comprometiam Odebrecht ou ao menos exigiam explicações detalhadas sobre algumas operações. Com apoio de um corpo muito bem pago de advogados que o orientaram, a defesa começou nesta sexta.

Ao final de suas considerações na tarde de hoje, Odebrecht se dirigiu a Sergio Moro e disse que segue "acreditando na Justiça, na Justiça de vossa excelência".

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