Operação Lava Jato

O futuro de Eduardo Cunha está por um extrato de banco da Suíça

Presidente da Câmara havia negado perante CPI da Petrobras ter contas no exterior

Eduardo Cunha, no último dia 24 em Brasília.
Eduardo Cunha, no último dia 24 em Brasília.UESLEI MARCELINO (REUTERS)

As informações repassadas pela Justiça da Suíça para o Ministério Público Federal sobre contas secretas em nome de Eduardo Cunha e parentes têm força para derrubar o todo-poderoso da Câmara, de acordo com parlamentares. Deputados da base e da oposição afirmam que basta o surgimento de uma evidência concreta de que os 5 milhões de dólares bloqueados pelos suíços são de fato do presidente da Casa para que seja aberto um processo de perda de mandato por quebra de decoro parlamentar. Isso porque ficaria flagrante que Cunha mentiu em seu depoimento à CPI da Petrobras, o que violaria o regimento da Casa.

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No início do ano Cunha compareceu, de livre e espontânea vontade, perante a comissão que investigava corrupção na estatal. A ideia era mostrar força e transparência em um momento no qual delatores da Lava Jato colocavam o deputado no centro do escândalo de corrupção da Petrobras, e o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedia investigação contra ele no Supremo Tribunal Federal. A manobra do presidente da Câmara, que à época se mostrou eficaz (ele foi elogiado por quase todos os colegas da CPI), pode agora se voltar contra ele: questionado por colegas durante a sessão, Cunha negou ter qualquer recurso ou ativo no exterior – informação ratificada por sua declaração de bens ao Tribunal Superior Eleitoral. Nesta sexta-feira Cunha divulgou nota onde disse que "reitera o teor do seu depoimento prestado a CPI da Petrobras". Ele também afirma que desconhece o teor do material enviado pela Suíça, e que "assim que tiver ciência, por meio de seus advogados", irá se manifestar.

Para o deputado Chico Alencar (RJ-PSOL), a sessão plenária de quinta na Câmara mostra que os ventos já podem estar mudando para o peemedebista. Alencar perguntou a Cunha se ele tinha conta no exterior, mas o presidente do PMDB fingiu que não ouviu a inquirição. “Foi significativo que após eu ter feito a pergunta óbvia no plenário, não se ergueram vozes, especialmente do baixo clero, em defesa dele”, diz. De acordo com o deputado, aliados de Cunha dizem “à boca pequena” que ele está “a um extrato da queda”. Em outras palavras, só faltaria a imagem de um extrato de banco da conta na Suíça para que o deputado seja 'exorcizado'.

Um processo de perda de mandato por quebra do decoro parlamentar, no entanto, passaria necessariamente pela Comissão de Ética e Decoro da Câmara, onde Cunha tem forte base de apoio. Mesmo assim, Alencar acredita que a possibilidade existe. “Maior do que o espírito de corpo e os laços de interesse, inclusive financeiros, que criaram a rede de proteção ao Cunha", afirma, é o espírito de "sobrevivência individual política dos parlamentares”.

O vice-líder do Governo na Câmara, Silvio Costa (PSC-PE), acredita que a comprovação das informações remetidas pela Suíça marcará a derrocada de Cunha. “Eu não tenho dúvida de que os aliados do presidente vão com ele até a beira do abismo. Mas não vão pular lá dentro não”, afirma, comparando o comportamento da base de sustentação do deputado a “ratos de porão de um navio naufragando, que fogem quando o barco afunda”. De acordo com Costa, será preciso ver qual o “comportamento do clube da vodka” da Câmara, referindo-se aos parlamentares da oposição que acompanharam Cunha a uma viagem para Moscou em junho. O peemedebista possui uma espécie de bancada informal heterogênea, integrada por políticos da oposição e da base aliada.

Costa acredita que mesmo com maioria no Conselho de Ética, caso se comprovem as contas secretas “é inevitável que algum partido ou parlamentar instaure processo de perda de mandato”. “Até reconheço que ele [Cunha] entende muito do regimento. E ele sabe que no regimento mentir significa quebra de decoro”, afirma.

Para o deputado tucano Marcus Pestana (MG), a situação de Cunha “é mais um fato da agenda de uma profunda crise moral e ética”, introduzida, de acordo com ele, “por um modelo de governabilidade patrocinado pelo PT”. O parlamentar critica a condenação do presidente da Casa sem provas, e afirma que ele é “um dos mais importantes líderes do país”. Mas Pestana cobra explicações: “É fundamental que nas próximas horas, ainda hoje, ele se pronuncie e esclareça de forma cristalina a sua visão e versão das acusações”. O silêncio que Cunha tem mantido sobre o assunto até o momento, de acordo com o parlamentar, “não contribuirá e não somará nem para ele nem para a instituição da Câmara e nem para o país”.

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