Palestina

Nasce a primeira cidade para a classe média de uma Palestina sem Estado

Empresário formado nos EUA começa a entregar os imóveis em Rawabi, localidade próxima a Ramallah que terá 40.000 habitantes, apesar das dificuldades com Israel

A cidade de Rawabi, ao norte de Ramallah, em abril.
A cidade de Rawabi, ao norte de Ramallah, em abril.AHMAD GHARABLI (AFP)

O professor palestino Talal Shahuan, de 47 anos, não vê o mar desde 2008. Na companhia da sua filha Rania, de 15 anos, que praticamente não conhece o litoral, veio até aqui para visitar seu novo apartamento na primeira cidade nova construída na Cisjordânia em quase meio século de ocupação israelense. “Comprei esta casa porque acredito que isso contribui para forjar o futuro Estado palestino, custa menos que uma semelhante em Ramallah e ainda por cima tem vista para o mar”, diz o diretor da Faculdade de Química da Universidade de Birzeit, não muito longe daqui.

Ele pagou o equivalente a cerca de 540.000 reais por este imóvel de 220 metros quadrados, com quatro dormitórios e três banheiros. Da sacada, é possível ver a oeste os prédios de apartamentos e escritórios de Tel Aviv, “Nos dias claros, veremos o Mediterrâneo no horizonte”, promete a filha dele, convicta. Como a maioria dos palestinos da Cisjordânia, nenhum dos dois possui a autorização especial que permitiria atravessar os postos de controle do Exército israelense ao longo dos 40 quilômetros que separam Rawabi da praia.

A família Shahuan é uma das primeiras 600 a se instalarem nesta nova cidade para 40.000 habitantes. Ela faz parte de uma classe média emergente, composta por profissionais e empresários que se expressam com fluência em inglês. Não duvidaram em se comprometer com um financiamento durante as próximas décadas para poderem habitar a sua própria terra, em meio de uma paisagem bíblica de vinhedos e olivais, na primeira cidade planejada e dotada de cabo de fibra óptica no território. Os novos moradores de Rawabi são uma amostra de uma mudança na sociedade palestina: agora, famílias nucleares estão se instalando em apartamentos, em vez de morarem em casas tradicionais dentro do clã.

Surgida do nada no alto de um morro nos últimos quatro anos, esta localidade oferece agora uma paisagem urbana semelhante à dos grandes assentamentos judaicos. Rawabi (que significa colinas em árabe) também se assemelha a uma fortificação murada, apesar de quase toda a sua área ser reservada a pedestres e a coleta de lixo ser automatizada, no subsolo. Fica a apenas 10 minutos de carro de Ramallah, a capital administrativa da Autoridade Palestina, e a 20 de Jerusalém e Nablus, se os controles militares israelenses não estiverem congestionados. Por tudo isso, a nova cidade parece ser o sonho das camadas mais modernas da sociedade palestina. E talvez o pesadelo dos dirigentes tradicionais.

Este empreendimento custou o equivalente a 4,6 bilhões de reais, valor que disparou por causa de atrasos na concessão do fornecimento de água e da abertura dos acessos, que dependem em grande parte da chamada Administração Civil do Exército israelense, que controla 60% do território da Cisjordânia. Uma estrada vicinal dá acesso à rodovia 60, que percorre uma série de assentamentos para colonos judeus de norte a sul da Cisjordânia.

Bashar al Masri, nascido em 1961 em Nablus, estudou engenharia e trabalhou nos Estados Unidos até voltar à Palestina em 1995. Hoje comanda o Massar International, um conglomerado de 30 companhias do qual Rawabi depende. “Este é o maior projeto da história moderna da Palestina. Começamos sozinhos, mas, diante das dificuldades, tivemos que captar capital de sócios do Qatar”, admite o empresário nos escritórios de vendas do projeto.

“Ninguém em sã consciência investiria num projeto como este só por interesses econômicos”, argumenta. “Mas é a nossa contribuição à construção do Estado palestino.” Na sociedade palestina também se ouvem vozes de quem considera que o projeto legitima a ocupação e normaliza a relação com Israel, já que muitos alvarás precisam ser expedidos pelas autoridades do Estado judaico. “Respeito as opiniões de quem nos critica, mas estamos desafiando a ocupação ao tomar nossos assuntos nas nossas próprias mãos, in loco”, responde Al Masri. “Rawabi servirá para assentar profissionais e evitar uma fuga de cérebros, irá gerar empregos para palestinos na construção, no parque empresarial que construiremos mais adiante…”.

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Os responsáveis pela nova cidade se queixam de que o Governo do presidente palestino, Mahmoud Abbas, não cumpriu suas promessas de financiar a urbanização e os serviços públicos. “Tivemos de assumir tudo sozinhos, repassando uma parte dos custos das moradias, que ficaram até 15% mais caras”, relata Amir Dajani, engenheiro-chefe desse projeto que gerou entre 8.000 e 10.000 empregos durante sua construção, mais outros 3.000 a 5.000 empregos indiretos. A empresa de Al Masri se gaba de ser o maior empregador palestino no setor privado.

“A ocupação israelense continua, mas deve terminar pelo bem e pela segurança dos palestinos e israelenses”, argumenta o empresário, que foi mandado por seu pai para estudar na universidade norte-americana Virginia Tech depois de ser detido na Cisjordânia por atirar pedras e agitar a então proibida bandeira palestina. “Eu sei que parece mais um assentamento judaico”, admite, “mas eu prefiro chamar de cidade, a primeira cidade com todas as qualificações na história palestina. Em breve haverá eleições para a Prefeitura”.

Uma classe emergente de profissionais e empresários que se expressam fluentemente em inglês não hesita em se endividar por décadas para poder morar na sua própria terra, em meio a uma paisagem bíblica de vinhedos e oliveiras 

Blocos de pedra que parecem aguardar algum dia serem colocados em uma pirâmide emolduram aos pés de Rawabi o maior anfiteatro do Oriente Médio, que pode oferecer espetáculos para até 20.000 espectadores. É o principal símbolo da ambição da modernidade do projeto. No alto das arquibancadas, entre os cartazes com fotos de ícones da cultura regional, como a estrela egípcia Suad Hosni e o cantor libanês Wadi al-Safi, destacam-se duas grandes imagens de Elvis Presley e Marilyn Monroe ladeando Um Kulzum, a lendária diva da música árabe.

Do outro lado do vale que começa a ser urbanizado, os 700 colonos de Ateret, o assentamento situado em frente a Rawabi, nunca sofreram dificuldades com o abastecimento de água. “Não temos problemas com eles, mas no último verão arrancaram a bandeira palestina gigante da cidade”, revela um dos técnicos do projeto. “Nós estamos aproveitando a água da chuva e reciclamos as águas residuais em nosso depurador para reaproveitá-las”, diz. Os palestinos parecem estar aprendendo com os israelenses como aproveitar um dos recursos mais escassos do Oriente Médio. Não é por acaso que os colonos judeus da Cisjordânia consomem seis vezes mais água, em média, que seus vizinhos árabes.

No outro extremo de Rawabi, de frente para o Rio Jordão, a família Qawasmi parece estar à vontade em seu novo apartamento com vista para o estádio de futebol e as aldeias palestinas próximas. Ahmed, de 52 anos, empresário de máquinas agrícolas em Ramallah, e sua esposa Rula, de 42, vieram dar uma olhada na casa nova com dois de seus sete filhos, Ami, de 15 anos, e Salma, de 13. “Buscávamos um lugar calmo, longe do tumulto de Ramallah”, explicou a mãe. “Essa é a primeira cidade palestina moderna, aqui tudo vai ser diferente”. Os Qawasmi usam roupas ocidentais. Parecem felizes com sua nova casa.

Três veículos blindados israelenses se cruzam na estrada de saída de Rawabi, situada na zona A segundo os acordos de Oslo, de administração exclusivamente palestina, ainda que os acessos, nas zonas B e C, estejam sob o controle das forças de segurança de Israel. Diante dos problemas com o abastecimento de água, a unidade de Coordenação de Atividades Governamentais nos Territórios (COGAT) do Exército afirma através de seu porta-voz que o “planejamento e execução do abastecimento permanente de água à cidade de Rawabi é responsabilidade da Autoridade Palestina”. Como essa conexão, que também servirá outros povoados da região, ainda não foi construída, a Administração Civil autorizou “uma conexão temporária com 300 metros cúbicos diários de água”.

“Sim, já sei que isso se parece com um assentamento judeu. E daí? Pela primeira vez teremos casas com todas as comodidades, é isso que importa”, conclui Ahmed Qawasmi com um largo sorriso na varanda de sua nova casa em Rawabi.