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Dilma enfrenta protestos desinflados e diz que remédio da crise será amargo

Adesão a atos contra Governo e da esquerda é menor que esperado por organizadores

Até bonecos de presidenta e Lula sofrem com vento. Petista só discursa pela internet

O boneco de Dilma na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
O boneco de Dilma na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. EFE

Arquibancadas cheias de gente, protestos desinflados e um princípio de tumulto. Apesar de ter ouvido algumas vaias e ganhado um boneco inflável gigante que a satiriza, a presidenta Dilma Rousseff atravessou a parada militar deste 7 de Setembro sem maiores sobressaltos vindo das ruas. Os organizadores de atos contra e a favor do Governo petista tiveram suas expectativas frustradas: a adesão dos dois lados foi abaixo do esperado. Entre os que defendem o impeachment da presidenta, havia cerca de 1.000 pessoas, enquanto que os que são contrários, havia 200. Os dois grupos esperavam ao menos dez vezes mais. O público que foi assistir à parada militar foi composto por 25.000 espectadores. As estimativas foram divulgadas pela Polícia Militar.

Ainda assim, ela não teve alívio no front político. A lista de ausências de autoridades na tribuna presidencial demonstrou exatamente o momento de crise e isolamento da gestão Rousseff. A maioria dos ministros presentes era filiada ao seu partido, o PT. O vice-presidente, Michel Temer, que nas últimas semanas deu declarações polêmicas que foram interpretadas como um afastamento do seu PMDB da gestão petista estava lá, mas apenas um dos seis ministros peemedebistas o acompanhou. Nem representantes de outros poderes que costumam participar de atos solenes como esse apareceram. Duas das ausências notadas foram dos também peemedebistas Renan Calheiros, presidente do Senado, e Eduardo Cunha, da Câmara. Nesta terça-feira, Temer, que teve de divulgar nota para dizer que não "conspira" contra a chefe do Planalto, se reúne com governadores e congressistas do PMDB para debater a situação e todos esperam que venha desse encontro sinais que esclareçam se é real ou não o descolamento do vice de Rousseff.

A presidenta não discursou na cerimônia em Brasília. Antes do desfile, e em um pronunciamento divulgado na internet para evitar eventuais panelaços, Rousseff voltou a defender a sua gestão, admitiu que o seu Governo cometeu erros e disse que o remédio para superar a crise será amargo. “Se cometemos erros, e isso é possível, vamos superá-los e seguir em frente”, afirmou e completou: “Alguns remédios para essa situação, é verdade, são amargos, mas são indispensáveis”.

Nas Esplanada dos Ministérios ficou evidente a preocupação do Governo com os protestos. Para tentar frear as manifestações, o Ministério da Defesa instalou tapumes de aço entre os gramados da esplanada e o trecho onde ocorreu o desfile. A tentativa não surtiu resultado e causou revolta nos anti-dilmistas, que batizaram o tapume de “Muro da Vergonha”. Em alguns momentos do desfile, manifestantes a favor do impeachment batiam panelas e colheres nas chapas de aço

Mas nem toda a dificuldade para demonstrar insatisfação eles podem atribuir ao Planalto. Os próprios organizadores dos protestos pelo impeachment exibiram desorganização. Havia quatro carros de som. Cada um com um animador diferente que em muitos momentos falavam ao mesmo tempo ou tocavam músicas distintas. Um deles, o que estendia faixas pedindo uma intervenção militar, tinha somente um seguidor. Os demais, eram rodeados por centenas de pessoas, muitas delas segurando um boneco do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vestido de presidiário, batizado de “Pixulequinho” e vendido na hora por 10 reais – a camiseta com a mesma imagem custava 30 reais. “Estou aqui porque não aguento mais ver tanta roubalheira e descaso com a população”, afirmou o empresário Paulo Gioffoni, que viajou 1.100 quilômetros entre Cruzeiro (SP) e Brasília para participar do protesto.

No gramado em frente aos anti-petistas havia dois bonecos de plástico gigantes, o Pixuleco, representando Lula, e a “Pinóquia” ou “Dilmandioca”, uma sátira da presidenta Rousseff com o nariz grande. A ventania foi um adversário desses dois bonecos que passaram mais tempo desinflados do que cheios, devido a alguns rasgos que tiveram de ser reparados pelos organizadores. “Vim tirar um selfie, mas os dois bonecos estão murchos, caídos. Antes quem tivesse caído fosse a Dilma”, afirmou o vendedor Carlos Freitas, de 21 anos.

O único momento em que todos os que pediam o impeachment falaram em uníssono foi quando um dos animadores iniciou um Pai Nosso e, na sequência, entoou o Hino Nacional.

Entre os ativistas de esquerda, o cenário não foi muito melhor. Os representantes dos movimentos sociais, que participaram do tradicional “Grito dos Excluídos” e bradavam não ao golpismo, dividiram-se em duas alas. A primeira, formada por filiados ao PT e associados à Central Única dos Trabalhadores (CUT), carregava duas gigantes bandeiras vermelhas. A outra com membros de movimentos feministas, LGBT, trabalhadores sem-terra e sem-teto seguia uma espécie de uma bateria de escola de samba. Neste segundo grupo era possível ouvir gritos de “Fora PT”, sempre entoados pelo Movimento de Resistência Popular (MRP).

“Não temos ligação com nenhum partido. Estamos aqui contra o ajuste fiscal e pedindo mais moradias”, disse Maria Souza, uma das representantes dos sem-teto do MRP que, antes do desfile, atearam fogo em pneus no início da Esplanada dos Ministérios, a avenida onde ocorreu a parada militar, mas distante da tribuna presidencial e dos olhos do público.

Nesta segunda-feira, policiais civis do Distrito Federal também aproveitaram o dia para protestar. Cerca de cem deles carregavam bandeiras e faixas pedindo melhorias das condições de trabalho e reajuste salarial. Os policiais locais estão entre os que têm os melhores salários no país: 8.600 reais para os agentes e 16.000 reais para delegados. Dois chegaram a ser detidos por alguns minutos porque tentaram entrar sem autorização no desfile.

Quebra-quebra

Ao final da parada militar, houve um princípio de quebra-quebra. Justamente no momento em que um grupo inferior a 50 petistas passavam pela avenida, os manifestantes começaram a derrubar as chapas de aço instaladas como tapumes pelo Ministério da Defesa. Quando se depararam com os petistas, lançaram garrafas de plástico, latas e cocos. Ninguém foi atingido e a Polícia Militar não deteve nenhuma pessoa, apenas pediu calma para quem incitava a violência.

Mais cedo, havia sido registrado um princípio de vaias à Rousseff. Enquanto alguns espectadores do desfile vaiaram quando o seu nome foi pronunciado nos alto-falantes, outros a aplaudiam. Ao jornal Valor Econômico, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, disse que as ações contra a presidenta não preocupavam o Governo.

As manifestações pelo Brasil

Marina Rossi

Em São Paulo, o desfile cívico-militar em comemoração da Independência ocorreu na arena Anhembi, na zona norte da cidade na parte da manhã. Na arquibancada, cartazes com os dizeres ‘Fora PT’ e contra a corrupção dividiram o espaço com miniaturas do Pixuleco do ex-presidente Lula. Faixas pedindo que o Governo do Estado esclareça os autores da chacina ocorrida em Osasco e Barueri no dia 13 de agosto, que deixou ao menos 19 pessoas mortas, também foram erguidas. Um pequeno grupo pedia intervenção militar enquanto o governador, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), assistia ao desfile ao lado de autoridades.

A avenida Paulista concentrou parte dos manifestantes do Grito dos Excluídos, marcha anual criada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e que leva militantes e movimentos alinhados com a esquerda para as ruas. Pela manhã, eles marcharam até o parque Ibirapuera contra o golpe e pelo fim do ajuste fiscal. De acordo com os organizadores, o ato reuniu 10.000 pessoas. Para a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), que acompanhou a manifestação, o público era de 3.000 pessoas. Paralelo ao ato, outra marcha do Grito dos Excluídos concentrou militantes no centro da cidade, em frente à Catedral da Sé.

Belo Horizonte também teve seu Grito dos Excluídos. Segundo a Polícia Militar, cerca de 100 pessoas participaram da caminhada no centro da capital mineira pela manhã.

No Rio de Janeiro, 15.000 pessoas, segundo a PM, estiveram presentes no desfile cívico-militar no centro da cidade. A data, que também marca a contagem regressiva de um ano para o início das Olimpíadas, foi celebrada também com a representação de atletas paralímpicos. Antes da celebração, um grupo de pessoas protestou, pedindo a volta das forças armadas ao poder e carregando o Pixuleco de Lula.

Segundo os organizadores do Grito dos Excluídos em Fortaleza, 4.000 pessoas estiveram na manifestação. Enquanto isso, o desfile cívico-militar reuniu 40.000 pessoas, segundo os organizadores, ao longo da avenida Beira Mar. Um grupo de cerca de 50 pessoas realizou um protesto contra a corrupção com o Pixuleco.

Em Salvador, 35.000 pessoas, segundo a PM, participaram do desfile da Independência no centro da capital. No bairro do Campo Grande, o Grito dos Excluídos protestou contra a redução da maioridade penal, a corrupção, a terceirização e chamou a atenção à violência contra homossexuais, jovens e negros. Os organizadores disseram que o ato reuniu 8.000 pessoas. A PM não divulgou a estimativa.

No Recife, a marcha pediu a reforma política e defendeu a democracia. O grupo, de cerca de 1.000 pessoas segundo a Polícia Militar, também chamou a atenção para a violência.

Em Curitiba, um pequeno grupo de manifestantes pediu a intervenção militar durante o desfile cívico. Já em Porto Alegre o desfile foi marcado pela ausência dos policiais civis e militares. Isaac Ortiz, presidente do Sindicato dos Agentes da Polícia Civil, disse ao jornal gaúcho Zero Hora que “não havia clima” para a corporação desfilar. Isso porque o governo do Estado decidiu parcelar os salários dos servidores públicos para tentar amenizar o rombo das contas públicas no Estado. Após o desfile, um grupo protestou contra a atitude do governo estadual e outro pedia a intervenção militar.

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