Protestos na Guatemala

Guatemaltecos pedem nas ruas a renúncia do presidente Otto Pérez

Promotoria acusa o mandatário de ser o principal líder de um esquema de corrupção

(reuters_live)

A Guatemala amanheceu na quinta-feira com as ruas ocupadas por milhares de pessoas que pediam, em altos brados, a renúncia do presidente, Otto Pérez Molina. A Promotoria o acusa de ser o principal líder de um esquema de corrupção que pegava recursos do Estado nas aduanas do país. A acusação custou o cargo da ex-vice-presidenta Roxana Baldetti, que já está na prisão. A Promotoria pediu também a perda da imunidade do mandatário para que ele possa ser julgado.

A população começou a se mobilizar na madrugada nos pontos de reunião. O plano era iniciar as marchas pelas ruas principais e convergir, por volta de meio-dia, nos centros históricos que abrigam as instituições do Governo na Cidade da Guatemala e capitais de províncias. No campo, as organizações indígenas e camponesas optaram por bloquear as estradas e impedir o trânsito em pontos vitais da rede viária.

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“Renuncie já!” é o grito que domina as manifestações, que na quinta-feira alcançaram níveis sem precedentes diante da saturação generalizada pela corrupção dos sucessivos Governos, e reuniram aproximadamente 100.000 pessoas. “Eu não tenho presidente, o demito por ser um criminoso” dizia o cartaz do estudante de agronomia Ayner Pérez, que junto com outros 18 colegas viajou do distrito de San Marcos, 252 quilômetros ao sudoeste da capital. 75.000 manifestantes no interior do país e outros 25.000 na capital foram às ruas.

O clamor popular ganhou a adesão, na noite de quarta-feira, da Procuradoria Geral da Nação –órgão que dá assessoria legal ao Estado–, que em um comunicado recomendou a Pérez Molina “apresentar sua renúncia ao cargo para evitar a ingovernabilidade que trará como consequência a instabilidade da nação”. 40% dos mercados populares da Cidade da Guatemala fecharam suas portas. As organizações sindicais, universidades, colégios públicos e privados, comércios, empresas tomaram a mesma atitude.

A solidão do regime aumenta. A Direção de Migração confirmou na manhã de sexta-feira que dois dos ex-ministros mais próximos a Pérez Molina, o da Defesa, Manuel López Ambrosio, e do Interior, Mauricio López Bonilla, ambos militares, abandonaram o país de avião rumo ao Panamá, Estado com o qual a Guatemala não tem tratado de extradição.

Apoio empresarial

A permanência de Pérez Molina na presidência está por um fio. “A saída civilizada da crise dependerá de como estiver a cabeça do presidente. Que ele escute quem precisa escutar, e não os imbecis que o assessoram”, diz o analista independente Héctor Rosada, para quem Pérez tem como única alternativa o uso da força: o Exército e a Polícia. “Espero que aprenda com a História e não os utilize”, disse o analista ao EL PAÍS, para qualificar como positiva a atitude dos chefes das forças de segurança, que “estão agindo com muita sensatez, ao não inibir a expressão popular”.

A solidão do regime aumenta. Dois dos ex-ministros mais próximos a Pérez Molina abandonaram o país de avião rumo ao Panamá

Jorge Briz, presidente do Comitê Coordenador de Associações Agrícolas, Comercias, Industriais e Financeiras (CACIF, o poderoso órgão patronal), reiterou em conversa com o EL PAÍS o pedido de renúncia imediata de Pérez Molina. “Demonstramos insistentemente que o presidente precisa renunciar. Temos um mandatário que nos envergonha, não é digno de apresentação”. Afirmou que o setor empresarial apoia todos os movimentos de protesto, sempre que realizados dentro da lei. Não estão de acordo com o bloqueio de estradas porque, segundo ele, “além de serem ilegais, trazem severas perdas à economia do país”. O dirigente sindical pediu às empresas afiliadas que facilitem a presença de seus trabalhadores nas manifestações. José Pinzón, um dos dirigentes históricos do sindicalismo guatemalteco, disse que o mandatário deve renunciar e ser colocado à disposição dos tribunais. “Que os bandidos que enriqueceram graças ao erário paguem as consequências. Não mais corrupção, não mais impunidade, que os futuros governantes entendam isso”, frisou.