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Gatlin-Bolt, há jogo

Norte-americano tenta marcar território com o melhor tempo nas séries

Mas o jamaicano se mostra preparado para o desafio

Bolt, durante as séries dos 100m, em Pequim. Ampliar foto
Bolt, durante as séries dos 100m, em Pequim. AFP

Cada pessoa é um mundo e cada torcedor, um sábio, e vários interesses. Depois de ver os protagonistas em ação pela primeira vez no Ninho do Pássaro, o duelo mais esperado do Mundial de Atletismo, o Gatlin-Bolt que todos esperam na hora do café do domingo (10h15, pela hora de Brasília) adquiriu ainda mais caráter de clássico futebolístico, de um desses enfrentamentos que exigem que todos tomem partido, queiram ou não. Os jornalistas, gente ruim, como se sabe, querem majoritariamente –não os jamaicanos, claro– que ganhe o norte-americano vilão, Justin Gatlin, porque, com exceção dos patriotas, não há história mais brilhante do que contar a queda de um intocável pelas mãos de alguém que regressa do inferno. E não haverá queda mais simbólica do que a de Usain Bolt na mesma Pequim em que nasceu sua lenda.

Gatlin foi campeão olímpico em 2004, em Atenas. Dois anos depois, porém, ele foi pego no exame antidoping, sendo condenado a ficar afastado das pistas por outro anos -pena que caiu pela metade depois. Os torcedores de toda a vida estão com Bolt, claro, pois não há nada mais belo para contar aos netos do que ter contemplado crescendo a seu lado o florescimento e o desenvolvimento de um atleta extraordinário, dos poucos que marcam época. Os técnicos, os que sabem, não têm nada definido. E as semifinais só lhes propiciaram uma certeza: há jogo. Gatlin está dando seu melhor; Bolt melhora com cada pernada.

Com vento a favor (2,1 m/s) e a ânsia de marcar território à flor da pele, o norte-americano marcou o melhor tempo nas séries, 9,83s que intimidariam qualquer um que não fosse Bolt; Começou arrogante, com um gesto de escravo rompendo seus grilhões (supõe-se que a corrente que o escraviza, e ao sprintmundial, se chama Usain) e terminou voando. “E isso porque não forcei até o final”, disse Gatlin, contradizendo o observado na reta. “Meu treinador me disse que só precisava assegurar a classificação.”

Mas não perdi o respeito a Gatlin por seu doping porque nunca o respeitei

Usain Bolt

Já o jamaicano correu a série seguinte, e com leve vento contra (-0,2 m/s) e uma habitual saída penosa o fez em 9,96s. Começou sério e nervoso, agradecendo com um gesto amável o detalhe dos organizadores de amenizar os preparativos de sua série com seu Bob Marley, e terminou com um sorriso de satisfação. “Minha corrida foi boa”, disse Bolt, que não consegue sair bem, talvez por causa da idade e dos problemas de articulação, de quadris, joelhos, tornozelo, sofridos nesta temporada. “Não foi perfeita, mas melhor que em Londres [sua única saída do ano antes de Pequim: 9,87s] e ainda tenho que apurar tecnicamente. Foi nisso que me concentrei, nos aspectos técnicos. Sabia que Gatlin tinha corrido muito bem, mas ele é assim e não me assusta. Só quero ir mais rápido na semifinal [domingo, pelo horário de Brasília, 8h10] e um pouquinho mais na final”.

“E na final correrá em 9,60s”, sonham os jornalistas jamaicanos que acreditam em seu deus e em seu profeta também, o Asafa Powell relaxado e descontraído que venceu sua série em 9,95s também com vento contra. Acreditam mais nele do que em Gatlin, claro, a quem, como Bolt, não respeitam por considerá-lo um antiquado, um agressivo vulgar da velha história, que gosta de intimidar com seu gestual, e de quem riem dizendo, mas, quem você pensa que é cara?

Não há história mais brilhante do que relatar a queda de um intocável pelas mãos de alguém que regressa do inferno

“Perdi o respeito por Tyson Gay quando deu positivo porque para mim tinha sido o único rival, o que me obrigava a ser melhor a cada dia”, declarou Bolt no sábado em uma entrevista a L’Équipe. “Mas não perdi o respeito a Gatlin por seu doping porque nunca o havia respeitado. Entre outras coisas, porque nunca foi meu rival.” Duplo campeão mundial em 2005, nos 100m e 200m, e campeão olímpico dos 100m em 2004, Gatlin foi punido por quatro anos, coincidindo com o surgimento de Bolt em 2008. Agora, aos 33 anos, regressou como um homem com uma missão a cumprir, como um pistoleiro do Oeste: para ajustar contas e fechar os ciclos, o de Bolt e o seu.

Bolt continua no atletismo aos 29 anos pelo desafio olímpico de 2016, sua grande motivação, mas, como reconheceu ao jornal francês, o sucesso no Rio passa por manter a invencibilidade no Mundial em Pequim. “Perder seria devastador”, disse.

Nas séries, também causou admiração um segundo norte-americano, Trayvon Bromell, um rapaz de 20 anos e com bochechas de bonachão que corre como Gatlin, com pernada curta, mas a uma velocidade vertiginosa. Foi o segundo melhor tempo, 9,91s.

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