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Esquerda vai às ruas em manifestação contra impeachment, Cunha e Levy

Entidades que organizaram os atos defenderam que Rousseff permaneça no cargo

Manifestantes nesta quinta-feira, em São Paulo.
Manifestantes nesta quinta-feira, em São Paulo. EFE

Quem pensava que se trataria de um ato com tom de defesa do Governo Dilma Rousseff (PT) se enganou. Militantes de movimentos sociais foram à avenida Paulista, nesta quinta-feira, para defender programas e direitos sociais e trabalhistas, como faziam questão de ressaltar a todo o momento. Por causa disso, não foram poucas, nem leves, as críticas feitas ao atual Governo petista, especialmente ao seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Nem a Eduardo Cunha, presidente da Câmara que tem colocado em votação pautas conservadoras.

Organizado por 26 movimentos sociais, mas tendo o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) como protagonista, o protesto chegou a reunir em São Paulo cerca de 100.000 manifestantes, segundo a organização, e 40.000, de acordo com a Polícia Militar. Foi o maior ato dentre todos os realizados nesta quinta, em 17 Estados e o Distrito Federal.

Apesar de algumas faixas de apoio a Rousseff e até ao tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, preso na operação Lava Jato, na maioria dos cartazes se via um genérico “não ao golpe”, em referência aos pedidos de impeachment expressados no ato anti-Dilma, que reuniu 135.000 pessoas em São Paulo, de acordo com o Datafolha, no último domingo. E eram muitos os dizeres contra o ajuste fiscal, arquitetado por Levy.

Foi a forma que os 26 movimentos encontraram para se unir, em meio a um descontentamento grande da esquerda com o Governo. Havia a ala que defendia uma posição enfática contrária ao impeachment, vinda de movimentos ligados ao PT e PCdoB, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e União Nacional dos Estudantes (UNE). E outra, especialmente do MTST e do PSOL, que defendia a crítica aberta ao ajuste e a redução dos direitos trabalhistas.

Como o movimento dos Sem-Teto, liderado por Guilherme Boulos, é, atualmente, um dos poucos que conseguem mobilizar uma grande massa de pessoas, a versão com as críticas prevaleceu –e esteve presente em discursos fortes. E foi feita na presença de políticos petistas, que compareceram, mas ficaram nos bastidores, como o presidente da sigla Rui Falcão, que à imprensa contemporizou as diferenças e disse que os organizadores tinham uma agenda em comum: a defesa da democracia.

“Hoje o bloco do povo entrou em campo e quer colocar de forma clara a agenda dos de baixo”, afirmou Boulos na abertura do ato, que começou às 19h, no Largo da Batata, em Pinheiros. “Somos contra a saída [da crise] com o PMDB, Cunha, Michel Temer. E com aquele banqueiro prepotente chamado Joaquim Levy. Ele não é defendido por ninguém aqui no Largo da Batata”, ressaltou.

De fato, Levy foi muito criticado até pela CUT. Na passeata, homens do sindicato carregavam bonecos infláveis que traziam Eduardo Cunha, José Serra, senador pelo PSDB, e Aécio Neves, candidato tucano derrotado na última eleição presidencial, em roupas de prisão. Ao lado, outro boneco inflável, que simbolizada Levy, vinha com terno e gravata e, no peito, o número 171, que no código penal se refere a crime de estelionato –mas que também é o número do projeto de lei que reduz a maioridade penal aprovado nesta quarta-feira no Congresso.

Mesmo a UNE, acusada por outros movimentos estudantis presentes no ato de defender cegamente o Governo, aproveitou o momento para dar seu recado a Rousseff. “Viemos aqui dizer que o Governo precisa estar mais conectado com o povo. Discordamos do ajuste fiscal que cortou dinheiro da educação”, afirmou para a multidão a presidenta da entidade, Carina Vitral.

Além dos movimentos sociais que organizaram o ato, também estiveram presentes movimentos feministas, movimentos de bairro – como um grupo de Osasco que portava uma faixa de protesto contra a chacina ocorrida na Grande São Paulo – e pessoas sem qualquer ligação com grupos organizados, mas que votaram no PT e queriam defender a manutenção da presidenta no poder, como o analista de sistemas Paulo Machado, 49, e a farmacêutica Lúcia Gonzales, 56. “Nós viemos apoiar nosso Governo. Achamos que esse movimento de desestabilização política é prejudicial para o país”, ressaltou ele. “Mas a passeata também é um pedido para que ela mude a política. Na tentativa de agradar um lado [conservador], ela acaba desagradando os dois”, disse ela.

Cunha, a grande esperança da ala anti-Dilma para tocar o impeachment no Congresso, também foi brutalmente atacado. Não apenas pelas derrotas que tem imposto ao Governo petista, mas também pelas vitórias de pautas conservadoras, como a própria redução da maioridade penal e o financiamento privado de campanha. “Viemos aqui defender a democracia e a continuidade do mandato de Dilma Rousseff, mas também contra essa agenda conservadora. Queremos uma Constituinte soberana para discutir a reforma política e o fim do financiamento privado de campanha”, Afirmou Flávia Bigai, 33, do movimento feminista Marcha Mundial das Mulheres. Os gritos de “Fora Cunha” caminhavam junto a comemoração da notícia de que ele foi denunciado pelo Ministério Público Federal por envolvimento na Lava Jato.

Ao fim do ato, Boulos, mais uma vez, comemorou a mobilização. “Estamos hoje com 100.000 pessoas nas ruas de São Paulo. Aqui é o povo. Aqui tem negro, pobre, não é a turma do Jardins”, disse, em tom jocoso, para se referir aos participantes do ato de domingo. “Por isso, queremos uma saída popular para a crise". 

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