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“Selfio, logo existo”

Será o ‘selfie’ uma forma freudiana de luta contra a solidão e de busca de um sentido para a vida?

Campanha presidencial de 2014, em Fortaleza.
Campanha presidencial de 2014, em Fortaleza.Ichiro Guerra/ Dilma 13 (Fotos Públicas)

O Brasil passa por um momento paradoxal. Tem-se a impressão de que é um vidro quebrado. A crise econômica que gerou a política ou, talvez, o contrário, inflama os ânimos. Ressoam palavras duras como "ódio", "vingança" ou "traição". É o gosto amargo da divisão, do "nós contra eles", ou da queixa "deles contra nós".

E, no entanto, como em um mundo que vibra simultaneamente em outro diapasão, os brasileiros nunca gostaram tanto quanto hoje de estar juntos, de ser fotografados se abraçando, de fazer um selfie.

Estarão essas duas sociedades condenadas a ser uma assíntota da hipérbole, essas duas linhas que, mesmo caminhando juntas, nunca se encontrarão? Ou será apenas uma poeira levantada no deserto pelos cascos dos cavalos em fuga, que em breve voltarão a se acalmar?

Há 400 anos, o filósofo francês Descartes, o pai da filosofia e da matemática moderna, precursor do idealismo, resumiu seu pensamento na famosa frase: "Penso, logo existo".

Hoje nosso mundo, que tem pouco a ver com o do filósofo (não sei se mais profundo e iluminado ou mais superficial), pode dizer: "Selfio, logo sou". Refiro-me a essa febre do autorretrato analisada por sociólogos e psicólogos, e por aqueles que se dedicam a farejar as tendências da sociedade.

Essa moda do selfie servirá para entender melhor o sentido da vida de hoje, com suas contradições, sofrimentos e glórias?

Há poucos dias, outro filósofo francês, Charles Taylor, afirmava em uma entrevista para Frances Arroyo neste jornal que "as pessoas hoje não têm claro o sentido da vida". Isso seria verdade ou Descartes teria dito a mesma coisa em seu tempo, ou isso continuará sendo dito daqui a quatro séculos?

Enquanto existir a morte, dizia o Nobel de Literatura ateu José Saramago, haverá religiões e filosofias, que nasceram todas arrastadas por essa questão sobre o além e sobre o sentido da vida aqui embaixo.

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Nessa encruzilhada da história, todos somos, brasileiros e chineses, uma sociedade da imagem que olha mais para o corpo, para a saúde, para o presente, para o tangível, do que para o abstrato. Olha mais para a felicidade, do que para o pecado. Os anjos e demônios têm nela corpo e sexo.

Melhor ou pior, o mundo de hoje é, no entanto, o nosso, e não podemos fingir que não existe. E é um mundo diferente daquele dos filósofos gregos ou latinos, embora às vezes com as mesmas contradições e dúvidas.

As crianças do futuro talvez não voltarão a escrever com as mãos. As de hoje já sabem fotografar com o celular aos 2 anos. Mudamos porque continuamos vivos. Só os mortos não mudam.

Essa moda do selfie, que dominou com força todo o planeta e também o Brasil, é antes de tudo algo democrático, já que é usada por cidadãos de todas as categorias sociais e de todas as classes econômicas. Do presidente da República ao garçom do bar, do milionário ao trabalhador pobre das favelas.

Será mais do que uma moda? Etimologicamente, o selfie, que já transformamos em verbo, era um ato individualista, um autorretrato. Aquele narcisismo inicial deu lugar, no entanto, a algo mais importante: à socialização da fotografia. O selfie individual foi pluralizado. Agora predominam os retratos de dois ou em grupo. Será uma forma inconsciente, freudiana, de lutar contra a solidão e para estar ciente do eu também existo? Precisamos de alguém ao nosso lado, sem o qual nosso narcisismo inicial ficaria vazio, puro vício solitário?

Alguém me fez observar que, enquanto nos selfies individuais podem existir fotos mais sérias, praticamente não há selfies de casais ou de grupo nos quais os interessados não estejam sorrindo. Existe uma cumplicidade espontânea nesses retratos? Mesmo em selfies com uma personalidade importante, que deveriam ser sérios, as pessoas sempre estão sorrindo.

Os selfies nos ajudam a tomar consciência em uma sociedade de anônimos, de que somos, de que valemos algo, embora seja através da sombra de alguém mais importante do que nós?

Quando o selfie ocorre entre casais que se amam, entre pais e mães encantados com seus pequenos ou entre amigos, nos dá uma convicção interior de que não apenas existimos, mas que também somos, que nos amam, que não rejeitam nossa presença e até querem perpetuá-la.

Já sei que muitos pensarão que a filosofia e a estética moderna do selfie parecem mais uma banalidade em comparação à antiga e inteligente filosofia dos gregos e romanos.

No entanto, não nos esqueçamos de que nosso mundo de hoje, tão criticado pela superficialidade e injustiças, é infinitamente melhor, quase em tudo, do que o de apenas cem anos atrás.

Que o digam as mulheres, que até recentemente eram uma triste caravana de escravas de seus maridos; que o digam as crianças, cuja estatuto em sua defesa, proclamado pela ONU, tem apenas 25 anos.

Até recentemente, crianças e mulheres tinham menos direitos do que os desfrutados hoje até mesmo pelos animais. Que o digam os negros, homossexuais, que também começam a gozar de direitos que foram sempre negados a eles. Hoje existem mais democracias do que ditaduras no mundo, e menos violência. Sim, menos violência e menos guerras do que há apenas cem anos.Hoje, no Brasil, manifestações da direita ou da esquerda são pacíficas, sem sangue.

Não é tudo, mas também não é pouco. E é melhor do que ontem. Os sorrisos festivos dos selfies poderiam ser até uma bela profecia do desejo inconsciente de querer buscar um sentido menos doloroso e bélico para a vida.

Meu pai, maravilhosamente ético, inteligente e sensível, nunca nos abraçava nem brincava com a gente. Não tenho fotos com ele sorrindo. Amava os filhos de outra maneira.

Um selfie com os leitores?

Obrigado.

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