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Após protesto, Governo se diz otimista e FHC pede renúncia de Dilma

Gestão Rousseff comemora que atos não superaram março e critica partidarização PSDB, que foi às manifestações pela primeira vez no ano, aumenta o tom contra Planalto

Protesto contra Dilma e Lula em Brasília, no domingo.
Protesto contra Dilma e Lula em Brasília, no domingo.EVARISTO SA (AFP)

Um dia após a terceira multitudinária manifestação do ano pedir o impeachment presidencial, a palavra de ordem no Palácio do Planalto é otimismo. O Governo Dilma Rousseff (PT) enviou uma mensagem de que vê como parte "da normalidade democrática" os atos que reuniram milhares de pessoas pedindo a saída da presidenta. Ainda que, internamente, comemore o fato de que não superaram os primeiros protestos, em março, e apostam tanto no acordo de governabilidade fechado com o presidente do Senado, Renan Calheiros, como na reaproximação com os movimentos sociais para resistir à crise política. "Existiu um recuo [no número de manifestantes], o que para nós não deixa de fazer com que essa manifestação seja importante. Reconhecemos a importância da mobilização. Reconhecemos que ela tem significado. Não quero aqui entrar na caracterização socioeconômica de quem foi para as ruas de acordo com as pesquisas que foram divulgadas", declarou o ministro da Comunicação Social, Edinho Silva, após a reunião de coordenação política na manhã desta segunda. “O mais importante para ao Governo neste momento é quebrar esse clima de pessimismo no país. Se estamos passando por dificuldades, as medidas estão sendo tomadas para que esse período seja superado em breve”, seguiu Silva.

O Governo aproveitou para criticar a partidarização dos protestos, citando que lideranças do PSDB, como os senadores Aécio Neves, José Serra e Aloysio Nunes, convocaram e participaram ativamente pela primeira vez neste ano dos atos. As declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) selaram de vez a escalada de tom dos tucanos, empenhados em não deixar arrefecer a pressão sobre a presidenta: "Se a própria presidenta não for capaz do gesto de grandeza (renúncia ou a voz franca de que errou) assistiremos à desarticulação crescente do governo e do Congresso, a golpes de Lava Jato", escreveu FHC.

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O comentário do ex-presidente foi ao ar em sua página pessoal no Facebook ao meio-dia, no mesmo momento em que os emissários de Dilma davam seu recado em coletiva de imprensa, após duas reuniões a portas fechadas em menos de 24 horas. “É um novo período que se abre. Sintetizo a posição do Governo como uma abertura ao diálogo”, enfatizou o deputado José Guimarães (PT-CE), o líder da gestão Rousseff na Câmara. Nos últimos 30 dias, a presidenta tem intensificado sua agenda de reuniões com congressistas e movimentos sociais, que devem ir às ruas na quinta-feira em defesa do Governo.

Guimarães também citou o papel da oposição: "O espírito de intolerância é manipulado em parte pela oposição, que semeia o ódio. É um antídoto da democracia, forjada e construída nas lutas pelas Diretas Já e contra o regime militar. Essa intolerância não é saudável, ela interdita o diálogo, o contraditório e o valor fundamental que tem de estar sempre na democracia, a divergência. Ainda bem que quem faz isso é uma minoria."

O senador Humberto Costa, líder do PT no Senado, afirmou, no entanto, que a força dos manifestantes não deve ser menosprezada. “Apesar da redução do número de pessoas que foram às ruas não significa que a insatisfação com nosso Governo tenha diminuído. Por essa razão, o Governo deve ter todo o empenho para avançar em uma agenda de interesse do país que procure avançar e enfrentar os problemas econômicos”.

Mea-culpa e PSDB

Acusada de ter cometido um estelionato eleitoral e provocada até por entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que disse que Rousseff deveria pedir desculpas à sociedade, a presidenta não dá sinais de que cederá aos pedidos de que faça mea-culpa. Indagado sobre esses pontos, o ministro Silva afirmou: “Se trabalhar para a manutenção dos empregos no Brasil, se trabalhar pela renda da população, principalmente da população mais marginalizada desse país, se trabalhar pela manutenção de programas sociais importantes para o povo brasileiro, é um equívoco, então que se constate o equívoco”.

Enquanto isso, o PSDB se esforça para não deixar que o Governo se recupere. Em artigo publicado nesta segunda-feira no jornal Folha de S. Paulo, um dos principais oposicionistas, o senador Aécio Neves, martelou a tese de estelionato eleitoral. “Hoje, o PT paga esse alto preço não apenas pelos graves erros cometidos, mas porque insiste em fingir que não os cometeu!”

Já Fernando Henrique Cardoso usou seu perfil no Facebook para comparar Dilma Rousseff a Fernando Collor e citar a sátira do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como presidiário. "Com a metáfora do boneco vestido de presidiário, a Presidente, mesmo que pessoalmente possa se salvaguardar, sofre contaminação dos malfeitos de seu patrono e vai perdendo condições de governar." Ele ainda atacou o acordo entre Planalto e o Renan Calheiros. A saída negociada com a ala do PMDB do Senado dificulta a possibilidade de um PSDB, que vive suas próprias divisões internas, de se posicionar na crise política. "A esta altura, os conchavos de cúpula só aumentam a reação popular negativa e não devolvem legitimidade ao governo, isto é, a aceitação de seu direito de mandar, de conduzir", escreveu. O tucano disse que a presidenta verá seu Governo se deteriorar "até que algum líder com força moral diga, como o fez Ulysses Guimarães, com a Constituição na mão, ao Collor: 'Você pensa que é presidente, mas já não é mais'".