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TRIBUNA

Divagações em torno da Grécia

A crise grega tem ingredientes muito sérios, tanto para os países desenvolvidos quanto para os países em desenvolvimento

A atual crise da Grécia é relevante não apenas para a União Europeia, mas também para todos os países em desenvolvimento que mantêm relações de proximidade com os organismos financeiros internacionais e com os países desenvolvidos em geral. Vista pela opinião pública brasileira como um problema distante, a crise grega tem ingredientes muito sérios tanto para os países desenvolvidos, quanto para os países em desenvolvimento. Havendo-se endividado fora de qualquer limite razoável nos anos de bonança, a Grécia paga hoje o preço de uma virtual falência por falta de recursos e pela negativa dos países europeus em aumentar os empréstimos sem uma contrapartida substantiva de políticas de austeridade. Sem recursos para pagar o que deve, a Grécia busca leniência e recebe de volta declarações morais do tipo da fábula de La Fontaine sobre a cigarra e a formiga: Cantou no verão? Agora dance no inverno!.

Essa é a lógica do poder. Esquecem os poderosos, porém, que têm uma responsabilidade solidária: emprestaram além do razoável. E agora querem cobrar, arriscando o que se imagina possa ser uma catástrofe social e econômica na Grécia. Se flexibilizarem em demasia a Grécia, porém, como justificariam o aperto que foi dado à Espanha, a Portugal e à Irlanda? Sem falar no que poderia ser eventualmente aplicado à Itália e, diz-se até, à França. Ambos são como se diz em inglês, "too big to fail". Mas se estivermos efetivamente à beira de uma nova recessão mundial, nada é impossível.

Acredita-se que terá havido um erro de cálculo por parte da União Europeia — em particular da Alemanha, maior credor individual da Grécia — ao insistir em que a Grécia continuasse a pagar e a recusar novos empréstimos. Bruxelas talvez tenha imaginado que a Grécia poderia ter sido mais flexível e que serviria de exemplo para outros países que viessem a ser tentados a fazer coisa parecida. Na realidade, isso não aconteceu. O núcleo duro da União Europeia talvez tenha criado uma situação ainda mais difícil para si mesmo.

O pedido de novo empréstimo já foi feito. Escrevo às vésperas do prazo dado à Grécia pela União Europeia para apresentar nova proposta para consertar os desequilíbrios econômicos e financeiros que a levaram à bancarrota. Muita coisa pode ainda acontecer. Inclusive o recuo de Bruxelas. A demissão do Ministro das Finanças grego logo após o referendum pode ter sido armada justamente para facilitar o acordo. Como se diz na linguagem política brasileira, "tirou-se o bode da sala!". Mas pode não ser. Neste caso a Grécia deixaria o Euro (quem sabe até se afastaria da União Europeia), desvalorizaria a dracma e trataria a duras penas de conformar sua economia à realidade não propriamente "desenvolvida" do país. Aumentaria o turismo, vender-se-iam mais azeitonas e mais azeite e a Grécia retomaria a sua trajetória.

Não deixaria de ser uma grave crise para a construção europeia. Afinal, como diziam os românticos, "todas as ruas de Paris começam em Atenas!". Europa é um nome que vem da mitologia grega. É lá que começa a História do que veio a ser o mundo ocidental. Bruxelas será insensível a esse fato?

Pode ser que sim. Pode ser que não.

Se for insensível, abrirá mais as portas para a saída do Reino Unido porque terá indicado a sua falta de flexibilidade para atender o que se considera como a excepcionalidade britânica. Se for sensível, poderá por outros caminhos dar margem a um processo de desconstrução das normas da integração europeia.

Nesse tipo de situação a tendência da diplomacia é procrastinar: adiar uma decisão até que ela se torne inevitável. Ou seja, tomar medidas aproximativas, de meio termo, que permitam ganhar tempo na expectativa de que algo novo ou extraordinário possa acontecer. O problema é que normalmente não acontece coisa alguma....

E o Brasil, que tem a ver com isso?

Muita coisa.

Primeiro, porque a estabilidade da União Europeia constitui fator indispensável para a estabilidade mundial. Já estamos vivendo um período bastante instável com o crescimento vai-e-volta dos EUA, com o que pode estar-se caracterizando como uma interrupção no crescimento acelerado da China, e com a lentíssima retomada do Japão. Sem falar nas permanentes incertezas geradas pelo confrontação com o islamismo radical.

Segundo, porque, às voltas com uma recessão séria e uma crise político-institucional igualmente sombria, o Brasil precisará de muito espaço externo para voltar a crescer.

Terceiro, porque uma eventual desconstrução da Europa terá certamente consequências para a construção do Mercosul.

Se a Grécia for levada a tomar a cicuta que foi dada a Sócrates na Antiguidade, sofreremos todos. O filósofo suportou a condenação com enorme dignidade. Sabia que seu pensamento era maior e mais profundo do que o dos que desejavam suprimi-lo. A sociedade grega de hoje, porém, não tem o temperamento socrático. Poderá muito bem não tomar a cicuta. Preferirá a liberdade política e econômica. Vai pagar muito caro qualquer que seja a sua decisão: tal como o mítico herói nordestino, se ficar, o Bicho come; se correr, o Bicho pega!

Luis Felipe de Seixas Corrêa é um diplomata brasileiro.

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