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Tsipras o Grego

A ameaça de ruptura na união europeia é observada com interesse pela América Latina

O premiê grego, Alexis Tsipras.
O premiê grego, Alexis Tsipras. Thanassis Stavrakis (AP)

A ameaça de ruptura na união monetária europeia provocada pela crise financeira da Grécia está sendo observada com muito interesse na América Latina por suas possíveis derivações políticas para uma região que tem muita experiência com problemas de dívida. A pergunta é se um país cronicamente moroso, como a Grécia, pode conseguir maior bem-estar desafiando os financiadores de sua economia com uma suspensão de pagamentos de sua dívida. O caso da Grécia é emblemático porque o drama produziu uma decisão popular em um referendo no qual os eleitores rejeitaram os remédios dolorosos que exigem os financiadores para continuar apoiando a Grécia.

A negativa à austeridade por um pronunciamento democrático seria certamente aplaudida por Péricles, o grande estadista da Grécia clássica que promoveu a democracia ateniense. Zorba o Grego, o personagem do famoso filme que encarna o espírito exuberante de seu povo, estaria dançando nas ruas junto aos outros manifestantes que celebraram o triunfo do não. No exterior, a esquerda inundou as redes sociais com mensagens festejando a vitória. “Vencemos, podemos” tuitou um espanhol, celebrando a vitória do Syriza, o partido esquerdista grego, como uma antecipação da chegada ao poder do movimento Podemos, que já governa, em coalizão, em Madri e Barcelona e aspira a ganhar o poder nacional nas eleições em dezembro.

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No Brasil, o partido PSOL, formado por dissidentes à esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT), declarou-se aliado do Syriza no combate aos os poderes financeiros internacionais que estão cobrando da Grécia os 50 bilhões de dólares que deve. “É preciso apoiar o Governo grego” disse em sua página o Correio da Cidadania. E José Felicio, diretor de relações internacionais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), resumiu a visão da esquerda em uma declaração: “É hora de os países europeus e os partidos de esquerda se alinharem e dizerem “basta” a essa situação, enfrentando de forma conjunta as políticas de ajuste fiscal. O que está acontecendo na Grécia, com a recusa da população, é a prova mais cabal de que existem caminhos para resistir ao ajuste fiscal e à austeridade... Para nós, a alternativa não é essa. É preciso fazer profundas reformas tributárias em todos os países para que os estados obtenham mais recursos para seu desenvolvimento”, afirma, certamente pensando no ajuste do Governo de Dilma Rousseff.

Alexis Tsipras, o jovem (40 anos) e midiático primeiro-ministro da Grécia se converteu em um ícone da esquerda na América e nos países europeus que sofrem problemas de endividamento, desemprego, e retrocesso no crescimento econômico similares aos da Grécia, como Espanha, Itália e Portugal. Mas, serão Tsipras e seu partido Syriza, de esquerda radical, a salvação? Para os 11 milhões de gregos o problema é que sua economia se encontra gravemente debilitada, com um retrocesso de 25% desde 2000 e dívidas acumuladas que representam mais de tudo o que a Grécia produz a cada ano. A economia precisa se recuperar para poder equilibrar as dívidas e essa recuperação só é possível se forem feitos os investimentos produtivos adequados. As evidências ocorridas na América Latina comprovam que as rupturas radicais agravam as crises. Por outro lado, se os países devedores aplicarem critérios pragmáticos, pode-se chegar a bons acordos que facilitem a recuperação da capacidade de pagamento, a base de novos investimentos domésticos e no exterior. Mas, para conseguir esses investimentos é necessário aplicar disciplina às finanças públicas, o que não foi feito na Grécia. Na América Latina há alguns exemplos do caso contrário.

As evidências ocorridas na América Latina certificam que as rupturas radicais agravam as crises

Tanto o México, como o Brasil, Chile e Argentina passaram por crises de dívida externa. E com resultados diversos. Em 1982, o México se declarou em suspensão de pagamentos (default, em inglês) de uma dívida de 80 bilhões dólares que se acumulou durante o Governo do presidente José López Portillo. Ele esbanjou lucros provenientes do petróleo até que esse mesmo produto, e seu preço volátil, conduziu uma crise. Portillo nacionalizou os bancos privados para não pagar as dívidas, mas seus sucessores corrigiram as medidas radicais, conseguiram acordos com o Fundo Monetário Internacional e pacificaram o mundo financeiro que mantém o sistema capitalista ocidental. Com o tempo, o México voltou a ser um grande produtor de petróleo e a crise foi esquecida. O Brasil suspendeu pagamentos em 1987, quando um Governo, fruto de eleições democráticas, não conseguiu pagar em dia uma dívida de 75 bilhões de dólares acumulada durante 21 anos de governo militar. As dívidas financiaram grandes investimentos que produziram o chamado “milagre brasileiro” dos anos oitenta. Mas esse milagre desembocou em crise quando os Estados Unidos elevaram os juros a mais de 21% anuais sobre a dívida. Era impagável. O Brasil negociou, conseguiu um prolongamento dos prazos e, finalmente, estabilizou sua economia controlando a inflação e estimulando investimentos privados com o Plano Real de 1995. Agora o Brasil tem reservas internacionais de mais de 350 bilhões de dólares em moedas conversíveis e um futuro econômico com grande expansão de exportações agrícolas e mineiras, incluindo petróleo. O Chile sofreu em 1973 o colapso de sua economia devido a políticas de marca socialista, afastando investimentos com a nacionalização das minas de cobre. Era o que o presidente Salvador Allende chamava “o salário do Chile”. O Chile levou uma década para se recuperar e voltar a ter acesso aos investimentos internacionais e para que sua economia crescesse graças a governos democráticos que atraíram grandes mineradoras internacionais. Esses investimentos fizeram do Chile o maior exportador mundial de cobre, com a China como seu principal mercado.

O caso Argentino é muito relevante para o que acontece na Grécia. Depois de estabelecer a convertibilidade do peso ao dólar americano a um câmbio fixo durante os anos noventa como medida para estabilizar a moeda e atrair investimentos, um mau desempenho fiscal levou a Argentina a acumular déficits internos que financiavam com dívidas externas que alcançaram, em 2001, 90 bilhões de dólares. Foi então que o país declarou a maior suspensão de pagamentos de dívida soberana da história. O então presidente, Fernando de la Rúa, chefe de um Governo do moderado mas ineficaz Partido Radical, foi obrigado a convocar eleições antecipadas que deram o poder ao partido Justicialista do peronismo histórico. O novo presidente interino, Ernesto Duhalde, frente à ameaça de um colapso do sistema financeiro, nomeou Roberto Lavagna, um economista peronista com grande experiência internacional, novo ministro da Economia. Lavagna trouxe uma visão diferente à a do establishment financeiro internacional, encabeçado pelo FMI, referente a como restabelecer a solvência argentina e assim sair de uma recessão que já empobrecia os assalariados, os aposentados e os pequenos empresários. Fez os bancos argentinos arcarem com perdas procedentes de empréstimos imprudentes e ordenou que os poderes financeiros compartilhassem o sofrimento dos setores populares.

Alexis Tsipras se converteu em um ícone da esquerda na América e nos países europeus que sofrem problemas similares aos da Grécia

Para finalizar, rejeitou a solução conservadora de procurar novos empréstimos antes de pôr em ordem a própria casa. Os credores internacionais aceitaram, em sua maioria, um corte de mais de 30% do valor da dívida. Com mão firme, cobrando impostos e com o apoio político da maioria dos governadores peronistas, Lavagna conseguiu em 2005 a estabilidade argentina, sem inflação e ajudada com fortes exportações de sua grande produção agropecuária. Esse triunfo se perdeu depois com governos de Néstor Kirchner e sua sucessora e esposa, Cristina Kirchner, que foram partícipes de uma política sectária de “tudo ou nada” em que falsearam os dados econômicos a fim de esconder uma nova alta da inflação e um desemprego crescente. Essa radicalização política, que se apoia em programas sociais generosos, mas insuficientemente financiados, será julgada nas próximas eleições presidenciais de outubro, onde a oposição confia em pôr fim ao kirchnerismo.

De modo que as experiências das crises de dívida soberana sempre escondem um ingrediente político e outro econômico, seja na Grécia ou na América Latina. A esquerda radical, por razões ideológicas, recusa acordos com os poderes financeiros que têm o capital necessário para desenvolver uma economia de mercado, com privada e livre iniciativa para os investidores. Os progressistas mais pragmáticos reconhecem que sem capital (feito a base de economia pública ou privada) não há investimentos, e portanto mantêm as portas abertas para o financiamento privado. Veremos que decide o Governo do Syriza. O referendo de domingo não é incompatível com manter a Grécia dentro da União Europeia e Tsipras parece entender que não há solução para a crise econômica se a Grécia partir para uma viagem solitária.