A visita do Papa à América Latina

Papa Francisco pede aos governantes que evitem a repressão

“Jovens sem emprego estão propensos à depressão, suicídio ou projetos de loucura social”

O Papa oficia uma missa nesta terça-feira em Quito.
O Papa oficia uma missa nesta terça-feira em Quito.Robert Puglla (EFE)

O papa Francisco pediu na terça-feira aos governantes latino-americanos que tenham a inclusão e o diálogo como inspiração para suas leis, de modo que “a repressão, o controle desmedido e a diminuição de liberdades” que assolaram a região fiquem “na dolorosa lembrança”. Durante um encontro em Quito com a sociedade civil equatoriana —de empresários a comunidades indígenas—, Jorge Mario Bergoglio pediu que o crescimento econômico chegue a todos “e não fique apenas nas estatísticas macroeconômicas”.

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As palavras do Papa têm especial relevância pela situação política do Equador, onde o presidente Rafael Correa enfrenta há semanas uma forte reação social por sua forma de governar, que alguns consideram autoritária. Francisco disse que o Equador, assim como vários outros países latino-americanos, tem pela frente problemas de grande envergadura —“a migração, a concentração urbana, o consumismo, a crise da família, a falta de trabalho, os bolsões de pobreza”—, os quais provocam grandes tensões e constituem uma ameaça à convivência.

Diante disso, Francisco repetiu uma frase lentamente, como se fosse uma reza: “Ninguém pode ficar excluído”. Com grande amargura, endurecendo um discurso que por si só já tinha um forte conteúdo reivindicativo, o Papa alertou sobre a situação de desespero vivida por muitos jovens que nem estudam nem trabalham, sendo atirados assim “à tristeza, à depressão, ao suicídio ou a projetos de loucura social”. Bergoglio reiterou o pedido por uma mudança radical de valores, já expresso recentemente em sua encíclica sobre o ambiente. “No âmbito social isso significa assumir que a gratuidade não é um complemento, e sim um requisito necessário para a justiça. O que somos e temos nos foi confiado para colocarmos ao serviço dos outros; nossa tarefa consiste em que isso frutifique em obras de bem. Os bens estão destinados a todos, e, mesmo que a pessoa ostente sua propriedade, pesa sobre ela uma hipoteca social. Supera-se assim o conceito econômico de justiça, apoiado no princípio de compra e venda, com o conceito de justiça social, que defende o direito fundamental da pessoa a uma vida digna”.

Bergoglio, que foi interrompido por aplausos em numerosas ocasiões, também se referiu à preocupação ambiental. “A exploração dos recursos naturais, tão abundantes no Equador, não deve buscar o lucro imediato. Administrar essa riqueza que recebemos nos compromete com a sociedade em seu conjunto e com as futuras gerações, às quais não poderemos legar este patrimônio sem um adequado cuidado ambiental, sem uma consciência de gratuidade que brota da contemplação do mundo criado”.

Momentos antes, o Papa encontrou-se com alunos e professores da Pontifícia Universidade do Equador. Bergoglio perguntou aos educadores: “Vocês velam por seus alunos, ajudando-os a desenvolver um espírito crítico, um espírito livre, capaz de cuidar o mundo de hoje?”. Aos jovens universitários, dirigiu uma pergunta retórica, aos lhes pedir que sejam solidários com aqueles que não têm tantas oportunidades: “Sabem que este tempo de estudo não é só um direito, e sim um privilégio que vocês têm?”.

Francisco pediu que o futuro diploma universitário deles não seja exibido “como sinônimo de maior status, dinheiro e prestígio social”, e sim como um símbolo de responsabilidade para “o cuidado ao mais pobre, o cuidado ambiental”.

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