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Crônicas de Astromanía

Uma ‘polícia do céu’ para procurar o planeta perdido

Ceres foi descoberto em 1800, graças ao empenho de um grupo de astrônomos

Ceres em cores reais, observado em 2004.
Ceres em cores reais, observado em 2004.

Ano de 1800. Seis astrônomos se reúnem no observatório particular de Johann Schröter, em Lilienthal, no norte da Alemanha. Ali fundam a primeira sociedade astronômica e organizam a chamada “polícia celeste” para encontrar o “planeta perdido”, já intuído por Kepler, no século XVI, entre as órbitas de Marte e Júpiter.

Antes dessa reunião, em 1766, o cientista alemão Johann Titius de Wittenberg havia estabelecido uma lei que não considerou importante a julgar pelo tratamento que deu a ela, mera nota de rodapé em um livro sobre a ciência em geral que havia traduzido. Tratava-se de uma simples relação matemática que podia determinar as distâncias dos planetas em relação ao Sol. Finalmente, a lei se tornou bem conhecida graças ao diretor do Observatório Astronômico de Berlim, o também alemão Johann Bode, que a enunciou em 1772 e que, por isso, leva seu nome. Hoje, a maioria dos astrônomos acredita que a Lei de Bode – para fazer justiça, Lei de Titius-Bode – é simplesmente uma coincidência matemática sem qualquer significado real.

Para definir essas distâncias, como se fosse um passatempo matemático, a lei parte da sequência de números 0, 3, 6, 12, 24, 48, 96, 192, 384, onde cada número – que é o dobro do anterior, com exceção do primeiro – tem quatro unidades somadas, de modo que a sequência de números resultante é 4, 7, 10, 16, 28, 52, 100, 196, 388. Se a distância do Sol à Terra é fixada em 10 (equivalente a uma Unidade Astronômica), na mesma escala, observa-se que essa sequência de números coincide com as distâncias médias reais entre o Sol e os planetas: Mercúrio, 3, 9; Vênus, 7,2; Marte, 15,2; Júpiter, 52 e Saturno, 95,4.

O que havia entre o 16 e o 52, entre Marte e Júpiter?

Quando Bode formulou sua regra ainda não haviam sido descobertos os três últimos planetas (Urano, Netuno e Plutão, então ainda inscrito nessa categoria), de modo que sua tabela sugeria que poderia haver um ou mais planetas a aproximadamente essas distâncias mais além de Saturno. Quando Urano foi descoberto, sua distância média nessa escala resultou ser de 192, o que reforçou a relação numérica. Por outro lado, depois que se descobriu que a lei não se aplicava aos casos de Netuno, descoberto em 1846, e Plutão, descoberto em 1930, com distâncias menores que os valores previstos teoricamente: 300,7 em vez de 388, que seguindo a série seria o resultado de somar 4 ao dobro de 384, e 394,6 em vez de 772, segundo a mesma regra. A lei parece se verificar no caso dos satélites de Júpiter, Saturno e Urano, e inclusive com sistemas exoplanetários.

Mas o mais importante da Lei de Bode, o que realmente chamou a atenção dessa correlação de sequências e que os astrônomos reunidos em Lilienthal se perguntavam era o que havia entre o 16 e o 52, entre Marte e Júpiter, por que não encontraram nenhum planeta na posição número 28. Eles estavam convencidos de que um dos planetas do Sistema Solar havia passado despercebido e, portanto, trabalharam em sua busca patrulhando com telescópios o céu inteiro, que foi dividido em 24 partes para facilitar a tarefa.

No dia 1 de janeiro de 1801 (o primeiro dia do primeiro mês de um novo século), aconteceu a grande descoberta. No entanto, foi Giuseppe Piazzi, astrônomo siciliano que não fazia parte do grupo (embora mais tarde tenha integrado a Polícia celeste), quem descobriu acidentalmente, ao compilar um catálogo de estrelas, o suposto “planeta perdido”.

Hoje conhecemos mais de 600.000 asteroides com órbitas determinadas

Mas não era um novo planeta o que Piazzi tinha descoberto, embora eles o chamaram assim no início, mas um pequeno objeto similar a um planeta, Ceres, o primeiro dos planetas menores, ou “asteroides” (termo proposto pelo astrônomo William Herschel por causa da aparência estelar deles), que seriam descobertos mais tarde. Inicialmente, num ritmo lento: só quatro haviam sido descobertos (Pallas, Juno e Vesta, além de Ceres), quando a Polícia celeste foi dissolvida em 1815, e o quinto (Astrea) só foi localizado em 1845. Já eram uma centena, em 1870, os objetos descobertos e que compunham o cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Hoje conhecemos mais de 600.000 asteroides com órbitas determinadas, mas estima-se que exista cerca de um milhão com diâmetros superiores a um quilômetro e esse número atinge dezenas de milhões se considerarmos os asteroides com mais de 100 metros de diâmetro. Com seus 950 quilômetros, Ceres, em homenagem à deusa romana das plantas, é o maior de todos eles, hoje não mais um “planeta perdido”, mas um “planeta anão”.

Carmen del Puerto Varela é jornalista, Doutora em Ciências da Informação e chefe da Unidade de Comunicação e Cultura Científica (UC3) do Instituto de Astrofísica das Canárias (IAC). Durante seis anos, foi diretora do Museu da Ciência e do Cosmos (MCC), dos Museus de Tenerife. Em 2009, escreveu e dirigiu a peça multimídia El Honor Perdido de Henrietta Leavitt.

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