Crise na Grécia

Europa se recusa a falar com Governo da Grécia sob ameaça do referendo

Eurogrupo rejeita proposta de Atenas que pleiteava um plano de ajuda por mais dois anos

Protestos contra (à direta) e a favor da permanência da Grécia no euro, em Atenas, na segunda e na terça-feira, respectivamente.
Protestos contra (à direta) e a favor da permanência da Grécia no euro, em Atenas, na segunda e na terça-feira, respectivamente. (AFP)

Diante da anunciada suspensão dos pagamentos, a Grécia surpreendeu nesta terça-feira a Europa com um movimento inesperado. O primeiro-ministro Alexis Tsipras pediu, quase que de forma desesperada, um terceiro resgate, uma ampliação do programa atual enquanto se chega a um acordo, e um alívio da dívida. O Eurogrupo não aceitou esse convite político: a Europa acredita que tem Tsipras contra as cordas e quer reforçar a pressão após meses de tensão.

MAIS INFORMAÇÕES

Os parceiros do euro já não conseguem enxergar uma extensão, e querem aguardar o resultado do referendo no domingo para começar a discutir o terceiro resgate. Atenas prometeu enviar uma nova proposta mais detalhada, que o Eurogrupo examinará novamente nesta terça-feira. A Grécia consegue assim parar pelo menos algumas horas do relógio, mas enfrenta uma situação potencialmente explosiva.

Os acontecimentos se acumulam poucas horas antes de expirar o prazo que a Grécia tem para pagar ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e da reunião do Banco Central Europeu (BCE) que, se tiver desfecho negativo para o país, seria uma espécie de fim de jogo. Após abandonar a negociação na sexta-feira passada, convocar um referendo sobre a proposta europeia e deixar o país com à beira do abismo com o corralito (retenção de depósitos bancários) e os controles de capital, o Governo de Alexis Tsipras pediu sem sucesso um terceiro resgate.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, falou nesta segunda-feira à noite com Tsipras para lhe oferecer uma última proposta: uma concessão adicional, um plano de investimentos de 35 bilhões de euros (cerca de 117 bilhões de reais) e uma firme promessa de reestruturação da dívida. Tsipras conversou esta manhã com o chefe do BCE, Mario Draghi. Ao meio-dia, o ministro Yanis Varoufakis afirmou que a Grécia não pagará ao FMI esta noite. E, logo no início da tarde, Atenas veio com o plano de deixar expirar o segundo programa e colocar em marcha um terceiro resgate, acompanhado de uma reestruturação da dívida, que chega a 180% do PIB. “O Governo grego continua buscando um acordo com os credores”, disseram as autoridades em comunicado.

A oferta veio pouco detalhada. Trata-se de um resgate pelo prazo de dois anos “para cobrir as necessidades financeiras da Grécia e, ao mesmo tempo, uma reestruturação da dívida”, segundo o mesmo comunicado. Atenas aposta na ampliação do programa atual até que se efetive o terceiro resgate, do qual, em princípio, o FMI não participaria. “Até o momento não há acordo”, disse a este jornal uma fonte europeia em meio a rumores de uma viagem de Tsipras a Bruxelas, de uma convocatória urgente do Eurogrupo e de toda sorte de movimentos diplomáticos para evitar que o dia termine sem um acordo. O chefe da Comissão Europeia (o braço executivo da União) pôs sobre a mesa uma oferta de último minuto para a Grécia.

O resgate expira à meia-noite, e com ele evaporariam os 15,5 bilhões de euros (52 bilhões de reais) de ajuda financeira, e as duras condições associadas. Atenas, cuja resposta teria de chegar nesta terça-feira, a tempo de convocar um Eurogrupo de emergência, apresentou uma proposta para fechar um programa de ajuda de dois anos submetido ao Mecanismo de Estabilidade Financeira e com uma reestruturação da dívida, o que constituiria um terceiro resgate sem o FMI como credor.

O governo alemão já deixou claro que continua aberto ao diálogo, mas só depois de ver os resultados do referendo no próximo domingo. Portanto, de acordo com vários meios de comunicação, a chanceler Angela Merkel reduziu as expectativas de um acordo in extremis que permitiria estender o programa atual, algo para o qual já é tarde demais, informa Luis Doncel de Berlim.

Em uma reunião de dez minutos com o número dois de seu Governo, Sigmar Gabriel, e com os chefes dos grupos parlamentares democrata-cristãos e social-democratas, Merkel reiterou que “a porta está aberta para novas negociações”, mas condicionadas ao que a maioria do povo grego expressar no domingo. O governo alemão tem sustentado nos últimos meses que não via “imaginável” um novo programa de ajuda sem a participação do FMI.

Qualquer acordo para estender o programa que acaba hoje à noite requereria a aprovação prévia do Bundestag (a câmara baixa do parlamento alemão). E uma vez que faltam apenas algumas horas para o vencimento do programa, esse passo essencial parece quase impossível.

Arquivado Em: