Panamá

Ex-ditador Manuel Noriega pede perdão à população do Panamá

Da prisão, o ex-ditador envia sua primeira mensagem formal em 25 anos Ele fala sobre seus erros como militar e governante do Panamá nos anos 1980

Noriega, durante seu rendimento a prisão em dezembro de 2011
Noriega, durante seu rendimento a prisão em dezembro de 2011 R. A. (AFP)

Convertido em crente em Deus, e sem esclarecer muitas das dúvidas sobre seus atos como militar e governante nos anos 1980, o ex-ditador Manuel Antonio Noriega surpreendeu o Panamá na quarta-feira com uma mensagem televisionada transmitida desde sua prisão na capital. O último ditador de um país centro-americano pediu perdão por suas ações, as de seus superiores militares e seus subalternos no governo até a invasão dos Estados Unidos, em novembro de 1989.

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“Encerro o ciclo militar como o último general desse grupo pedindo perdão como comandante em chefe e como chefe do governo (...) Peço perdão a todas as pessoas que se sintam ofendidas, afetadas, prejudicadas ou humilhadas por minhas ações e as de meus superiores no cumprimento de ordens ou de meus subalternos, dentro do status de responsabilidade de meu Governo civil e militar”, leu Noriega na mensagem transmitida pela emissora Telemetro. Ele fez a declaração histórica no centro penal de El Renacer, para detentos de baixa periculosidade, como agora é considerado esse homem de 81 anos conhecido no passado como “homem forte do Panamá”.

Condenado nos Estados Unidos e na França por narcotráfico e lavagem de dinheiro, Noriega afirmou que refletiu sobre os abusos e humilhações que cometeu, ordenou e propiciou. Mas evitou falar de casos concretos, como o do opositor Hugo Spadafora, decapitado em 1985 em um crime que a justiça panamenha atribuiu a ele em julgamento feito à revelia em 1993.

Noriega tampouco quis responder a uma pergunta do jornalista Álvaro Alvarado sobre o pedido de informação feito pela Igreja Católica sobre o desaparecimento do padre colombiano Héctor Gallego em 1960, quando Noriega era chefe de inteligência. Isso aconteceu antes de ele comandar as Forças de Defesa e de assumir o poder político em 1983 por seis anos, até o governo de George Bush invadir o Panamá e desmontar o corpo militar na chamada operação “Causa Justa”. Noriega se escondeu e depois se refugiou na Nunciatura na Cidade do Panamá. Em 3 de janeiro de 1990 ele se entregou e foi mandado a Miami, onde foi condenado a 40 anos de reclusão como prisioneiro de guerra.

Desde então ele não saiu mais da prisão. Ficou preso nos Estados Unidos, e em 2010 foi enviado à França como condenado por lavagem de dinheiro. Em 2011 foi repatriado para o Panamá, onde cumpre pena de 20 anos de prisão pela autoria intelectual do assassinato de Spadafora. Noriega está encarcerado há mais de 25 anos, como lamentou durante sua declaração, na qual evitou mencionar a possibilidade de medidas cautelares que lhe permitam passar seus últimos anos de vida em liberdade.

Noriega tomou o cuidado de não falar mais que o previsto. “Para dar qualquer resposta à pergunta que o senhor me faz estou extrapolando a solenidade com a qual, diante do altar de minha consciência, vim hoje para expressar o que é perdão”, ele disse ao jornalista que transmitiu sua declaração. O ex-general insistiu que suas palavras são fruto de conversas que teve com sua família e “com a Igreja” e que buscam ser “um ato de contrição”, em um esforço para “encerrar o ciclo” da era militar em benefício do Panamá, país de economia forte mas com problemas sociais e políticos.

Por isso ele decidiu romper seu silêncio, colocar os óculos e advertir que fala por vontade própria. “Hoje não estou dando uma entrevista, mas uma declaração.” Trajando camisa branca e de cabelos curtos, como sempre, ele começou se apresentando: “Sou Manuel Antonio Noriega, o último general da era militar...” E acabou deixando entre os panamenhos a expectativa de revelações posteriores: “Se Deus quiser as circunstâncias nos darão a oportunidade de apresentar as verdades desconhecidas”. A memória panamenha foi alterada nesta quarta-feira.