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Hostilizados na Venezuela, senadores abortam missão e cobram Dilma

Veículo que levava senadores foi cercado por chavistas. Itamaraty pedirá explicações

O senador Aécio e a oposicionista Maria Corina. Ampliar foto
O senador Aécio e a oposicionista Maria Corina. EFE

Uma comitiva de políticos brasileiros liderada pelo ex-candidato presidencial Aécio Neves visitou nesta quinta-feira Caracas com a intenção de ir do aeroporto até o presídio de Ramo Verde, onde permanece preso o oposicionista Leopoldo López. Os parlamentares tiveram que abortar duas vezes a missão porque se depararam com uma estrada bloqueada e, segundo denunciaram nas redes sociais, durante o caminho sofreram o assédio de manifestantes chavistas que se opunham à expedição. Horas depois de chegarem, os políticos anunciaram a intenção de regressar ao Brasil.

Antes do meio dia, Aécio, líder do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e opositor do Governo de Dilma Rousseff, aterrissou no aeroporto internacional de Maiquetia acompanhado de outros cinco senadores em uma missão que definiram como política e humanitária. Tão logo desembarcaram os parlamentares empreenderam a viagem até o presídio em um veículo utilitário, mas tiveram problemas. Uma testemunha disse que um grupo em torno de 40 pessoas, vestido com camisetas vermelhas alusivas ao governismo, se aproximou do veículo, bateu nele com as mãos e gritou slogans em homenagem ao falecido presidente Hugo Chávez. Segundo os parlamentares, houve ataques com pedras.

A estrada que une o aeroporto com a penitenciária permaneceu bloqueada por obras de manutenção, o que a deputada oposicionista María Corina Machado qualificou como uma desculpa do Governo para impedir que a delegação brasileira pudesse não só chegar até a prisão, mas também se reunisse com outros políticos da Mesa da Unidade Nacional, em Caracas, e visitasse o prefeito Antonio Ledezma, que cumpre prisão domiciliar.

Ao ver a paralisação na autopista, e temendo por sua segurança, os senadores brasileiros decidiram regressar ao aeroporto, onde permaneceram enquanto faziam chamadas telefônicas ao Governo e ao presidente do Senado do Brasil, buscando uma mediação que lhes permitisse cumprir seu objetivo.  Houve uma segunda tentativa de se movimentar. No Twitter, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) disse que o túnel pelo qual deveriam passar estava fechado e ironizou: "O túnel que dá acesso ao presídio está fechado. Motivo? Está sendo lavado. Isso impediu, de novo, nossa viagem. Voltamos ao aeroporto". Horas depois, Aécio Neves anunciou a desistência da visita.

Moção de repudio

O episódio causou impacto no Brasil. Parte da comitiva acusou a representação brasileira em Caracas de não ter prestado a devida assistência ao grupo. O Ministério de Relações Exteriores do Brasil negou a acusação, garantindo que foi a própria Embaixada em Caracas que proporcionou o transporte para a delegação, que contou com a escolta de batedores venezuelanos. A pasta lembrou ainda que o embaixador Ruy Pereira foi receber o grupo no aeroporto, ainda que tenha seguido em veículo separado.

Em nota divulgada na noite desta quinta-feira, o Itamaraty disse ainda que "são inaceitáveis atos hostis de manifestantes contra parlamentares brasileiros". A mensagem explica que o embaixador brasileiro na Venezuela recebeu os senadores, mas deixou o aeroporto em outro carro. Segundo a nota, "ambos os veículos ficaram retidos no caminho devido a um grande congestionamento, segundo informações ocasionado pela transferência a Caracas, no mesmo momento, de cidadão venezuelano extraditado pelo Governo colombiano". O Itamaraty finaliza dizendo que "o Governo brasileiro solicitará ao Governo venezuelano, pelos canais diplomáticos, os devidos esclarecimentos sobre o ocorrido".

No plenário da Câmara dos Deputados no Brasil, quando os parlamentares votavam o último projeto do ajuste fiscal do Governo, alguns oposicionistas interromperam a sessão para informar sobre os incidentes de Caracas. “Aécio Neves me ligou e disse que saiu do aeroporto e teve o carro apedrejado por militantes que não querem deixar eles entrarem. Agora estão presos no aeroporto”, disse o deputado Nilson Leitão (PSDB-MT) ao EL PAÍS. A Câmara aprovou uma moção de repúdio condenando o ocorrido, e agora a oposição exige um protesto formal de Dilma Rousseff perante o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

A missão dos parlamentares brasileiros é mais uma entre a série de visitas de políticos de outras nacionalidades, entre eles o ex-primeiro-ministro espanhol, Felipe González e o ex-presidente colombiano, Andrés Pastrana. Nenhum conseguiu ver López. Apesar disso, para a oposição venezuelana é central que essas personalidades visitem o país e possam influenciar na percepção que existe no exterior sobre o Governo e o tratamento dos presos políticos. Deste ponto de vista, a repercussão da fracassada tentativa desta quinta-feira, que ganhou atenção inclusive em programas de TV populares no Brasil, pode pode ser também comemorada pelos opositores de Dilma Rousseff.

A delegação de senadores viajou em um avião da Força Aérea Brasileira. Ao chegar ao aeroporto foi recebida pelas esposas dos presos políticos venezuelanos. De acordo com sua família, Leopoldo López está muito fraco e perdeu 15 quilos. Os parentes exigem que seja tratado com um médico de sua confiança. “Estamos fazendo o que o Governo brasileiro deveria ter feito há muito tempo: defender as liberdades, a democracia, a libertação dos presos políticos e a realização de eleições livres na Venezuela”, havia dito Aécio antes de partir.

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