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Polícia contaminou cena da morte do promotor Alberto Nisman

Programa de TV mostra em vídeo peritos sem luvas e limpando sangue da arma

Caso Nisman
Fotograma do vídeo da policial no apartamento de Nisman.

Qualquer pergunta sobre o caso Nisman aos especialistas termina com a mesma resposta: nunca será possível saber o que aconteceu em seu apartamento porque a cena do crime foi contaminada nas primeiras horas, não se sabe se por imperícia ou intencionalmente. Um vídeo divulgado no horário de maior audiência no programa do jornalista mais conhecido da Argentina, Jorge Lanata, mostra essa realidade com extrema crueza.

A gravação exibida foi feita pela própria polícia no apartamento de Nisman na torre Le Parc em Puerto Madero, imagens inéditas que mostram a sucessão de erros cometidos nas primeiras horas, vitais para recolher as provas que podem levar à hipótese de suicídio ou assassinato. A equipe de Lanata está em posse da gravação completa, de quatro horas, mas o programa exibiu algumas partes editadas que mostram os erros mais graves.

Os peritos complicam muito a investigação com suas próprias ações. Por exemplo, ao recolher restos de DNA. Em um momento do vídeo pode-se ver que o carregador está limpo enquanto a arma está toda cheia de sangue. Isso impediu a descoberta de vestígios de qualquer outro DNA que não o de Nisman. Não foi encontrado sequer o DNA de Diego Lagomarsino, o proprietário da arma, que reconheceu que ele mesmo ensinou Nisman a usá-la, pelo que suas digitais deveriam estar na arma. Tudo estava cheio de sangue e isso impossibilitou a análise.

O vídeo, entretanto, mostra que as coisas não estavam assim quando a polícia chegou. O carregador estava limpo. Mas um perito, como pode ser visto no vídeo, sujou o carregador porque tinha as luvas manchadas com o sangue que estava na pistola. Com essas mesmas luvas também tocou nas balas e as colocou no bidê alterando ainda mais a cena da morte. A ex-mulher de Nisman insiste que foi um assassinato, mas a investigação oficial pende para a hipótese de suicídio, ainda que restem muitas incógnitas a resolver.

A gravação foi feita pela própria polícia no apartamento de Nisman

É possível ver a todo momento no vídeo a promotora do caso, Viviana Fein, que comanda as perícias, e ao fundo em alguns momentos escuta-se a voz de Sergio Berni, secretário de Estado de Segurança, que chegou bem antes do que a própria promotora, algo que causou muita polêmica. As imagens mostram como os peritos chegam até mesmo a limpar a arma da morte com papel higiênico, e pode-se ver a arma antes de ser limpa, cheia de sangue do promotor, e depois, com muito menos sangue. De fato, no vídeo oficial existe um corte nesse momento, algo que não deveria acontecer, provavelmente porque se vê de maneira muito evidente como o sangue é limpo. Em outras imagens os peritos são vistos trabalhando sem luvas até mesmo no momento de recolher as digitais na entrada da casa.

O banheiro e a casa ficaram lotados de policiais e peritos e alguns deles contaminaram a cena do crime, já que entravam e saíam e pisavam no sangue do promotor, produzindo assim novas pegadas que distorciam o local da morte e, portanto, dificultavam a análise para elucidar se haviam mais pessoas no banheiro. Em um momento do vídeo é possível ver até mesmo como a promotora Fein pisa no sangue e faz novas pegadas, enquanto um perito diz “cuidado com seu pé”.

“Eu nunca duvidei que Nisman foi morto. Mas nunca poderemos saber porque a cena do crime foi contaminada”, explicou Lanata enquanto exibia as imagens nas quais são vistos cabelos que parecem ter sido deixados ali pelos próprios policiais enquanto realizavam as perícias. Tudo em um ambiente de grande improvisação que segundo diversos analistas é frequente na polícia argentina. Existem até mesmo momentos absurdos, como um no qual o próprio Berni pede à promotora que entrem o quanto antes no banheiro pois Nisman poderia estar agonizando. Nesse momento os primeiros policiais e médicos já haviam entrado há mais de uma hora e Nisman estava morto há 12 horas, de acordo com a equipe médica.

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