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O ‘outro’ Ministro da Cultura

Danilo Miranda, do Sesc-SP, lidera um ministério cultural com 1,6 bilhões de reais ao ano

O filósofo, sociólogo e ex-seminarista Danilo Miranda.
O filósofo, sociólogo e ex-seminarista Danilo Miranda.

Cariocas gostam de dizer que praia de paulista é shopping, mas quem faz essa afirmação na verdade desconhece o Serviço Social do Comércio de São Paulo. Com uma vasta e variada programação cultural combinada a atividades físicas e socioeducativas, aos fins de semana o Sesc-SP é capaz de deixar Copacabana e Ipanema no chinelo, se o quesito for público entretido com exposições, shows, peças de teatro, exibição de filmes, oficinas, programas de leitura e de esporte e atividades especiais para crianças e a terceira idade. Nos meses de verão, inclusive, não é raro ver as pessoas em trajes de banho em praias urbanas organizadas nos espaços do Sesc, que em geral primam pela bela arquitetura e pela acessibilidade. Todos felizes, apesar do concreto.

O homem por trás dessas praias é o mesmo há 30 anos. Chama-se Danilo Miranda, é filósofo, sociólogo e ex-seminarista, e assumiu o papel de diretor do Sesc-SP com a missão de levar adiante uma perspectiva ampla de cultura, que liga o mundo das artes e do espetáculo à memória, à convivência e à aprendizagem. Vem cumprindo a missão com louvor e lançando mão, em meio à sua ampla bagagem cultural, de uma visão espiritualizada da vida, resultado não só do passado de seminarista, mas da mistura disso com a juventude na militância política e com a naturalidade de quem olha as pessoas nos olhos e as vê. “Tenho uma visão e um treinamento, digamos assim, muito ligados à aplicação do conhecimento para a construção de uma sociedade nova”, diz.

Pelo trabalho que realiza junto às 36 unidades do Sesc no Estado, com 6.800 funcionários, e inclusive pelo orçamento de 1,6 bilhões de reais anuais que administra – superior, se descontados os recursos de lei de incentivo, aos recursos do MinC –, Danilo é considerado por muitos um “ministro informal da Cultura”. O comentário lhe soa elogioso, mas ao mesmo tempo desperta sua preocupação “pelo que está faltando no quadro”. “Não somos modelo único, mas o fato de uma instituição como a nossa ressaltar nesse sentido significa que o lado público não está funcionando bem”, analisa.

Pergunta. Você é informalmente considerado nosso ministro da Cultura. O que acha disso?

Resposta. Quero crer, ao escutar isso, que as pessoas reconhecem um trabalho e isso me engrandece. É interessante ver no trabalho realizado na instituição que administro uma ação de interesse público, que tem compromissos com ética e com a construção de uma sociedade. Esse é o lado luminoso. Por outro lado, me assusta um pouco, porque alguma coisa está faltando nesse quadro. Há uma lamentação pelas coisas não funcionarem como deveriam. Não quero dizer que somos modelo único, mas o fato de uma instituição como a nossa ressaltar nesse sentido significa que algum outro lado não está funcionando bem. Acho que a cultura é vista do ponto de vista público, em todos os níveis, como algo não importante, não muito significativo ou vital. Mas para mim é o que há de mais importante. Se fosse de fato assim, seríamos capazes de mudar a cara do país, de toda a sociedade.

Piscina do Sesc Jundiaí, a mais nova unidade da rede.
Piscina do Sesc Jundiaí, a mais nova unidade da rede.

P. Por que quem detém o dinheiro e o poder costuma pensar que a cultura não é importante?

R. Porque o material é sempre mais importante que o não material. Porque, no mundo em que vivemos, manda aquilo que significa bem palpável e recursos efetivos que são transformados em bens palpáveis (controle financeiro, com produção efetiva e mesmo a educação voltada para a produção, tudo voltado para fazer riqueza e transformar a natureza para que ela renda o máximo possível). O ter domina. O dia em que o ser domine (a Educação e outros processos que dizem respeito à transformação das pessoas internamente), longe de fazer uma pregação religiosa ou política, vai ser diferente. O que tem que prevalecer são os valores humanos, no sentido da igualdade, do respeito, da solidariedade, como valores principais. A grande conquista humana não é a transformação tecnológica e sim a percepção da igualdade absoluta entre todos os seres – coisa que ainda não foi plenamente conquistada, até mesmo no mundo ocidental mais democrático. Veja a posição da mulher aqui e em outros países.

O ter domina. O dia em que o ser domine, longe de fazer uma pregação religiosa ou política, vai ser diferente"

P. Estamos em um momento novo no Ministério da Cultura, apesar de termos um gestor em uma segunda gestão. Como você avalia a atual fase da pasta?

R. Primeiro, acho que a Cultura não deveria ser objeto dos cortes como tem sido. Mesmo porque, como administra verbas relativamente pequenas com relação ao total, não afeta tanto o orçamento público. O corte, sim, nos afeta. Qualquer corte linear é pouco inteligente, porque você corta duas coisas de maneira igual – aquilo que era desnecessário já e o imprescindível já. Mas mais condenável e inadequado me parece que é a pouca centralidade da questão cultural. Do ponto de vista federal, a Cultura ganhou certa visibilidade em determinado período, mas nunca foi central. Gilberto Gil, um homem reconhecido internacionalmente, fez muitos esforços, que foram seguidos por Juca Ferreira – quem agora, novamente como ministro, tenta recuperar. Porém, diante de um quadro de crise, em que a preferência da economia e da política é colocada como absolutamente vital para a continuidade da administração, acho que o cenário é difícil. Na administração anterior de Gil e Juca, alguns pontos foram muito relevantes. A valorização do acesso ao mundo digital é um deles. Outro é a valorização da cultura popular, dos Pontos de Cultura, que tinha uma força extraordinária no passado e que espero que seja retomado.

Sesc Jundiaí, inaugurado em abril.
Sesc Jundiaí, inaugurado em abril.

P. No país, São Paulo é das cidades com maior oferta cultural, e mesmo assim filas intermináveis comprovam que há uma demanda cultural reprimida. Você concorda?

R. Sim, em parte é isso. Hoje temos acesso à informação, e isso gera desejo e curiosidade na população. Veja o Ron Mueck. Quem viaja para o exterior, tem a oportunidade de acesso a ele aqui ou lá. Mas, quando ele chega a São Paulo, claro que vai despertar interesse e gerar um boca-a-boca enorme, que gera filas de horas. Ele e outros. Esses artistas estão aqui, de forma organizada, à disposição do público, muitas vezes com entrada gratuita. Tudo ganha uma dimensão especial, porque somos carentes desse tipo de oportunidade. Até mesmo com nossos próprios artistas, que estão mais perto. Na realidade, falta repertório. Crescemos e não somos preparados culturalmente, nem sempre levamos a arte em conta, não colocamos isso no centro das nossas vidas. O processo teria que ser de educação permanente, com a Cultura em um lugar central.

O processo teria que ser de educação permanente, com a Cultura em um lugar central"

P. A missão do Sesc, mais do que trazer grandes nomes, parece ser priorizar a identidade cultural nacional e outras mais periféricas.

R. Preferimos considerar que o mundo da Cultura é muito variado e múltiplo. Por isso, tem que valorizar o local. Dar força para que os criadores iniciantes, os que estão tentando produzir, tenham espaço como apreciadores e criadores. Porém, o mundo da Cultura não pode ser circunscrito a um território, porque ele fica pobre e enferrujado. Não funciona assim. Ele tem que ter respiros, diálogos e conexões com tudo o que acontece à sua volta, para conhecer. E o conhecimento gera influências múltiplas. Esse intercâmbio é absolutamente vital. Acreditar que só o nacional tem valor é uma visão pobre. Só o que vem de fora para dentro, também. A troca é indispensável sempre. Na nossa programação, tentamos equilibrar tudo isso nas nossas várias unidades. Para nós, a variedade de ações é muito importante.

P. Como você acha que cuidamos da nossa identidade cultural no país?

A Semana de 22 é o fato cultural mais importante do nosso país. É a independência do Brasil do ponto de vista da arte, da cultura, do pensamento"

Este é um ano de Mario de Andrade, que sempre foi uma presença luminosa nesse sentido. Considero-o um dos maiores intelectuais e forjadores da nossa identidade, um colaborador no sentido de nos conhecermos melhor. Pela criação dele e pelas atitudes assumidas em sua vida. Uma das coisas que mais me encanta no Mario é seu caráter de gestor. Foi ele quem criou um departamento de Cultura na administração pública de São Paulo pela primeira vez. Ele começou nos anos 30 a gerar um jeito de entender essa iniciação da criança e do jovem no mundo da cultura e da vida – que são uma coisa só. Chegou a desenhar um espaço, uma planta de um centro infantil de iniciação à vida, cultura, atividade física, alimentação – tudo ali, como no Sesc. Eram sesquinhos! Teve uma presença luminar como pessoa e, como modernista, ele revolucionou a cultura brasileira. A Semana de 22 é o fato cultural mais importante do nosso país. É a independência do Brasil do ponto de vista da arte, da cultura, do pensamento. E ele está realmente sendo colocado no lugar que devia.

P. Essa visão de Mario de Andrade gera polêmicas até hoje. Tem que ache que o Sesc é “muito” para o trabalhador. Muito luxuoso, elitista...

R. Para mim, um dos princípios do Sesc em todos os campos é qualidade. Fazer o melhor, buscar a excelência em tudo. Lembro quando inauguramos a unidade de Itaquera, a propaganda – que era verdadeira – dizia o seguinte: “Olha, vocês aí da zona Sul de São Paulo, não pensem que o clube mais completo da cidade é o Paulistano. O mais bem feito e completo é o Itaquera”. Há quem diga que é possível fazer uma coisa “meia boca”, mas achamos que não – dentro, naturalmente, do que é possível. Não vou fazer tudo de ouro e mármore, porque não é o caso. Mas tem que ter qualidade para durar mais. E outro aspecto é a acessibilidade universal, a democratização. São os dois princípios que nos orientam. “Ah, isso é muito fino, não precisa...”. Precisa, sim. Precisa atrair. Vou fazer algo que não atraia ninguém? O prazer faz parte da vida, é uma busca indispensável. Basta fazer isso de maneira cuidadosa, procurando o melhor possível sempre.

P. A lei da terceirização impacta o Sesc de alguma maneira?

R. No sentido da nossa arrecadação, não. As empresas terceirizadas continuarão contribuindo com o Sesc e contratando o trabalhador – que vão trabalhar em outro lugar, mas vão ter que ser contratados. A outra coisa que impacta, e aí é uma visão pessoal, política, é que se você estabelece entre a mão de obra e as empresas um grupo de intermediários, esses intermediários têm que ser remunerados também. Conclusão: esse dinheiro vai sair de cima ou de baixo. Alguém vai ser prejudicado, e, normalmente, quem é prejudicado não está em cima, está embaixo. Esse negócio de terceirização, pra mim, é uma maneira de reduzir salário de trabalhador.

[Ser ministro] simplesmente para ter mais um cargo para colocar no meu currículo? Desculpe, não tenho o menor interesse"

P. Você nunca foi convidado de fato para ser Ministro, mas se fosse aceitaria?

R. Já fui convidado para cargos públicos e, nessas ocasiões, não aceitei, porque não havia condições pessoais e institucionais para que isso acontecesse. Se houvesse um convite, eu examinaria o todo. Mas o fato é que aqui, onde estou, fazendo o que faço, a cultura, com a valorização socioeducativa, tem uma centralidade imensa. Porque as condições são favoráveis. Trocar isso por outra coisa, mesmo que seja num plano maior, teria que ter uma justificativa muito sólida. Não é tão simples. Claro, prestar serviço à sociedade é sempre algo absolutamente meritório, vital. Mas precisaria ter condições para que isso acontecesse mesmo, né? Simplesmente para ter mais um cargo para colocar no meu currículo? Desculpe, não tenho o menor interesse.

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