Despedida da televisão

Obrigado, David Letterman

O apresentador encerrou a carreira aos 68 anos após 33 anos e 6.028 programas na TV

REUTERS LIVE (reuters_live)

Obrigado, Dave. Obrigado, David Letterman. #ThanksDave. Obrigado pelos 33 anos de humor chocante que já faz parte da história da comédia e da comunicação televisiva. Nas redes sociais, seguidores e personalidades diversas agradeciam a David Letterman por dedicar metade de sua vida a acabar o dia e entrar na madrugada com ceticismo, com uma incongruência admissível que algumas vezes consistia em jogar uma melancia de cinco andares de altura na rua 53 em pleno coração de Manhattan.

O último Late Show começou mostrando na tela quase todos os presidentes dos Estados Unidos que ainda vivem, com a exceção de Jimmy Carter. Em uma parte gravada antecipadamente, Barack Obama, George W. Bush, Bill Clinton e George H. W. Bush declararam separadamente: “Finalmente acabou o grande pesadelo nacional”.

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O garoto de Indiana, o homem do tempo que abandonou o meio oeste para se mudar à Califórnia e que perdia qualquer ar de grandeza perguntando repetidamente a sua audiência “você é como eu?”, encerrou a carreira aos 68 anos por decisão própria antes de que alguém lhe mostrasse a porta de saída da CBS. Sem saber o que fará no dia seguinte, quando não haverá outro Late Show a gravar, rodeado de Jimmys – Jimmy Fallon na NBC, Jimmy Kimmel na ABC, ambos humoristas jovens entregues aos seus entrevistados –, Letterman declarou em uma entrevista no final de abril que a partir de agora podem acontecer duas coisas. “Ocorrerá uma transição razoável, adulta, ou me entregarei a uma vida de crimes”. Letterman será sucedido por Stephen Colbert, que hoje apresenta o The Colbert Report da Comedy Central.

A ironia, o sarcasmo, saber rir de si mesmo e colocar-se sempre em dúvida lhe permitiram navegar pelo difícil mundo do show business desde que em 1982 foi transmitido o primeiro episódio na NBC. Desde então foram 6.028 programas transmitidos, “e estive em quase todos eles”, declarou seu apresentador na noite de quarta-feira demonstrando seu peculiar senso de humor.

Letterman não é, não foi, para todos os públicos. Não alcançou o sucesso que seu competidor direto Jay Leno – já aposentado – e, entretanto, superou em tempo na televisão seu mentor Johnny Carson. Não importa o que você pense de Letterman, não há dúvidas de que o criador da Top Ten List transformou a biosfera dos programas noturnos de televisão, seja nos Estados Unidos ou no resto do mundo, com melhores ou piores imitadores.

Inovador e imprevisível, Letterman foi o primeiro de sua classe a voltar às telas após os atentados de 11 de Setembro com um programa emotivo e de uma sinceridade comovedora. Algumas vezes frio e quase sempre temido por seus entrevistados – como admitiu semanas atrás a atriz Julia Roberts –, Letterman submeteu-se a uma operação no coração em 2000 na qual instalou um bypass quíntuplo.

Seis semanas depois, o comediante voltou ao Teatro Ed Sullivan e trouxe ao palco a equipe médica a qual agradeceu por ter salvado sua vida. Durante os dias posteriores à operação, quando o melhor ou o pior poderia acontecer, o comediante agarrou-se a uma canção, Everlong, do grupo Foo Fighters.

Na noite de quarta-feira se encerraram as despedidas a um homem que em 2009 surpreendeu a audiência com a confissão ao vivo de que estava sendo objeto de uma tentativa de chantagem por ter mantido relações sexuais com uma funcionária de seu programa. Letterman sobreviveu ao escândalo justamente porque de maneira inteligente o desmontou antes de que realmente se tornasse um.

“Muito obrigado David, você mudou nossas vidas”, lhe agradeceu o diretor de orquestra Paul Shaffer, amigo e colega de viagem por mais de três décadas.

If anything could be this good again, cantou o Foo Fighters com os acordes de Everlong no Teatro Ed Sullivan.

“Muito obrigado e boa noite”, se despediu, simples, sereno, David Letterman. Como qualquer outro dia.

Obrigado a você. Obrigado, Dave. Sempre.