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Perdoar, ser perdoado, e o último desejo antes de se despedir

EL PAÍS acompanha os dias em um hospital de cuidados paliativos

Hilário Fernandes, no hospital.
Hilário Fernandes, no hospital.

Os filhos de dona Margarida e seu Hilário cuidaram de todos os detalhes. Encomendaram coxinha, bolinho de carne, bolo, sidra e refrigerante. Era início do outono e o casal estava completando 72 anos de união. Seis, dos sete filhos, estavam presentes na comemoração das bodas, três dos 13 netos e dois dos dez bisnetos. O tataraneto ficou em casa. Todos cantaram parabéns. No final, Sônia, uma das filhas, agradeceu, com uma voz embargada, a presença da família naquele momento. "Quem gosta de fazer discurso aqui é o meu pai", disse ela, emocionada. "Todos os aniversários era ele quem falava. Mas alguém tem que fazer agora".

Hilário Augusto Fernandes tem 92 anos. Nasceu em Portugal e cursou até a quarta série do primário. Trabalhou até a terceira idade no conserto de máquinas de lavar e geladeiras. Em 2010, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que o deixou sem a fala e com o lado direito do corpo paralisado. Desde então, vive idas e vindas por alguns hospitais de São Paulo. No dia 6 de abril, porém, ele foi encaminhado pelo Hospital das Clínicas ao Recanto São Camilo, um hospital com dez leitos destinados aos cuidados paliativos.

Seu Hilário chegou ao Recanto com os olhos fechados. Não comia e tampouco se mexia. Sônia Maria Augusto Fernandes, de 61 anos, uma das filhas, ficava ansiosa porque ele se recusava a comer. No dia das bodas, porém, ele segurou uma taça de espumante e comeu chocolate, algo que ele nunca recusa. "Ele pode ser o garoto Suflair", brinca Sônia.

Ana Claudia Quintana, que coordena o setor de cuidados paliativos do hospital, conta que os pacientes chegam ali em um estágio já muito avançado de diversas enfermidades. "Mas, ao serem bem tratadas, ao terem a família por perto, essas pessoas melhoram. Voltam a falar, a comer, a andar. Já imaginou? Dizem 'para que ele vai andar? Está morrendo'. E ele volta". Ela conta, porém, que o tempo médio de internação de um paciente ali dura 15 dias. "Eles já chegam bem debilitados", diz ela.

No prontuário do seu Hilário está escrito que ele - ou a família - aceitou ser tratado pelos cuidados paliativos. Isso significa que ele não passará por nenhuma intervenção médica como cirurgia ou entubação. Ele terá as dores controladas por meio de medicação, a família pode dormir no quarto e fazer visitas e, até mesmo, realizar as comemorações do aniversário de casamento dele. "Nunca imaginei que conseguiríamos fazer essa festa", contou Sônia.

"Esse foi um dos dias mais felizes da minha vida", disse dona Margarida, de 93 anos, a esposa de seu Hilário, depois da festa. Seria difícil imaginar que um paciente, em estágio avançado da doença como é o caso do seu Hilário, teria a chance de reunir a família para uma celebração como essa.  "Nosso esforço é para fazer com que as pessoas estejam vivas até o dia que elas morrem", diz a médica Ana Claudia.

A médica conta que a presença da família é imprescindível nesse momento. E que muitos têm a chance da despedida, de perdoar e serem perdoados, de conhecerem um neto ou bisneto antes de morrer. Ali, a morte chega de maneira natural. E nada acelera esse processo, muito pelo contrário.

Desejos

"Tenho um pedido", disse Edelzuita Maria de Jesus Rocha, de 57 anos, quando Ana Claudia entrou em seu quarto. "Quero fazer a unha, o cabelo e o bigode", pediu. "Ninguém gosta de mulher com bigode". Vaidosa, Edelzuita chegou ao hospital há dois meses com complicações de uma doença no pulmão. Natural de Vitória da Conquista (BA), veio para São Paulo aos 14 anos e já trabalhou como ajudante de pedreiro, doméstica e arrumadeira. "Já fiz de tudo", diz. Vivia em uma favela no bairro do Campo Limpo. Ao lado do seu barraco, o vizinho queimava cobre, o que, somado à doença, fazia com que ela ficasse sem ar.

 A filha, de 25 anos, tem trombose. Visita a mãe "quando dá" e leva os dois netos, um de cinco e outro de sete anos, junto. "A riqueza do pobre é o neto", diz Edelzuita. Dois dias depois, ela ganhou tratamento de salão de beleza no hospital. "Eu sou uma gatona ainda", disse. "Ainda estou atrás de uns bons miados". Ali, os pacientes são tratados com dignidade e atenção. É raro, mas, segundo conta Ana Claudia, chegam a receber alta.

A médica diz que os mais variados pedidos são atendidos na medida do possível, já que não existe uma verba destinada aos "desejos". Ela conta que uma vez recebeu um paciente com câncer no sistema nervoso central. Ele não falava e nem se mexia. Com o passar dos dias, foi reagindo. "Um dia eu perguntei a ele se ele estava precisando de algo. Ele pegou na minha mão e falou, bem baixinho 'champanhe'", afirma Ana Claudia. "Descobrimos que ele faria 50 anos de casamento", conta. No dia da festa, a champanhe estava na geladeira. "Ele ergueu a taça, fez um discurso lindo dizendo que casaria com a mulher novamente e disse: 'quero fazer um brinde. Porque a vida é bonita quase todos os dias".

Poucos dias depois, esse paciente morreu. "Quem é que não está lúcido aqui? Eles, ou nós?", pergunta a médica.

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