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‘Ménage à trois’

Espetacular batalha entre um pai enfurecido, uma filha decidida e uma neta ambiciosa. Os três, radicais da extrema direita

Os dirigentes da extrema direita francesa precisaram de três horas de reunião para se atrever a votar. Estavam decidindo, nem mais nem menos, sobre a suspensão do patriarca Jean-Marie Le Pen, que fundou o partido em 1972; a supressão de sua presidência de honra e humilhá-lo depois de ter representado o papel de ogro da política francesa (e europeia). Como se fosse pouco, é o pai da atual líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, e também avô de Marion Maréchal-Le Pen, a mais jovem das estrelas em ascensão no firmamento da extrema direita, próximo ao fundador da dinastia.

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Falam de luta de correntes internas, cada uma das quais teria se vinculado a um membro da família Le Pen como elemento de legitimidade. Mas é evidente que o envio do caudilho ao ostracismo responde à vontade de Le Pen (filha) para dissociar o partido da imagem de seu progenitor, simpatizante do nazismo e antissemita, que não para de insistir que as câmaras de gás só foram “um detalhe” da história.

Com o crescimento das intenções de voto, Marine Le Pen não quer perder a oportunidade. A gota que fez o copo transbordar foi a manifestação de 1º de maio, que incluiu agressões a jornalistas e a aparição de Jean-Marie Le Pen em primeiro plano no palco quando ele tinha sido convidado a não participar. Agora que a direita de Nicolas Sarkozy encontra-se em dificuldades, e depois do desgaste do Partido Socialista no poder, Marine Le Pen vê a ocasião de aparecer como a dirigente que rompe com a herança recebida, matando o próprio pai para tentar demonstrar sua audácia na hora de tomar decisões difíceis.

Do ménage à trois entre os Le Pen saem um pai enfurecido, uma filha decidida a mandar e uma neta que se apoia no avô como mostra de desconfiança em relação à presidenta do partido. Certo, não se trata de um trio que realiza uma relação privada quando dois de seus componentes já estão cansados de se relacionar bilateralmente.

O ménage à trois dos Le Pen interessa muito ao público: se depois de tantos anos temendo as forças escuras, a ultradireita depende de uma briga familiar, talvez o bicho-papão não seja tão feio como dizem.