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Uma geração afastada das urnas

Jovens britânicos têm uma das mais altas taxas de abstenção da UE

Protesto em Londres contra as taxas e por uma educação gratuita em novembro.
Protesto em Londres contra as taxas e por uma educação gratuita em novembro. REUTERS

É a hora do rush em Manchester Central. Os arredores, a Universidade e os restaurantes estão lotados. Rapazes com óculos de aro e barba de vários dias, algumas garotas com o cabelo azul, um ou outro de terno. Uma escandalosa capa de chuva amarela se destaca. É de Ada Ceys, uma jovem de 24 anos que tenta se proteger dos raios de sol matinais com os olhos fechados. Magra e baixinha, tem a seus pés uma mochila decorada de broches com lemas como ‘Nuclear não’ ou ‘Fim dos impostos tampão’. Ceys, que formou-se em Psicologia, se define como ativista social. Mas, para além disso, não se interessa por política. De fato, afirma que não irá votar nas eleições do Reino Unido desta quinta-feira: “Os políticos vivem afastados da realidade, especialmente da nossa. É só olhar para eles: são um punhado de homens brancos, velhos e ricos... Nossa democracia é cinzenta”.

Ela também não participou das eleições gerais cinco anos atrás. Em Manchester Central a apatia foi, literalmente, a vencedora: 56% dos eleitores desse distrito mantiveram-se longe das urnas que elegeram a coalizão entre os conservadores de David Cameron e os liberal-democratas de Nick Clegg; o mais baixo índice de participação do país. A região tradicionalmente trabalhista e uma das mais multiétnicas do Reino Unido reúne, também, um bom número de eleitores jovens, que costumam ser alérgicos ao voto. Nas eleições de 2010, somente 44% dos jovens de entre 18 e 24 anos votaram, contra 66% dos mais de 35.

Os jovens britânicos, que registram uma das mais altas porcentagens de abstenção da UE, sentem-se a anos-luz de Westminster. Têm apetite pela política, e especialmente pelo ativismo, mas segundo as pesquisas sociológicas do professor Matt Henn, da Universidade Nottingham Trent, não se identificam com os partidos “formais”. Não gostam dos Conservadores e dos Trabalhistas. E no Reino Unido, onde os partidos alternativos que poderiam canalizar o voto jovem são minoritários, é o Partido Verde ou até mesmo o Partido Nacional Escocês, diz Henn, os que poderiam captá-lo. “Não é que não se interessem pela política, mas refutam as práticas políticas tradicionais feitas nos corredores de Westminster pelos partidos tradicionais, e estão interessados em outras fórmulas”, diz o especialista. Henn dá como exemplo o plebiscito pela independência da Escócia, onde 80% dos jovens entre 16 e 17 anos votaram.

Nessas eleições somente 16% dos jovens de 18 a 24 anos estão certos que votarão, de acordo com uma pesquisa da Hansar Society. E em eleições tão apertadas como as do dia 7 —as mais disputadas desde a II Guerra Mundial—, as cédulas dos indecisos podem fazer a diferença. O Governo gastou 14 milhões de libras (65 milhões de reais) em campanhas para convencer as pessoas a votar, e os partidos tentaram usar todos os meios para se aproximarem deste eleitorado afastado.

Na última semana de abril, o candidato trabalhista Ed Miliband, em uma tentativa de conquistar o voto jovem, foi entrevistado pelo polêmico comediante Russell Brand. Autor do documentário As Roupas do Imperador e o livro Revolução, Brand, que tem uma audiência massiva no YouTube, apoia abertamente o movimento antissistema Occupy Democracy e é um defensor da abstenção. Não ganhou seu apoio, mas a jogada, criticadíssima pela imprensa conservadora e pelo partido de Cameron, não foi de todo ruim para Miliband.

O problema do desemprego e da moradia

  • No Reino Unido (62,2 milhões de habitantes) existem 5,7 milhões de jovens com direito ao voto. Em 2010, somente 44% da população entre 18 e 24 anos votaram, uma das porcentagens mais baixas da UE. Na Itália 71% votam, na Espanha 61% o fazem, segundo dados da Eurostat.
  • As pesquisas mostram que somente 16% dos jovens planejam votar na quinta-feira. 30% asseguram que não irão depositar a cédula. Entre aqueles que votam pela primeira vez, as pesquisas dão uma ligeira vantagem aos Trabalhistas (35%) frente aos conservadores (30%). Os liberal-democratas (9,4%), que há cinco anos receberam uma boa parte de votos jovens, perderam posições para o Partido Verde (14,4%).
  • A moradia e o desemprego são os principais problemas para os jovens britânicos. 14,4% das pessoas entre 16 e 24 anos que não estudam não têm emprego, de acordo com o Escritório Nacional de Estatística; a porcentagem mais alta em 17 anos e três vezes mais que a taxa média de desemprego do país (5,6%).

Mas Luke Harris, 23 anos e cachecol do Manchester United no pescoço, não se convence com esses esforços. Não sabe se irá votar. Em 2010 escolheu os Liberal-democratas, mas não voltará a fazê-lo. “Prometeram que diminuiriam as taxas universitárias e não cumpriram. Essa é a realidade”, diz. Conta que trabalha em uma empresa de provisões, mas que gostaria de ter cursado uma graduação. Sua família não estava bem de vida e mudou suas aspirações. É caro estudar no Reino Unido. Um curso custa, em média, 11.000 euros (37.700 reais) anuais, contra os 600 (2.056 reais) da Bélgica ou os 700 a 1.500 (2.400 a 5.140 reais) da Espanha. As taxas expulsam muitos britânicos das salas de aula ou os deixam presos a longos créditos.

Como Harris, em Manchester Central, muitos jovens falam de promessas quebradas, de políticos corruptos, de “mais do mesmo”. Alguns afirmam que votarão. Outros não. “Não são apáticos, mas sentem-se frustrados”, frisa Georgia Gould (28 anos), autora de Wasted, um livro onde traça o retrato de uma geração com altas aspirações, mais empreendedora e com uma alta participação em atividades sociais, culturais e amante do ativismo em Rede, mas incompreendida pelos partidos tradicionais. “Existe um círculo vicioso no qual os jovens não votam, seus interesses não são levados em consideração pelos políticos e os jovens ficam ainda mais desencantados”, diz.

No acampamento de sem-teto de Peter´s Square, próximo à Universidade de Manchester, vive Adam Whilan, de 24 anos. A realidade o coloca no polo oposto a Ada Ceys, mas suas percepções são semelhantes: “Eleição não, seleção. Isso não é uma democracia real. Para que votar, os políticos não têm nada a ver com o povo”.

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