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Não há perdão para o ‘contador de Auschwitz’

Os sobreviventes do campo rejeitam as desculpas do ex-nazista Oskar Gröning no julgamento

Oskar Gröning, el 23 de abril en su juicio.
Oskar Gröning em seu julgamento.

Mesmo com a ajuda de seu andador, o ancião tem dificuldades para chegar a sua mesa. Ao longo do dia, puxa os cabelos, toma notas ou sussurra algumas palavras para sua advogada, mas na maior parte do tempo permanece com semblante sério, ouvindo as atrocidades narradas pelas testemunhas. A quinta sessão do processo contra Oskar Gröning —o antigo membro da SS que trabalhou no campo de extermínio de Auschwitz entre 1942 e 1944— se concentra nos depoimentos de duas vítimas do horror nazista. Os dois concordam: o homem de 93 anos sentado à sua frente, vestido com um colete roxo e uma camisa clara que reforçam sua imagem de avô benquisto, não merece seu perdão.

Dezenas de pessoas faziam fila desde as sete da manhã de 26 de abril passado para conseguir um lugar no processo realizado em Luneburgo, uma pequena cidade no centro da Alemanha. Nenhum deles —inclusive um homem que veio dos EUA e que já tinha viajado ao Camboja para assistir o julgamento contra o Khmer Vermelho— quer perder uma das últimas oportunidades de ver no banco dos réus um cúmplice da macabra máquina de assassinar e torturar pessoas que foi Auschwitz até sua queda em 27 de janeiro de 1945.

Mas este processo é especial. Não só por ocorrer com 70 anos de atraso. Gröning não é como outros ex-nazistas envolvidos que preferiram guardar silêncio. O homem batizado pela imprensa como o contador de Auschwitz reconhece que trabalhou no campo, mas insiste que só realizou trabalhos administrativos e que jamais deu um tiro. E pede perdão pela dor causada. “Não tenho nenhuma dúvida de que sou moralmente responsável pelo que fiz. Demonstro meu arrependimento e humildade diante das vítimas”, declarou no começo do julgamento, que se estenderá até 29 de julho.

Oskar Gröning, na juventude com o uniforme da SS.
Oskar Gröning, na juventude com o uniforme da SS.

O processo contra Gröning pôde ser retomado exatamente quando a Alemanha se prepara para comemorar o 70o aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial graças ao precedente de John Demjanjuk. A sentença de 2011 que condenou a cinco anos de prisão esse antigo vigilante do campo de Sobibor estabelecia que, para ser cúmplice dos crimes nazistas, não era necessário ter participado diretamente da matança. “O extermínio industrial de milhões de pessoas exigiu que cada peça da engrenagem cumprissem sua função. Não é a mesma responsabilidade que a dos líderes do Holocausto, mas, sim, é possível julgar todos que participaram como cúmplices”, explica a este jornal o advogado de cerca de cinquenta reclamantes, Thomas Walter.

“Sobre a responsabilidade penal, cabe aos senhores decidir”, disse Gröning aos juízes. Ele é acusado de colaborar com a morte de 300.000 judeus, vítimas da chamada Operação Hungria, em 1944. As desculpas apresentadas tiveram uma reação imediata. Eva Mozes Kor, de 81 anos, afirmou diante do tribunal com detalhes que ela e sua irmã gêmea foram as únicas de sua família a se livrar da câmara de gás pela única razão de que o médico do campo, Josef Menguele, as considerou de interesse para suas pesquisas.

Bil Glied, sobrevivente de Auschwitz, no julgamento de Gröning.
Bil Glied, sobrevivente de Auschwitz, no julgamento de Gröning.

Pouco depois de depor, Kor se aproximou de Gröning para dizer-lhe que o perdoava e que deveria convencer seus “colegas nazistas” a reconhecerem o que aconteceu em Auschwitz. Os dois idosos deram-se as mãos, cena que foi fotografada pela advogada do antigo membro da SS. A imagem despertou a indignação dos demais reclamantes.

“Eu não tenho o direito de perdoar Gröning. Ele teria de pedir desculpas a meu pai, à minha mãe e à minha irmã mais nova, não a mim”, afirmou Eugene Lebovitz, cidadão norte-americano israelense nascido na antiga Tchecoslováquia, e que perdeu toda a família em Auschwitz, durante um recesso do julgamento. “O discurso de arrependimento de Gröning não tem um efeito jurídico sobre o processo. E as vítimas não dispõem de uma autorização de seus entes queridos já falecidos para aceitar suas desculpas”, afirma o advogado Walter em Luneburgo, a cidade na qual exatamente há 70 anos se suicidou o chefe da SS, Heinrich Himmler.

A Alemanha dá continuidade, com expectativa, a um dos últimos julgamentos que poderão ser realizados contra os cúmplices da Shoah (holocausto em hebraico). Para quem pergunta qual o sentido de colocar na cadeia um ancião a quem resta pouco tempo de vida, o ministro da Justiça, o socialdemocrata Heiko Maas, responde que este processo contribui para aliviar o grande fracasso da justiça alemã, que só levou aos tribunais cerca de cinquenta dos 6.500 membros da SS em Auschwitz que sobreviveram à guerra.

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