Estatal Brasileira

Balanço da Petrobras divulgado hoje define o futuro da companhia

A empresa vive seu teste definitivo depois da Lava Jato O plano de retomada é uma luz no fim do túnel para a economia

Sede da Petrobras no Rio.
Sede da Petrobras no Rio. VANDERLEI ALMEIDA (AFP)

Os olhos de investidores do mundo todo estão voltados nesta quarta-feira para o balanço contábil da Petrobras. A empresa terá de reconhecer o tamanho de seus débitos, incluindo a desvalorização de seus ativos com as denúncias explícitas das obras superfaturadas na companhia. Mais do que uma resposta ao mercado, o balanço da Petrobras pode ser um ponto de apoio no alto mar em que se encontra a presidenta Dilma. A estatal representa um dos vários nós a serem desatados para começar a restaurar um pouco do poder perdido pela mandatária junto com a avalanche da Lava Jato. A perspectiva de desatá-lo pode abrir caminho para dissolver o nó da economia, e a reboque o mau humor das ruas e até do Congresso.

Não só a presidenta está na torcida pela Petrobras. Benjamin Steinbruch, Mark Mobius e Helli Cardozo são três nomes que declaram publicamente otimismo com a nova Petrobras que pode estar surgindo junto com a divulgação do seu balanço de 2014 nesta quarta-feira, após meses de atraso. “A Petrobras tem tudo para sair do seu inferno astral”, escreveu Steinbruch, presidente da siderúrgica CSN, nesta terça, em artigo na Folha de S. Paulo, ao observar que a expectativa da publicação do balanço, já fez os papeis da empresa subirem, e os analistas voltaram a recomendar a compra de suas ações.

Mobius, por sua vez, sócio do fundo Franklin Templeton, que investe em mercados emergentes pelo mundo, disse ao EL PAÍS que manteve os investimentos da Petrobras mesmo no período de maior turbulência, porque aposta em países e negócios no longo prazo e porque a companhia tem “um plano de reformas muito bom” para ir adiante.

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Já Cardozo, prefeito de Itaboraí, a 50 minutos do Rio de Janeiro, onde se encontra o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), diz que confia mais no desempenho do novo presidente da Petrobras desde fevereiro, Aldemir Bendine, do que confiava na sua antecessora, Graça Foster. “Bendine já se comprometeu pessoalmente a resolver logo a pendência dos investimentos parados no Comperj”, afirma Cardozo, lembrando que Foster nunca se mostrou acessível a ele. O Comperj, que já teve 35.000 pessoas na obra em 2013, é uma das faces aparentes do terremoto que sacudiu a Petrobras. A paralisia que se seguiu às investigações da Lava Jato Hoje, mantém 4.800 funcionários.

Um informe da agência de risco Moody's, desta terça-feira, avaliou como “positivo” até para o panorama de dívida soberana brasileira, uma vez que o Estado é um dos donos da companhia. Segundo a Moody's, que rebaixou a nota de risco da Petrobras em fevereiro passado, os resultados financeiros apresentados nesta quarta devem “diminuir significativamente a probabilidade de eventos com implicações creditícias negativas” sobre a dívida soberana.

Um cálculo feito pela XP Investimentos aponta que a Petrobras tem um peso de até 1 ponto porcentual no PIB do Brasil, considerando o que a companhia movimenta direta ou indiretamente. Desta forma, a economia está umbilicalmente ligada à petroleira.

No resultado preliminar do terceiro trimestre, divulgado no final de janeiro, foram estimadas perdas de ao menos 4 bilhões de reais por pagamentos indevidos feitos pela Petrobras em contratos com as empresas envolvidas na Lava Jato. Esse montante equivale aos 3% cobrados a título de propina entre 2004 e o terceiro trimestre de 2014, conforme os depoimentos dos envolvidos no esquema de corrupção até então. Mas, novas adequações poderão aparecer no balanço anual, à medida que as investigações conduzidas pelo juiz Sergio Moro amplia a lista de depoentes e o período dos desvios.

Os analistas do setor acreditam que os novos ajustes terão um impacto significativo. Um relatório do Itaú BBA aponta que não só essa revisão dos números, mas também a desvalorização do real devem colaborar para a queda de lucro de 58% da empresa, que fecharia em 2,4 bilhões de reais. A transparência desses números, ainda que negativos para quem investe na empresa, dá fôlego à companhia no exterior, uma vez que as leis dos Estados Unidos, por exemplo, exigem que a empresa entregue resultados auditados até este mês.

Rafael Figueiredo, analista da Clear Investimentos, observa que um novo atraso agravaria ainda mais o problema da companhia. “Se não apresentasse até maio, a empresa poderia ser obrigada a pagar um terço da sua dívida à vista”, observa. “Por pior que sejam os resultados, quanto mais transparente a empresa for, melhor para o mercado e para ela”, completa.

O massacre das investigações da Lava Jato levou a empresa à lona, perdendo mais da metade do seu valor de mercado desde 2010. Acossada pelas denúncias de corrupção desde a prisão do ex-diretor Paulo Roberto Costa em março do ano passado. De lá para cá, a petroleira viveu uma sucessão de turbulências, a cada fato novo conhecido pelos depoimentos dos réus da Lava Jato, como o ex-gerente Pedro Barusco, que admitiu que recebia propinas da empresa desde 1997. Os papeis da empresa que valiam quase 24 reais em setembro de 2014, passaram a ser negociadas na casa dos 8 e 9 reais entre dezembro do ano passado e março deste ano. Somente depois de sinalizar que o balanço seria divulgado em abril é que as ações voltaram a valer dois dígitos. Na manhã desta quarta-feira, as ações eram negociadas a 13,14 reais.

O fundo do poço teve vários momentos. Um deles foi a divulgação do balanço no terceiro trimestre no dia 29 de janeiro [as ações caíram para 8,18 nesse dia], com números não auditados pela consultoria responsável, no caso, a Pricewaterhouse. Em seguida, a saída de Graça Foster no início de fevereiro, substituída por Aldemir Bendine, além de seis diretores e conselheiros, manteve a baixa confiança na empresa. Na sequência, veio a perda de grau de investimento com a agência de risco Moody`s.

Bendine, que foi presidente do Banco do Brasil desde 2009, assumiu cercado de desconfianças pela sua lealdade ao Governo da presidenta Dilma, apontada por especialistas como uma das responsáveis por uma série de erros que prejudicaram ainda mais a Petrobras. É o caso da demora para promover os reajustes devidos da gasolina ao longo de 2014, em nome de respeitar a meta da inflação do ano passado.

O executivo tem se mantido discreto mas tem tomado medidas importantes para dar uma satisfação ao mercado. É o caso da criação da diretoria de Governança, Risco e Conformidade, que visa aprimorar os controles internos da companhia, e as ações voltadas à preservação do caixa e redução do endividamento, hoje na casa dos 106 bilhões de dólares. Duas medidas recentes sinalizaram que o sistema financeiro já estava dando uma chance à Petrobras. No início deste mês, a companhia anunciou um contrato de financiamento com o Banco de Desenvolvimento da China no valor de 3,5 bilhões de dólares, ou 10,6 bilhões de reais. No dia 17, a empresa anunciou outro contrato com dois bancos públicos (Caixa e Banco do Brasil) e um privado (Bradesco), no valor de 9,5 bilhões de reais.

Em encontro com investidores, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, marca outra etapa de reconstrução da companhia. A sorte será lançada depois do fechamento do mercado de hoje, e no detalhamento dos números nesta quinta para analistas de mercado.

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