Seleccione Edição
Login

A última farra de Ronaldinho

Aclamado no Estádio Azteca, onde triunfaram Pelé e Maradona, brasileiro vira um ativo valioso para o seu time, o Querétaro

Ronaldinho celebra un gol en el América - Querétaro
Ronaldinho comemora um gol no Estádio Azteca, no México. AP

A última farra de Ronaldinho só poderia mesmo acontecer no México – um país que acolhe calorosamente os seus visitantes mais ilustres, sejam eles o papa João Paulo II ou o jogador espanhol Emilio Butragueño. O atacante brasileiro visitou no sábado o Estádio Azteca, um palco místico, de onde Pelé e Maradona saíram em triunfo. Em apenas oito minutos, marcou dois gols e deu uma caneta num adversário. Ainda que a partida entre o América e os Gallos de Querétaro já estivesse resolvida (terminou 4 x 0 para os Gallos), Ronaldinho entrou em campo e foi cercado num canto do gramado por seus companheiros, que o reverenciaram como se fosse um sultão. Um deles fincou um joelho no chão e fingiu engraxar as chuteiras do ídolo.

A festa mexicana do Ronaldinho (Porto Alegre, 1980) começou em setembro de 2014, quando um dos homens mais ricos do país, Olegario Vázquez Raña, se empenhou em contratá-lo para dar brilho à equipe que acabava de adquirir. O magnata mandou um de seus emissários ao Brasil e, dois dias depois, com um cheque de dois milhões de dólares nas mãos, o gaúcho aterrissou no México. A operação foi um sucesso comercial –os Gallos ocupam capas de jornais e horas de televisão–, mas o rendimento esportivo não é nada do outro mundo.

Em Querétaro, a cidade onde vive, há mais livrarias que discotecas. Os poetas recitam na rua. Os aposentados dançam numa praça florida, e os paroquianos se amontoam nas igrejas na hora da missa. O rastro de Ronaldinho, num ambiente desses, se torna difuso. Embora pareça onipresente –todos nesta cidade de 1,8 milhão garantem tê-lo visto recentemente– não há forma de encontrá-lo. Uma senhora jura que ele acaba de lhe dar um autógrafo numa esquina, e um engraxate, no quarteirão seguinte, acredita que o viu há poucos minutos, a bordo de uma caminhonete parada num semáforo. Sempre parece estar por perto, mas não há como alcançá-lo.

Ronaldinho
O jogador na quadra de futevôlei da sua casa, no sofisticado condomínio El Campanario, em Querétaro.

Sabe-se que come em uma taberna espanhola cuja especialidade é o leitão, que tem um compartimento reservado numa churrascaria onde as garçonetes trabalham só de sutiã, e de vez em quando dá as caras em um restaurante especializado em peixes, o Yellow Fish. Vive em El Campanario, um condomínio plantado no alto de um morro, com campo de golfe e um colégio dos Legionários de Cristo. Os guardas desse luxuoso bunker fazem cara de bravos quando alguém pede para espiar lá dentro.

Tampouco é fácil topar com o jogador no centro de treinamento do seu clube. Na semana passada, enquanto seus colegas treinavam sob as ordens de Víctor Manuel Vucetich, ex-técnico da seleção mexicana, uma fisioterapeuta o ajudava a se recuperar de uma lesão na panturrilha. Chegou às 9h45 e saiu correndo às 11h42. Pouquíssimos tiveram a chance de vê-lo.

A contratação do jogador eleito o melhor do mundo em 2005 significou um empurrão para o aspecto comercial do Querétaro, que até agora vagava a esmo pelo pelotão intermediário da primeira divisão mexicana. A equipe foi recebida por 600 pessoas no aeroporto de Veracruz, onde jogou em fevereiro. O gaúcho, apesar de apresentar hoje um futebol mais analógico do que digital, precisou abrir passagem aos empurrões para atravessar a multidão e chegar ao ônibus que aguardava a delegação. A loucura é também administrativa: a sede do clube tem hoje o dobro de funcionários do que há um ano, o diretor-geral contratou uma psicóloga conhecida por trabalhar com treinamento mental na Argentina, e o departamento de imprensa recebe diariamente uma enxurrada de pedidos de entrevistas com Ronaldinho, impossíveis de serem todas atendidas.

O brasileiro parece alérgico ao cara a cara. Roberto de Assis, seu irmão e empresário, sabe que queremos falar com ele, mesmo que só para tomar um café, mas suas respostas, via Whatsapp, parecem nebulosas. “Estou no Brasil, depois te digo”, diz ele por mensagem de voz. Não haverá um depois. Tudo ao redor do Ronaldinho é agora ou nunca.

Os resultados financeiros não acompanham os esportivos. O jogador chegou vinte dias atrasado para a pré-temporada (os demais jogadores começaram a treinar no começo de dezembro) e só em fevereiro se tornou titular. Em nove jogos, sete como titular e dois como reserva, marcou dois gols (sem influir no resultado final) e ofereceu quatro assistências. Pouco para um dos atletas mais bem pagos do futebol mexicano. “Veio principalmente por uma questão de marketing. Ninguém esperava que fosse o melhor jogador da liga. O México é um país amistoso e tranquilo, ideal para uma aposentadoria dourada”, diz o comentarista esportivo Geo González.

Ronaldinho
Preparando-se para entrar em campo no sábado, no Azteca. AP

Ronaldinho evoca de vez em quando seu passado no topo, sobretudo a época do Barcelona. Em 13 de abril, alguém o escutou comentar no vestiário: “Hoje é o aniversário do meu capitão”. Naquele dia, em algum lugar, Carles Puyol estava soprando 37 velinhas. Nunca se questiona por ter apeado tão cedo da elite, por ter perdido o prumo da carreira quando tinha apenas 27/28 anos? “Essa pode ser a sua opinião, mas não a dele. Ele é muito feliz, está contente por tudo o que a vida lhe deu, que não é pouco. Não tem nenhum conflito pessoal com seu passado”, conta uma pessoa que trata do aspecto psicológico dele. Outras fontes ouvidas concordam que Ronaldinho não é melancólico por natureza.

“Queríamos um jogador de grife, e era o candidato ideal”, diz Arturo Villanueva, presidente administrativo do clube e o homem em quem Ronaldinho mais confia em Querétaro. “Rona é uma figura. Só precisa de uma bola e de música para ser feliz. Está adorando o país, a comida, as mulheres. Sua contratação foi um sucesso em todos os sentidos”, comemora.

Embora as estatísticas do jogador sejam medianas, o discurso otimista da diretoria se impôs em todos os escalões do clube. Andrea Fernández, a psicóloga argentina, diz que Ronaldinho é “alguém divino”. Inés Massacessi, uma fisioterapeuta com ampla experiência, nunca tinha visto quadríceps tão desenvolvidos. Os outros jogadores, quando ele dá as caras no CT, ficam pasmos com os malabarismos que ele faz com a bola. Atletas de segundo nível têm a sensação de que, estando ao lado dele, terão uma boa história que contar aos netos.

Ronaldinho
Foto publicada por Ronaldinho no Twitter.

A sensação de sucesso que rodeia os Gallos levou Ronaldinho a um estado de confusão. Em março, publicou no Twitter uma foto em que aparecia segurando um troféu. “Esta taça serve de motivação extra para este final de temporada”, dizia. Na verdade, não havia ganhado nada que valesse a pena comemorar. Tratava-se apenas de um amistoso disputado em Frisco, no Texas. No sábado, a imprensa esportiva mexicana exagerou seu feito com manchetes como “Ronaldinho comanda a goleada” e “Ronie humilha o América”. Não há ambiente mais feliz e protetor para o brasileiro do que este. No México, cada dia mais perto da sua aposentadoria, Ronaldinho desfruta da que parece ser sua última farra.

MAIS INFORMAÇÕES