Al PACINO

Al Pacino: “Lenda, eu? Lenda era Marlon Brando”

Aos 74 anos, Al Pacino reflete sobre sua vida e sua obra com a estreia de ‘O Último Ato’

Al Pacino, retratado em 30 de agosto no último festival de cinema de Veneza.
Al Pacino, retratado em 30 de agosto no último festival de cinema de Veneza.rune hellestad (corbis)

Quando o punhado de jornalistas entra na suíte, Al Pacino já está ali, parafraseando o dinossauro de Monterroso. Primeiro se ouve sua voz, grave, gutural, que gorjeia melodiosa; depois se veem opacos óculos de sol. Cabelo penteado, camisa preta aberta quase até o umbigo, pelos grisalhos que saltam do peito aos borbotões, munhequeira, coca-cola e água. Ou seja, aspecto de rolling stone, irmão carnal de Jagger, Wood e Richards. O Pacino homem (East Harlem, Nova York, 1940) é igual ao Pacino lenda. Os cinéfilos babam: o mito passa no teste.

Festival de Veneza. Final de agosto. A noite foi longa, como testemunham as fotos na Internet. O ator que explicou em duas pinceladas o capitalismo selvagem (“Meu pai lhe fez uma oferta que não pôde recusar”) está feliz. Apresentou dois filmes. Um deles foi recebido com críticas divididas: em Manglehorn encarna um chaveiro atolado em sua existência solitária; a presença – enorme – de Pacino torna impossível alguém acreditar no personagem. Mas no outro... no outro encarna um ator, lenda do teatro, fanático por Shakespeare, gigante do cinema, que perdeu seu talento para a interpretação e, em depressão, beira o suicídio. Até que se envolve uma jovem lésbica (interpretada por Greta Gerwig) e começa a cavalgar uma surrealista montanha-russa da vida. The Humbling (O Último Ato) foi filmado em 20 dias na casa do diretor, outro grande veterano, Barry Levinson, e se baseia, embora muito expurgado pelo roteirista e ator Buck Henry, no romance A Humilhação, de Philip Roth. “Tanto Barry como eu nos interessamos pelos direitos do livro e acabamos cruzando nossos caminhos. Filmamos ao estilo guerrilha: em 20 dias, em sua casa, em umas jornadas no outono e outras no inverno. Sinceramente, é que queríamos fazer o filme”.

Seus projetos

Entre os projetos de Al Pacino, está trabalhar pela primeira vez com Martin Scorsese em The Irishman, "com Joe Pesci e Bobby [Robert de Niro], e está de pé apesar dos atrasos. Mas que grupo de italianos!". Conheceu Scorsese no início de sua carreira: "Eu existia antes de O Poderoso Chefão [ironiza], mas nunca surgiu a possibilidade de trabalharmos juntos".

Duas filmagens que já realizou são Danny Collins, do estreante Dan Fogelman, um drama baseado na história real do cantor folk Steve Tilston; e Beyond deceit, de Shintaro Shimosawa, um thriller que está filmando com Anthony Hopkins.

Pacino se apresenta aos jornalistas: “Só entendo as conversas falando com os olhos, como as pessoas normais”. Entram ondas de luz entre as persianas pseudo-árabes dos imensos janelões do hotel veneziano. Já dissemos que a noite foi longa. O ator tira os óculos de sol, dobra-os e coloca delicadamente em cima da mesa. Pisca várias vezes, torce o nariz e se esconde de novo atrás dos óculos entre risadas. “Hoje não é o dia”. De repente, começa a refletir sobre as relações entre pais e filhos, sua carreira, o teatro, sua aura de lenda, seus filhos. A conversa, prevista para 20 minutos, alonga-se até uma hora. Por duas vezes uma representante da assessoria de imprensa internacional do filme tenta interrompê-lo. Na primeira, o nova-iorquino, ator sem o qual não se entenderia o cinema dos anos setenta, responde: “Estou aquecendo”. Na segunda, só a fulmina com o olhar. Atrás dele, outro idoso, divertido com a confusão que o ator armou com esse atraso no horário do festival, come fruta e queijo. “É um bom amigo. Está comigo... Bem, cada vez que eu disser algo e ele sorrir, saberão que menti”. O idoso vai embora. “Estão vendo?”.

“Que todos sejamos filhos, e muitos pais, não significa que sejamos especialistas nas relações paterno-filiais”, diz o ator, questionado por essa faceta de seu personagem no Manglehorn. “Cada um faz o que pode, e há um tópico que faz casais desfeitos continuarem unidos pelo bem de seus filhos, pelo espírito familiar. Sei que é complicado para um filho crescer sem a atenção de seus pais [Pacino fez um desvio em sua resposta: fala de si mesmo, de Alfredo James, filho de Salvatore Pacino e Rose Gerardi, que se divorciaram quando seu filho era quase um bebê]. Eu mesmo não fui um bom pai para Julia [sua filha mais velha, que teve aos 49 anos], e as coisas melhoraram com os gêmeos [Anton e Olivia, que nasceram quando tinha 61]. Sabe o que é um prazer? Ver como vão passando os anos nos três. Sem dúvida os pequenos afetaram diretamente a minha vontade de trabalhar, porque na verdade prefiro passar o tempo com eles. Mudei-me por 11 anos para Los Angeles porque a mãe deles [a atriz Beverly D'Angelo] vive ali. Cresceram com minha presença, algo que não dei a Julia. Eu quase não conheci meu pai, quem criou a dinâmica familiar para mim foram minha mãe e meus avós... Tenho lembranças maravilhosas, embora tenha sido difícil me aceitar, não fui bom aluno – basta ver minhas notas. Agora espero que meus dois pequenos estejam desfrutando das duas casas, porque em cada uma brincam de coisas que na outra não podem [ri]. Aprendi também a falar muito com a mãe sobre eles, para ver como estão progredindo...”.

Quando Pacino ficou famoso, não lhe restava família que ele considerasse próxima, exceto sua avó. “E tudo para ela parecia uma loucura. Por sorte a meu lado estavam meu mentor e professor no Actors Studio Charlie Laughton, e meu amigo Martin Bregman, que produziu cinco de meus melhores filmes, grandes títulos. Martin é muito mais preparado que eu e disso me beneficiei [Lá atrás se ouve uma risada. Bregman, manager das estrelas e produtor de Um Dia de Cão, Serpico, Scarface, Vítimas de uma Paixão e O Pagamento Final, é o homem que come queijo e fruta]”.

Quando sua carreira começou a decolar, em algum momento disse que queria ter uma grande família: “Sim, fantasiava com isso. Como me enganei”. E chegou a suspeitar até onde ia chegar? “Se quando eu era meio baderneiro tivesse intuído... Acho que foi melhor para minha própria segurança que nem imaginasse. Só queria, e quero, ser ator.”

Al Pacino se lembra de como sua vida mudou quando ele passou de uma pessoa difamada pelos produtores de O Poderoso Chefão a uma estrela mundial graças a Michael Corleone. “Obviamente, foi radical. Mas faz cinquenta anos, acreditem ou não, vivíamos em um mundo diferente... Nossa, já faz meio século. Enfim, a ideia de fama era diferente, o apetite pela arte também... Combinávamos interesses diferentes, inclusive o vocabulário, dos das estrelas de hoje. E ainda me sinto assim”. Um jornalista compara essa resposta com uma declaração parecida de Mick Jagger. “Ah, deus, adoro Jagger, adoro essa comparação. Suponho que tenhamos espíritos parecidos surgidos na mesma época. Como ele, gosto do palco. Acho que minha filha Julia sofreu com isso, porque quando nasceu eu estava muito comprometido com o teatro. Agora ela é cineasta e temos longas conversas. Entendo por que nos velhos tempos os atores faziam sagas: viajavam com sua família de um lado para outro, algo muito prático; herdavam e transmitiam uma tradição e além disso criavam algo superior, imortal: um espetáculo. Minha filha, porém, teve de esperar”.

Ele mesmo é parte de uma tradição, o Actors Studio. Pacino volta para lá de vez em quando para dar palestras, comprometido com o Método, transformado ele mesmo em lenda. “Não sou capaz hoje em dia de definir o que é uma atuação do Método. Só posso afirmar que acredito que o ator deve fazer um grande trabalho pessoal. Lenda, eu? Por favor, lenda era Marlon Brando. E, claro, imitei-o quando era jovem. Logo chegaram os anos setenta, a aceleração de dois filmes por ano, os excessos, os esquecimentos provocados por esses excessos... Refugiei-me no teatro para voltar à essência da atuação. Está bem, aceito que sou uma personalidade conhecida. E contra isso não posso lutar. Só me resta o recurso de ser o mais eclético possível em minhas escolhas profissionais.”

Nos palcos, mantém a chama. “O teatro se baseia na repetição. E para mim essa repetição me provoca ambição, vontade de criar momentos mágicos. As palavras já estão escritas, mas você inventa sentimentos.”

O ator, vencedor do Oscar por um de seus trabalhos mais açucarados, Perfume de mulher, se recusa a refletir sobre seu passado. “É que não posso tirar conclusões, porque a vida é incontrolável. Um dia você se levanta com vontade de fazer um montão de coisas, no outro o corpo todo dói e você se lembra daqueles dias de seu tempo de bebedor [risos]... Sei a idade que tenho, e que o mundo muda a toda velocidade. Ninguém tem culpa disso. Com os anos você sabe que restam duas coisas: sua imaginação e suas lembranças. Não estamos falando de cinema, sinto muito, mas gostaria de entrar nesses aspectos psicológicos da vida. Porque por mais que alguns se gabem, ninguém tem a capacidade total de entender as coisas, os acontecimentos, a vida. E isso justamente é o que amo na interpretação: nem tudo é inteligível, nem tudo é controlável”.

Mas, isso sim, agradece a Deus, por “todos os filmes” que fez. “E os que não fez também, pois ficaram para trás. Por favor, não me façam voltar a falar do passado [risos]. Disse a vocês que já não me lembro bem dos anos setenta? [gargalhadas]. Sabem do que eu gosto? Quando alguém vem, te cumprimenta, sou amável e a pessoa vai embora e diz para um amigo: “Olha, taí um cara agradável”. E o que diria aos jovens atores que querem ser o novo Pacino? “Rapazes, vocês estão com a faca e o queijo na mão".

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