Caso Boris Nemtsov

Moscou prende cinco chechenos pelo assassinato de líder oposicionista

O presidente da Chechênia intercede por um dos detidos Segundo ele, trata-se de um muçulmano ofendido pelo ‘Charlie Hebdo’

Tamerlan Eskerkhanov, detido por seu suposto envolvimento no assassinato do oposicionista Nemtsov, é escoltado em um tribunal russo.
Tamerlan Eskerkhanov, detido por seu suposto envolvimento no assassinato do oposicionista Nemtsov, é escoltado em um tribunal russo.MAXIM SHEMETOV (REUTERS)

Chegou a cinco o número de detidos pelas autoridades russas até domingo por seu suposto envolvimento no assassinato do político Boris Nemtsov, vítima de quatro tiros disparados pelas costas em 27 de fevereiro nas imediações do Kremlin.

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Os detidos são originários do Cáucaso do Norte, todos eles chechenos. Dois deles, Zaur Dadaev e Anzor Gubashev, foram acusados formalmente no domingo por um tribunal de Moscou. Os outros três, Shaguid Gubashev (irmão menor de Anzor), Tamerlan Eskerkhanov e Khamzad Bakhaev, figuram como suspeitos. A juíza responsável pela instrução do caso em Moscou, Natalia Mushnikova, disse que Dadaev reconheceu sua participação no assassinato. Ela determinou que ele fique detido pelo menos até 28 de abril, segundo a agência Interfax. Os demais implicados negam ter participado do crime. Um deles alega que estava em outro lugar na noite do assassinato.

O líder checheno, Ramzan Kadirov, intercedeu por Zaur Dadaev, afirmando que se trata de um muçulmano “profundamente fiel” que estava chocado pela publicação de caricaturas do profeta Maomé no jornal satírico francês Charlie Hebdo, alvo de um atentado jihadista em 7 de janeiro que deixou 12 mortos na redação. “Todos os que conhecem Zaur confirmam que é um profundo fiel e, como todos os muçulmanos, ficou chocado com as atividades do Charlie [Hebdo] e a publicação das caricaturas” de Maomé, escreveu Kadirov em sua conta no Instagram.

Fortes medidas de segurança foram adotadas domingo em torno do tribunal aonde foram levados os suspeitos para que a juíza sancionasse sua detenção. Em Grozni, capital da Chechênia, um homem de 30 anos, Bislan Shavanov, imolou-se detonando uma granada na noite de sábado no apartamento onde tinha se entrincheirado enquanto era perseguido pela polícia, informou a Interfax citando fontes dos órgãos de segurança na Chechênia. Segundo essas fontes, o suicida era suspeito de participar do assassinato de Nemtsov, mas não há confirmação oficial sobre isso. Shavanov não figurava em nenhum registro policial e a ordem de prisão chegou de Moscou, informou o site de notícias Kavkaz-Uzel, citando fontes policiais na Chechênia.

Zaur Dadaev, acusado formalmente do assassinato do opositor russo Nemtsov, na cela de indiciados.
Zaur Dadaev, acusado formalmente do assassinato do opositor russo Nemtsov, na cela de indiciados.TATYANA MAKEYEVA (REUTERS)

“Não cometi esse assassinato. Tenho problemas de saúde, uma úlcera e hemorroidas”, disse Shaguid Gubashev em Moscou, segundo a agência Tass. Enquanto isso, Bakhaev afirmou que ficou sabendo do assassinato de Nemtsov pelos meios de comunicação quando estava em sua casa, informou a Tass. Assinalando ter seis filhos, Bakhaev pediu que não o prendessem. Eskerkhanov, por sua vez, alegou que quando ocorreu o assassinato ele estava no trabalho e disse haver testemunhas disso. A detenção de Anzor Gubashev ocorreu sexta-feira no distrito de Malgobek (na república russa da Ingushétia) e a de Zaur Dadaev, no dia seguinte na cidade de Nazran (também na Ingushétia). Segundo a Tass, Anzor Gubashev e Zaur Dadaev tinham domicílio em Grozni e viviam lá. De acordo com os meios de informação russos, Anzor era vigilante de um supermercado nos arredores de Moscou e Shaguid Gubashev, motorista de caminhão.

Zaur Dadaev foi membro do batalhão Sever (Norte) praticamente desde sua criação. O Sever, subordinado ao Ministério do Interior da Chechênia, foi formado em 2006 em colaboração com o centro antiterrorista dessa república do Cáucaso e o serviço de segurança do presidente checheno, atualmente Ramzan Kadirov. Zaur Dadaev e os irmãos Gubashev são primos. Em uma entrevista à rede de televisão NTV, a mãe de Zaur, Aimani, afirmou que tanto seu filho como os primos “são gente adulta, têm mais de 30 anos e não acredito que pudessem cometer esse crime”. Aimani disse que seu filho lutou durante a última década contra os grupos clandestinos de radicais muçulmanos, serviu dignamente à pátria e foi condecorado por isso. A condecoração foi confirmada pelo próprio Kadirov no Instagram.

As autoridades teriam chegado até os suspeitos graças às câmeras situadas nas imediações do Kremlin e no lugar onde foi morto Nemtsov. Segundo a agência Interfax, os investigadores encontraram rapidamente o carro em que os suspeitos tinham andado. Nele havia restos biológicos que permitiram encontrar sua pista.

A “pista chechena” na qual trabalham as autoridades russas reduz o peso da pista internacional (também considerada), principalmente levando em conta a ligação de alguns dos detidos com as estruturas policiais e de segurança da Chechênia. Cidadãos russos de origem chechena combateram no leste da Ucrânia, alguns do lado dos insurgentes separatistas e outros, do lado de Kiev.

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