Operação Lava Jato

Procura-se um bom advogado criminalista para defesa na Lava Jato

São poucos os defensores de renome que sobraram para atender aos 54 acusados no STF

Procura-se um bom advogado criminalista. Mas está em falta. O maior escândalo de corrupção da história brasileira saturou o mercado de defesa criminal do país e, agora que a Operação Lava Jato chega a sua fase política, com a apresentação da denúncia do procurador-geral da República, poderosos senadores, deputados e governadores se arriscam a enfrentar os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) representados por defensores de segunda linha.

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O cálculo é simples: existem cerca de 40 escritórios de advocacia criminal de competência devidamente reconhecida no Brasil, e a investigação sobre desvios na Petrobras, à qual se somam mais 54 acusados do mundo político, já implicou criminalmente 87 pessoas, entre elas alguns dos mais poderosos empreiteiros do país. Quem foi acusado antes, como os empreiteiros de empresas como UTC, OAS, Mendes Júnior e Galvão Engenharia, conseguiu garantir estrelas da advocacia criminalista brasileira, como Alberto Zacharias Toron, Marcelo Leal de Lima Oliveira, Marcelo Leonardo e José Luiz de Oliveira Lima — que já haviam atuado no julgamento do mensalão —, e, ainda assim, tiveram de batalhar pelos defensores.

Uma das advogadas que atua na Lava Jato disse ao EL PAÍS que já no ano passado, quando tentava tirar seu cliente da cadeia, enfrentou dificuldade para encontrar defensores de capacidade que pudessem ajudá-la no caso. E encontrar um bom advogado deve estar ainda mais difícil agora, ainda que o poderoso cliente tenha dinheiro para pagar o preço necessário. O advogado Tales Castelo Branco, por exemplo, que defendeu o marqueteiro Duda Mendonça durante boa parte do escândalo do mensalão, diz que se surpreendeu com o mais de dez potenciais clientes que lhe procuraram nos últimos meses.

O criminalista Luiz Fernando Pacheco, que defendeu o ex-presidente do PT José Genoino no mensalão, também não atua ainda na Lava Jato e, questionado pela reportagem do EL PAÍS sobre o assédio de clientes, deixou a questão no ar: “Tudo ainda está por ocorrer. A hora ainda é de esperar os próximos passos desta investigação”. Outro renomado criminalista que ainda não defende ninguém na Lava Jato é Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que deixou a defesa de Alberto Youssef quando o doleiro decidiu firmar acordo de delação premiada.

Logo no dia seguinte à apresentação da denúncia ao STF, começaram as especulações de quem deve participar da defesa dos acusados, cuja identidade deve ser conhecida até o fim da semana. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), que tem sido mencionado como possível denunciado, buscou o ex-procurador-geral da República Antonio Fernando Souza para atuar em sua defesa. Souza é o autor da denúncia ao STF que acusou 40 pessoas no mensalão. "Se todos os jornais estão publicando, declarando que eu estou com algum pedido de investigação, é natural que eu busque um advogado que possa buscar saber informações", comentou o deputado.

Os advogados não revelam o valor de uma causa como essa, mas nos bastidores do mundo jurídico se comenta que, como resultado dos honorários da Lava Jato, não faltaram recursos, em dezembro do ano passado, às festas de fim de ano dos escritórios. E o preço dos defensores só tende a crescer com a competição de clientes endinheirados por seus serviços.

Em meio ao clima de disputa pelos melhores advogados, há até quem tenha reservado um defensor, na expectativa de que viesse a se transformar em réu no caso. Um escritório de São Paulo chegou a negar contratos de defesa porque acompanha os potenciais casos de três clientes que imaginam que ainda podem vir a aparecer entre os acusados.