A memória resgatada dos mexicanos linchados

EUA redescobrem a história das vítimas latinas da violência ‘branca’

Os cadáveres dos mexicanos Arias e Chamales pendurados em uma forca de Santa Cruz (Califórnia), em maio de 1877.
Os cadáveres dos mexicanos Arias e Chamales pendurados em uma forca de Santa Cruz (Califórnia), em maio de 1877.

“Um esporte ao ar livre”. O jornalista Carey McWilliams definiu dessa forma a prática de linchar mexicanos na Califórnia. McWilliams, autor de North from Mexico (Ao Norte do México, 1958), um livro de referência sobre os mexicanos dos Estados Unidos, foi um dos poucos a preservar a memória de um episódio vergonhoso em um país que nunca deixa de revisar sua jovem história.

A recordação da morte, pelas mãos das turbas brancas, de centenas, certamente milhares, de pessoas de origem mexicana entre meados do século XIX e as primeiras décadas do XX, ficou espalhada em canções populares, em lendas que pais contavam aos filhos, em um punhado de filmes de bangue-bangue e romances do gênero. Era uma lembrança vaga, uma história remota, meio esquecida.

Mas jamais, até os historiadores William Carrigan e Clive Webb começarem a pesquisar, haviam sido reveladas as dimensões dos linchamentos de mexicanos, superados somente pelos linchamentos de negros no Sul até meados do século XX.

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Os EUA se transformam e a forma de contar a história também se transforma, para além da mitificação do patriotismo mais superficial. Muda a demografia: os latinos – a maioria, de origem mexicana – são a minoria mais pujante. E muda o passado, que nunca é estático: os Estados Unidos incorporam outros traumas ao acervo comum.

Mortos esquecidos: Violência em Grupo Contra Mexicanos nos Estados Unidos 1848-1928 é o título do livro de Carrigan e Webb, publicado há dois anos. Os fatos aconteceram há muito tempo e são incomparáveis com qualquer discriminação do presente. A publicação recente de um relatório que amplia em 700 o número de afro-americanos reconhecidamente mortos por linchamento, somada ao aparecimento de notícias sobre arbitrariedades policiais, e aos debates sobre a imigração, coloca a tragédia sob outra luz: os negros não foram as únicas vítimas do racismo.

Farmington (Novo México), 16 de novembro de 1928. Quatro homens mascarados invadem o Hospital do Condado de San Juan e levam o paciente Rafael Benavides. Benavides é um pastor internado após agredir uma garota mexicana, assediar uma mulher branca e ser ferido pelos disparos dos agentes do xerife. Os mascarados o levam em uma caminhonete a uma granja abandonada. Amarram uma corda em seu pescoço e o penduram em uma árvore. Os agressores nunca serão julgados.

Benavides, cuja morte foi reconstruída por Carrigan e Webb, goza do raro privilégio de ser a última vítima mexicana da violência em grupo e extrajudicial documentada. Os historiadores documentaram 547 vítimas mexicanas (imigrantes e norte-americanos de origem mexicana), mas o número total de pessoas “enforcadas, queimadas e baleadas” é superior. Foram milhares, de acordo com a estimativa de Carrigan e Webb.

Com o enforcamento de Rafael Benavides terminou uma era que havia começado em 1849, após a derrota do México na guerra contra os Estados Unidos, a anexação do Texas pelos EUA e a transferência a este país, pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo, do atual sudoeste do país. A fronteira política se deslocou centenas de quilômetros, mas os mexicanos continuaram ali; os brancos eram os recém-chegados, os imigrantes, mas imigrantes que tentavam impor sua lei em um ambiente hostil. As tensões eram inevitáveis.

Existia uma justificativa racional para o chamado vigilantismo – a manutenção da ordem pública por parte de indivíduos ou grupos civis – e os linchamentos. No Oeste, um território onde o Estado era fraco e a justiça lenta, ineficiente ou diretamente ausente, muitos viam nos processos e execuções informais a única opção para combater o crime nesse território.

Carrigan e Webb questionam o fato da perseguição a mexicanos ser uma mera reação das carências do sistema judicial nas terras de fronteira. A violência não se explica sem os preconceitos raciais e a competição econômica. “A raiz de tanta violência entre brancos e mexicanos pode estar ligada à luta pelo ouro, a conflitos aparentemente constantes pela terra e gado ou à batalha pelos direitos e as condições trabalhistas”, escrevem.

Na madrugada de 3 de maio de 1877, Francisco Arias e José Chamales estavam na prisão de Santa Cruz (Califórnia) quando uma multidão os levou. Eram acusados de roubar um carpinteiro, dizem Carrigan e Webb. Foram enforcados sem julgamento e ninguém respondeu pelo crime: um esporte ao ar livre, como disse McWilliams.

Em 1990, o poeta do Brooklin Martín Espada descreveu em um poema os rostos, “descoloridos como moedas de 1877”, da multidão que se aproximou para ver os mortos. Arias e Chamales tinham “a careta adormecida dos pescoços quebrados”. Na fotografia daquele linchamento que ilustra esta matéria, o olhar do público e a careta dos justiçados cruzam os séculos.

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