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Pacto com o Eurogrupo abre as primeiras fissuras no Governo grego

Bruxelas alerta que o sim à lista de reformas que a Grécia deve propor não é automático

Varoufakis e sua mulher chegam ao parlamento grego.
Varoufakis e sua mulher chegam ao parlamento grego. AP

Bruxelas recebeu hoje a primeira lista de reformas recém-esboçadas que deverão ser especificadas até o fim do dia 23 de fevereiro, segunda-feira. Mas, mesmo com imprecisões ou ambiguidades, para o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, provavelmente será mais fácil convencer seus sócios da zona do euro do que aplacar a tentativa de rebelião que eclodiu em seu partido. Cinco membros de destaque do Syriza criticaram diretamente o acordo firmado na sexta-feira com o Eurogrupo, instância que reúne ministros de Finanças e outras autoridades da zona do euro. Entre eles figuram dois nomes de peso, o de Panayotis Lafazanis, ministro da Reconstrução Produtiva, Meio Ambiente e Energia – um dos três superministros econômicos do Governo – e Manolis Glezos, eurodeputado e figura totêmica da esquerda.

Esperamos e estamos quase certos de que vamos conseguir um sim das instituições

Yanis Varoufakis

O ministro Lafazanis, que reiterou em várias ocasiões sua rejeição ideológica às privatizações – um ponto sobre o qual Atenas começou a relativizar – garantiu em uma entrevista a um jornal local: “Não podemos permitir que a vontade popular e o programa eleitoral sejam castigados; a troika e os resgates são passado e não é preciso reconstruí-los”.

Lafazanis é a nota dissonante do Executivo, mas, em comparação com o nonagenário Glezos, não foi tão longe. O homem que aos 18 anos tirou a bandeira nazista da Acrópole instou os simpatizantes do Syriza a se manifestarem sobre o pacto. “Mudar o nome ‘troika’ pelo de ‘instituições’; o de ‘memorando’ [resgate] por ‘acordo’ e o de ‘emprestadores’ por ‘sócios’ não muda nada”, disse Glezos, que também se desculpou “diante dos votantes do Syriza por ter participado dessa ilusão” de mudança. O Governo contestou em seguida com um comunicado segundo o qual o herói da resistência “deve estar mal informado quanto às difíceis negociações” em curso.

Lafazanis é o único representante da ala mais esquerdista do Syriza no Governo, mas há outros setores do partido, menos relevantes do que Lafazanis, que pedem a cabeça de Tsipras por “render-se” aos mandos europeus. A resistência já tinha ficado explícita esta semana na eleição do novo presidente da República, um posto representativo que costuma ser ocupado por um membro do partido de oposição.

Tsipras não conseguiu emplacar seu candidato, o conservador Dimitris Avramopoulos, atual responsável pela Imigração e ministro da Defesa de Antonis Samaras, devido à oposição interna. Por isso optou na última hora por outro membro da Nova Democracia, Prokopis Pavlopoulos, de perfil mais brando e a quem certas correntes da esquerda “agradecem” por não ter recorrido ao Exército em dezembro de 2008, quando era ministro do Interior e as ruas pegaram fogo em protesto contra o assassinato pela polícia do adolescente Alexis Grigoropoulos. Pavlopoulos foi eleito com 233 votos.

Enquanto isso, Bruxelas recebeu ontem uma primeira lista de reformas muito preliminar, um documento de apenas três páginas com ideias bem gerais. O Governo grego trabalha contra o relógio para apresentar a lista definitiva na segunda-feira. E a partir daí chegará a análise das três instituições antes conhecidas como troika (Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu), que os ministros das Finanças da zona do euro avaliarão na terça-feira por teleconferência. Ninguém espera um acidente depois do acordo de sexta-feira, cheio de concessões por parte da Grécia. Mas os europeus há dias estão deixando escapar que há um grave problema de confiança com relação ao Executivo de Tsipras, com feridas que só começaram a cicatrizar depois do pacto.

“A Grécia não deveria pensar que haverá uma aprovação automática de sua lista de reformas”, explicaram a este jornal fontes da Comissão, que adotou o papel de mediadora frente a um FMI e um BCE mais duros com a Grécia. “Sabemos das resistências lógicas dentro do Syriza, mas o cenário central é uma lista suficientemente ambiciosa para não haver problemas: o Governo grego tem total consciência da delicada situação econômica, fiscal e financeira do país”, explicaram as fontes.

Os europeus esperam uma relação muito focada nas reformas de natureza estrutural, sem números concretos no que tange a medidas de despesas e receita. A linha central das reformas será a luta contra a evasão fiscal, a corrupção e as reformas do setor público. Na sexta-feira o Governo deixou claro que não pensa em aumentar o imposto sobre vendas nem em reduzir aposentadorias para não prejudicar ainda mais a recuperação. E durante as duas últimas semanas flertou com a ideia de pactuar uma reforma trabalhista com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e um decálogo de medidas com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o think tank dos países desenvolvidos.

Não está claro que isso seja suficiente para quem provavelmente volta a tomar as rédeas do caso grego: o BCE retirou da Grécia a possibilidade de que seus bancos ganhem liquidez em Frankfurt em troca da venda de títulos da dívida pública grega e deixou claro que não sairá desse caminho enquanto não tiver certeza de que o programa financeiro da Grécia pode ter um bom resultado.

O setor bancário e uma péssima situação fiscal são os pontos mais frágeis da Grécia em curto prazo: depois de uma fuga de capitais sensacional desde a convocação das eleições, a deterioração do setor financeiro – e o medo de um pânico financeiro caso não se chegue a um acordo – foi o principal motivo do sim de Tsipras ao pacto na sexta-feira passada. A Grécia manterá sua orientação vermelha, insiste seu Governo, enquanto fontes do mercado asseguram que o dinheiro de Atenas acaba esta semana.

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