Tropicana, ‘mon amour’

O mítico cabaré de Havana viveu 20 anos de capitalismo e 55 de socialismo sem perder o passo

Fidel Castro cumprimenta dançarinas do Tropicana durante uma visita em 1986.
Fidel Castro cumprimenta dançarinas do Tropicana durante uma visita em 1986.barriopedro/millán (efe)

A revolução havia acabado de triunfar, o ditador Fulgêncio Batista havia caído, e o trovador Carlos Puebla cantarolava o refrão de uma canção que faria sucesso em Cuba nos anos sessenta: “acabou a diversão / chegou o comandante e mandou parar”. Naquele ambiente de júbilo da milícia e dos pistoleiros, os casinos de jogos foram os primeiros a desaparecer em janeiro de 1959, e o do Tropicana também. O interventor do cabaré chamava-se Rodobaldo, e quando ele tomou posse, estava vestido com um uniforme verde-oliva, uma roupa que se chocava com o espírito do lugar, onde já haviam atuado Nat King Cole, Josephine Baker, Carmem Miranda e a bailarina Tongolele.

Apoiados no bar, alguns frequentadores habituais do Tropicana falavam em sussurros, a uma distância prudente de Rodobaldo, sentados em um banquinho olhando para todos com cara de poucos amigos. Naquele momento, uma porta se abriu e entrou saltitando o pianista Felo Berganza.

– Siiiiim! O Fela chegou!

Conhecido pelos seus trejeitos e suas piadas, Berganza era um mulato simpático, com lábios grossos, que aparecia na metade do show, sob aplausos, tocando um piano com cauda branca. “Tatachán”, continuou com sua coreografia, brincando de mesa em mesa até cair ao lado de Rodobaldo. “Companheiro!”, exclamou o comissário insultado. Felito Berganza ergueu as sobrancelhas e exagerou ainda mais o gesto, entre gargalhadas gerais.

“Não me diga que você também é uma bicha”.

Uma atuação de Tropicana em 1956, ano em que Fidel Castro se alçou na Sierra Maestra
Uma atuação de Tropicana em 1956, ano em que Fidel Castro se alçou na Sierra Maestra (ap)

Com esta anedota – contada pelo músico Paquito D'Rivera em Minha vida saxual – terminaram os 20 anos de capitalismo do Tropicana e começou a larga travessia socialista de um dos cabarés mais famosos do mundo, de prestígio equiparável ao Moulin Rouge e o Lido de Paris, que este ano completa seu 75° aniversário.

Na realidade, seu primeiro nome foi Beau Site e seu promotor foi o empresário ítalo-brasileiro Víctor Correa, que inaugurou o cabaré na noite de 31 de dezembro de 1939 nos terrenos arrendados de Villa Mina, uma imponente propriedade suburbana na zona de Mariano, que possuía palmeiras fabulosas e grandes árvores tropicais. Correa estava casado com Teresa de España, artista de cuplé, e foi ela quem protagonizou o primeiro espetáculo, com o acompanhamento da orquestra de Alfredo Brito, autor das estrofes que um ano depois dariam nome ao cabaré – “Tropicana/ diosa de amor/ eres tú, mi bien/ la que inspiró mi canción” – e com as quais, desde então, todo espetáculo começaria.

A visita que realizou Felipe González à sala de festas com Fidel Castro , em 1986, deu muito que falar

Desde o começo, Tropicana foi um sucesso. A incrível vegetação tropical inserida no contexto arquitetônico do salão, aberto às estrelas, somava a beleza das suas bailarinas (“o melhor das mulatas cubanas”, segundo a imprensa da época) à qualidade da orquestra e dos shows. Em abril de 1941, Congo Pantera estreou e, a partir deste momento, sua consagração foi absoluta. O show evocava a caça de uma pantera nas selvas africanas e a coreografia era de David Lichine, dos famosos balés russos de Montecarlo. Durante o espetáculo, os bailarinos surgiam de dentro de uma folhagem iluminada, e a pantera – a bailarina russa Tatiana Leskova – descia ao cenário de uma árvore, perseguida pelo caçador-percussionista Chano Pozo, que depois daria forma ao jazz afro-cubano com Dizzy Gillespie. Para o horror do Colégio de Belém, nas redondezas, que pressionou para o cabaré ser fechado, o Tropicana converteu-se durante três meses em uma selva com Chano e Mongo Santamaría fazendo soar seus tambores pelas árvores.

Nos anos seguintes, não demorou para o lugar contar com a arte de Xavier Xuat ou dos Chavales de España, por exemplo, enquanto o público continha o creme da burguesia crioula e também do turismo norte-americano, inclusive do mafioso Lucky Luciano, que viveu em Havana entre 1946 e 1947, até que foi descoberto e deportado.

A dançarina Tongolele
A dançarina Tongolele

Desde o início, o Tropicana esteve vinculado ao negócio do jogo, primeiro de forma tímida, depois amplamente, quando o cassino e o cabaré passaram ao comando de Martin Fox, dos campos de Cuba, no final dos anos quarenta. Fox contratou o arquiteto Max Borges para remodelar as instalações, pôs a famosa aranha do cenário e mandou colocar na entrada a Fonte das Ninfas, até hoje a imagem do Tropicana junto com a escultura de uma bailarina de balé clássico, obra de Rita Longa. Também introduziu uma segunda orquestra, a de Armando Roemu, que trabalhou com Bebo Valdés como pianista, em 1948, naquela grande banda luxuosa que chegou a ter cinco saxofones, quatro trompetas e três trombones.

Em 1952, ano do golpe de Estado de Batista, apareceu o coreógrafo Roderico Neyra, Rodney, que revolucionou o show com apresentações arrebatadoras como Omelen Ko, A viúva alegre, Primavera em Roma ou Casa de chá. Foi a época dourada do Tropicana, quando Nat King Cole, Pedro Vargas, Sarah Vaughan e artistas cubanos como Celia Cruz, Omara Portuondo, Benny Moré e Bola de Nieve passaram pelo seu cenário. Spencer Tracy, Ava Gardner e Errol Flyn foram alguns dos que desfrutaram de seus shows naquela época, quando as roletas giravam sem parar até que chegou o comandante e mandou tudo parar.

Felipe González durante sua visita no Tropicana em 1986
Felipe González durante sua visita no Tropicana em 1986 (efe)

Em 1959, o cassino foi fechado e o cabaré passou às mãos do governo revolucionário, que o manteve funcionando. O Tropicana continuou criando apresentações de qualidade, mas o turismo norte-americano foi substituído por viajantes russos, que chegavam calçados com sandálias toscas e meias brancas. Nos anos oitenta, a saudação inicial do Tropicana era feita em russo, inglês e espanhol:

– O coletivo Tropicana os saúda e vos dá as boas-vindas...

Naquela época, as vestimentas de muitas bailarinas estavam rasgadas, algo que o ex-premiê espanhol Felipe González notou quando visitou Cuba em 1986 e assistiu ao espetáculo com Fidel. O próprio Castro recordaria depois que, sempre que a direita queria criticar González, publicava a foto do ex-presidente rodeado de mulatas sob o título “Comemorando com o ditador”.

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Tropicana viveu todas as fases da revolução, a invasão da Bahia dos Porcos, a Crise dos Mísseis, o êxodo de Mariel e a queda do campo socialista, e quando as coisas ficaram críticas, o cabaré também deu um passo à frente. Nos anos noventa, o Governo pediu a criação de Destacamentos de Resposta Rápida (sic) em todos os centros de trabalho, para reagir rapidamente às manifestações “contrarrevolucionárias”. “Isso também foi criado no Tropicana, mas a verdade é que alguns tinham a vontade de pregar pequenas peças desprezíveis para que aquelas mulatas caíssem em cima", brincou um músico da época.

Por sorte, o cabaré sobreviveu tanto à crise quanto à ideologia, e hoje os espetáculos que oferece, com suas 50 bailarinas, 40 modelos, 11 cantores e 25 músicos, continuam sendo referências mundiais. Por volta de 150.000 turistas visitam o Tropicana todos os anos, mas agora seus gerentes esperam que os norte-americanos retornem, se as tensões com os Estados Unidos forem reduzidas, e as relações, restabelecidas. O espírito de Nat King Cole retorna, enquanto o do “coletivo Tropicana” desapareceu. Opa, não vamos em direção a mais socialismo.

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