Crise hídrica em São Paulo

“A vida na roça era difícil, mas tínhamos a água dos rios para beber”

Nilson, ex-agricultor hoje na zona norte de São Paulo, enfrenta horas sem fornecimento

Nilson Alcides e a filha Raquel em frente à casa da família.
Nilson Alcides e a filha Raquel em frente à casa da família.G. A.

Nilson Alcides, 44, catador de materiais recicláveis, observa da porta de seu barraco os carros passando na rua enquanto se lembra de dias melhores. “Quando eu trabalhava na roça lá em Tocantins, Minas Gerais, só ouvia falar coisa boa de São Paulo. Mas descobri que era só fantasia. Lá era uma vida muito sofrida, principalmente na lavoura de cana, mas pelo menos a gente tinha rios onde podia ir buscar água. Cansei de ir até o córrego levando lata de água na cabeça para matar a sede. Aqui os rios estão todos sujos”, lamenta.

Atualmente Alcides enfrenta a pior crise hídrica em 84 anos em São Paulo ao lado da mulher e dos quatro filhos – com idade entre 7 e 9 anos. Dois deles são portadores de necessidades especiais e precisam de cuidados constantes, inclusive para tomar banho. Eles dividem um barraco com os fundos de alvenaria e fachada de madeira de oito metros quadrados na Vila João, periferia da zona norte de São Paulo.

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A falta de água trouxe novidades difíceis para o cotidiano já duro do ex-agricultor: “Até o mês passado eu nunca tinha tomado banho de cuia na vida, nem na roça”, afirma. “E agora essa é a rotina de todos aqui em casa. Na semana passada coloquei o arroz na panela e quando fui ver não tinha água para cozinhar. Tive que pedir emprestada no posto de gasolina no final da rua, levei uma garrafa de refrigerante e eles me deixaram encher.”

A solidariedade entre os vizinhos, aliás, ajuda a garantir a sobrevivência das nove famílias que ocupam o terreno onde antes ficava um lixão, já que há apenas uma caixa de água no local. “Aqui é tudo na base da amizade”, explica o catador. “Se não for assim, estamos perdidos. Ninguém tem dinheiro para comprar galão de água mineral aqui na vila”.

A conta de água, que está no nome de Alcides, fica em torno de 400 reais. "O pior de tudo é que nós pagamos caro e ainda ficamos sem", afirma. Atualmente o fornecimento de água no local vai das 20h até as 7h, mas os moradores afirmam que a pressão nas tubulações é insuficiente para encher completamente a caixa de água durante o período. "E já aconteceu de ficarmos um dia inteiro sem nenhuma gota".

Os negócios também já estiveram melhores para o ex-agricultor. Segundo ele, com a falta de água as pessoas pararam de jogar fora vasilhames de plástico e garrafas para poder armazenar água, o que prejudicou sua coleta de materiais recicláveis. Sua esposa, Cleonice, 43, cuida dos filhos em casa e não tem fonte de renda. Atualmente, o catador diz depender do benefício que recebe pela deficiência dos filhos para conseguir sobreviver.

Como se não bastasse, o dono do terreno onde os barracos foram construídos conseguiu na Justiça a reintegração de posse do local. “A situação aqui está tão crítica que fica até difícil se preocupar com a falta de água quando sua família está prestes a perder o teto”, desabafa. "É tanto problema junto...".

Para piorar ainda mais a situação, a diretoria da escola onde seus filhos estudam pediu que os pais passassem a colocar uma garrafa cheia de água na mochila das crianças. “Os bebedouros estão secos e não tem água para dar descarga”, diz Mateus, 9, primogênito de Alcides. "Era só o que faltava", lamenta o catador.