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Crise da água dará tom ‘popular’ a restaurante de luxo em São Paulo

Restaurante francês servirá em breve refeições e vinhos em pratos e copos descartáveis

O maître Carlos Alberto com o material descartável.
O maître Carlos Alberto com o material descartável.

O terrine de foie gras é uma das comidas mais tradicionais e caras da culinária francesa – o quilo do fígado de ganso pode chegar a 250 reais. Mas a crise hídrica que atinge o Estado de São Paulo está prestes a dar um toque popular à iguaria. Por 83 reais o cliente do restaurante francês La Casserole, na região central de São Paulo, pode degustar este prato como uma entrada. Mas se o rodízio de água for implementado, é provável que ele seja servido em um prato descartável de plástico de um real.

Além da louça de porcelana branca, os talheres da linha inox luxo e as taças de semi-cristal do restaurante devem dar lugar em breve a seus equivalentes menos nobres – o kit completo de plástico custa 4 reais. A estreia, no entanto, ainda não tem data para acontecer: “Quando eu tiver que escolher entre manter o padrão de higiene e limpeza do restaurante e a lavagem da louça, quando a água não der para as duas coisas, será o momento de começar a usar os talheres de plástico”, afirma Marie-France Henry, uma das donas do restaurante, fundado por seus pais em 1954.

“Quando a questão da água se agravou, pensamos que com esse material poderíamos reduzir o consumo e ao mesmo tempo manter a qualidade de um bom serviço, com um material que fosse reciclável”, diz Marie, que explicará aos clientes o motivo da mudança e introduzir os kits plásticos gradativamente. “Recentemente mostrei os pratos e talheres para alguns clientes, perguntei o que eles achavam, e as reações foram positivas. ‘Não parece que é reciclável’, me disseram”.

O fornecimento de água do restaurante está restrito ao período das 8h às 14h. “No momento ainda estamos nos virando bem. No ano passado ampliamos nossa capacidade de estocagem de água de 7.000 para 14.000 litros, o que nos dá uma autonomia para uns dois dias sem fornecimento. Mas dependendo do modelo de rodízio adotado [a Sabesp já cogitou cinco dias sem água para dois com], vamos ter que usar o material de plástico.

Segundo ela, existe uma cultura de pensar que o material reciclável “é de baixa qualidade”, mas os pratos e talheres recicláveis comprados pelo Casserole de uma empresa do Rio Grande do Sul são “de um bom material”. Os talheres apresentam um brilho prateado, que simula o do metal, e as taças são de plástico transparente mais espesso do que os copos descartáveis comuns.

Os que insistirem em comer em pratos de porcelana, no entanto, serão atendidos: “é direito deles. Mas queremos estimular as pessoas a refletirem e a abrir mão de padrões. É como se você estivesse numa situação de guerra. Numa situação de guerra o que você faz? Vai fazer questão de tomar seu café em uma xícara de porcelana chique? Meu feeling é de que haja compreensão, na medida em que todos estamos sendo afetados pela crise”, explica.

O destino do material plástico, no entanto, preocupa Henry. “Não adianta economizar na lavagem de louça e durante o processo de reciclagem dos pratos seja gasta uma quantidade grande de água. Ainda quero conversar com a empresa de coleta seletiva que atende nossa região para ver como isso é feito”, afirma.

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