Crise na Ucrânia

Cessar-fogo entra em vigor na Ucrânia após um dia de combates intensos

Dois idosos morrem vítimas de bombardeio de artilharia na região de Lugansk

Poroshenko ordena o cessar-fogo às suas tropas.
Poroshenko ordena o cessar-fogo às suas tropas.VALENTYN OGIRENKO (REUTERS)

O cessar-fogo entre as forças governamentais e os separatistas pró-russos do leste da Ucrânia entrou em vigor à 0h deste domingo (20h de sábado em Brasília). Testemunhas citadas pela agência Reuters informaram que os bombardeios sobre a cidade de Donetsk cessaram subitamente nesse horário, mas que algumas hostilidades persistiam em outras áreas.

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Em Popasnoe, na região de Lugansk, dois idosos, de 69 e 87 anos, morreram meia hora depois do início da trégua, quando sua casa foi atingida por um bombardeio de artilharia, segundo relato do chefe da administração regional leal a Kiev. Os disparos de artilharia prosseguiam pela manhã nessa região, de acordo com essa fonte.

O chanceler francês, Laurent Fabius, afirmou neste domingo que “em termos globais” a trégua está sendo respeitada na Ucrânia, mas admitiu que “a situação é frágil” e que “houve alguns ataques isolados”.

Minutos antes da meia-noite, em discurso pela televisão, o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, ordenou a seus soldados que suspendessem os confrontos. Poroshenko estava fardado como militar, por ser o comandante supremo das Forças Armadas, e acompanhado do chefe do Estado-Maior ucraniano. “Quero a paz e, como comandante supremo, ordeno às Forças Armadas da Ucrânia e às unidades da Guarda Nacional, do Ministério do Interior e do Serviço de Segurança um cessar-fogo a partir de 0h de 15 de fevereiro”, afirmou. “Se nos derem um tapa numa face, não ofereceremos a outra”, advertiu o presidente, alertando, por outro lado, que a trégua será necessária “não só para a Ucrânia, mas para todo o mundo”. Os combates no leste da Ucrânia continuaram durante todo o sábado, até a entrada em vigor do cessar-fogo decidido na quinta-feira numa reunião de cúpula em Minsk, com a participação dos líderes da Alemanha, França, Rússia e Ucrânia.

A interrupção das hostilidades é o primeiro dos 13 pontos do plano de paz para solucionar o conflito nas regiões de Donetsk e Lugansk, que desde seu início, em abril do ano passado, já deixou 6.000 mortos, entre combatentes e civis.

Um dia de combates

Pelo menos 18 civis morreram na região nas horas prévias ao cessar-fogo, segundo os dados fornecidos por militares ucranianos e os separatistas pró-russos. Os dois lados pretendiam melhorar suas posições antes do início da trégua, e por isso os combates se intensificaram.

Poroshenko havia observado que a intensificação dos ataques separatistas punha em risco o pacto de cessar-fogo obtido durante a semana na capital bielorrussa. “Infelizmente, após os acordos do Minsk a operação ofensiva da Rússia aumentou significativamente. Os acordos de Minsk estão em grave perigo”, afirmou o presidente a jornalistas após receber uma visita do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban. Na tarde de sábado, o mandatário ucraniano conversou por telefone sobre a situação no leste do país com os dois articulares do acordo – o presidente francês, François Hollande, e a chanceler (primeira-ministra) alemã, Angela Merkel – e com o presidente dos EUA Barack Obama.

O Governo ucraniano diz que pelo menos 14 pessoas morreram nas últimas horas por causa de disparos de artilharia feitos pelos rebeldes. Seis mortes ocorreram na localidade de Schastie (“felicidade”, em idioma local) e cinco em Gorniak (“mineiro”); as outras três vítimas eram de Artiomonsk, segundo o comunicado militar.

O Ministério de Defesa da autoproclamada República Popular de Donetsk relatou, por sua vez, a morte de quatro civis. Segundo Eduard Basurin, vice-comandante das forças separatistas, o Exército ucraniano lançou 71 ataques de artilharia contra várias cidades e posições dos rebeldes, sendo 12 deles durante a noite de sexta-feira para sábado. Os projéteis, segundo Basurin, causaram danos também na infraestrutura de Donetsk, especialmente numa indústria química e na rede de gasodutos.

Na frente de combate, os combates se concentravam na região de Debaltsevo, onde os separatistas asseguram ter cercado 6.000 soldados ucranianos. Kiev admitiu ter sofrido ataques contra suas posições nessa cidade estratégica, mas nega que suas forças estejam sitiadas. A importância de Debaltsevo se deve à sua localização, a meio caminho entre Donetsk e Lugansk, os dois redutos rebeldes.

Basurin, por sua vez, disse que as tropas governamentais continuavam tentando sem sucesso romper o cerco, tanto a partir de dentro da cidade como por fora. Ele afirmou que os rebeldes não permitirão a saída dos soldados do Governo depois do início do cessar-fogo, a não ser que os militares deponham suas armas.

“Provavelmente morrerão de fome. Não vamos atacá-los, mas tampouco os deixaremos que saiam do cerco”, declarou. Enquanto isso, um militar ucraniano informou que os bombardeios da artilharia separatista haviam causado incêndios na cidade e que pelo menos sete soldados morreram e mais de vinte ficaram feridos. Kiev voltou a acusar os russos de estarem participando diretamente nos combates de Debaltsevo, algo que Moscou nega categoricamente.

Além da luta por Debaltsevo, os ucranianos denunciaram ataques rebeldes perto de Mariupol, a segunda cidade mais importante da província de Donetsk, sob controle de Kiev. Houve intensos combates na aldeia de Shirokino, que, conforme autoridades ucranianas, ficou virtualmente em ruínas por causa da ofensiva separatista contra as posições do batalhão de voluntários Azov.

Em Donetsk, o Parlamento local começou a aprovar as medidas necessárias para cumprir os acordos de Minsk. Denis Pushilin, vice-presidente do Legislativo rebelde e representante dos separatistas nas negociações, assegurou aos deputados locais que tanto a Rússia como os mediadores europeus – Alemanha e França –deram garantias de que a Ucrânia cumprirá “seus compromissos”.