Segurança

Estados Unidos aplicam o modelo antiterrorista à cibersegurança

Centro contra ataques informáticos se inspira em agência criada depois de 11 de setembro

Sede do centro de cibersegurança do Departamento de Segurança Interna.
Sede do centro de cibersegurança do Departamento de Segurança Interna. (Reuters)

Em um reflexo da crescente preocupação pela cibersegurança, o Governo dos Estados Unidos anunciou na última terça-feira a criação de uma agência que, inspirada na luta antiterrorista, coordenará as atuações no caso de um ataque cibernético. A decisão também coloca em evidência como a proteção da Internet está entre os grandes debates políticos no país depois de vários ataques recentes, sendo o mais significativo o que ocorreu em dezembro contra a multinacional Sony. A Casa Branca colocou este assunto como prioridade em sua nova estratégia de segurança nacional e, nesta sexta-feira, o presidente Barack Obama realizará um encontro com especialistas cibernéticos na Universidade de Stanford.

“A ameaça é mais diversificada, sofisticada e perigosa”, advertiu a assessora de segurança nacional e para a luta antiterrorista da Casa Branca, Lisa Monaco, no ato de apresentação da nova agência no Wilson Center, um laboratório de ideia em Washington. Monaco alertou que ataques como o da Sony – que os EUA atribuem à Coreia do Norte – vão se transformar na “norma” se o governo não se adaptar “rapidamente”.

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A nova agência, denominada Centro de Integração de Inteligência contra a Ameaça Cibernética (CTIIC, pela sigla em inglês), vai reunir informações de inteligência de vários departamentos governamentais, que trabalham separadamente. “Precisamos compartilhar mais as informações e coordenar as ações. Podemos avaliar melhor as ameaças que se movem rapidamente”, afirmou a assessora da Casa Branca.

A nova agência vai reunir as informações de inteligência entre vários departamentos governamentais dos EUA, que trabalham separadamente

O CTIIC tenta copiar o modelo do Centro Nacional de Contraterrorismo, criado depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 por causa das críticas de que o Governo não compartilhou adequadamente informações de inteligência que poderiam ter evitado os ataques terroristas. Monaco admitiu diferenças entre a luta contra o terrorismo e a pirataria informática, mas considerou que as mudanças “estruturais, organizativas e culturais” aplicada no primeiro setor podem ser úteis no segundo.

A criação do CTIIC recebeu algumas críticas – entre outras de Melissa Hathaway, a primeira coordenadora de cibersegurança do Governo Obama – que afirmam que o centro pode ser desnecessário por já existirem outros organismos oficiais – como o FBI, a NSA e o Departamento de Segurança Interna – dedicados a analisar ameaças de cibersegurança. “Servirá para tapar um buraco crucial”, defendeu Monaco, assegurando que o centro de contraterrorismo não minou as responsabilidades de outras agências.

O contexto pressiona. As ciberameaças contra os EUA cresceram “em frequência, escala e sofisticação”, sublinhou a assessora de Obama. Entre os países com “capacidade” para realizar ataques, mencionou Rússia, China, Irã e Coreia do Norte. Além da Sony, as incursões também afetaram nos últimos meses outras grandes empresas, como Target, Home Depot e JPMorgan; além do próprio Governo: a conta de Twitter do Comando Central do Exército foi pirateada em janeiro pelo chamado Cibercalifado do grupo jihadista Estado Islâmico (EI).

A conta de Twitter da revista Newsweek sofre um ataque dos mesmos simpatizantes do Estado Islâmico que se infiltraram na conta do Exército

O ataque contra o Twitter do Exército coincidiu com o anúncio do presidente Obama de uma proposta de lei que concederia proteção legal às empresas que fornecerem informações ao Governo sobre ameaças informáticas e dotaria a Justiça com mais poderes para investigar e perseguir os autores de ataques e a compra e venda de informações roubadas de empresas e particulares. A iniciativa é muito similar a outra apresentada em 2011 e que não foi aprovada pelo Congresso.

E justamente na terça-feira, pouco antes da apresentação da nova agência de cibersegurança, a conta de Twitter da revista Newsweek foi pirateada durante alguns minutos pelo chamado Cibercalifado. O grupo citou uma “ciberjihad” contra os EUA e desejou à primeira-dama, Michelle Obama, “um Dia de São Valentim (o dia dos namorados nos EUA) sangrento”. “Estamos vigiando você, suas filhas e seu marido”, estava escrito no tuíte. O FBI investiga o ataque informático e as ameaças contra a família presidencial.

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