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União Europeia se propõe a dissolver a troika como concessão à Grécia

A Comissão Europeia oferecerá a Tsipras facilidades no pagamento da dívida

O novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras (direita) e o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, em Atena.
O novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras (direita) e o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, em Atena. EFE

O braço Executivo da União Europeia se propõe a desmontar a troika —o trio formado por Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Central Europeu (BCE)— como uma concessão ao novo Governo da Grécia, se este aceitar cumprir seus compromissos, segundo confirmaram no domingo fontes conhecedoras da deliberação consultadas pelo EL PAÍS. 

Bruxelas busca um acordo para conciliar as demandas do novo Governo grego e as exigências dos sócios do euro. A Comissão Europeia descarta o perdão para a Grécia, algo que ninguém apoia na Europa, mas afirma que a reestruturação da dívida —ampliação de prazos e redução de juros— está na mesa, segundo as fontes consultadas por este jornal.

E, desde que Atenas cumpra escrupulosamente seus compromissos, o braço Executivo da UE se propõe a dissolver de uma vez por todas a troika, o trio formado por Comissão, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu, segundo confirmaram as mesmas fontes. O fim da troika, símbolo da austeridade aplicada ao país nos últimos cinco anos, virá se a Grécia e os credores chegarem a um acordo e conseguirem contemplar sem acidentes o passo seguinte do resgate, que expira em fevereiro: uma linha de crédito preventiva, o chamado resgate suave que ninguém ainda solicitou e que dá margem para acabar com essa estranha aliança entre Europa e FMI sem provocar uma ruptura. Com essa linha de ajuda, os inspetores europeus e os do Fundo deixariam de estar juntos para garantir que a Grécia está cumprindo as condições do resgate.

A Comissão tem consciência de que essas duas concessões (econômica, no caso da dívida, e um sinal político de grande magnitude no que tange à ruptura da troika) dependem da negociação que começa esta semana, com uma sucessão de reuniões do primeiro-ministro, Alexis Tsipras, e do ministro das Finanças, Yanis Varufakis, em Paris, Londres, Roma e Bruxelas. Tsipras deve mover as peças primeiro. Em função de sua abertura, Bruxelas colocará na mesa “um acordo global” para evitar acidentes financeiros, que podem chegar tanto se Atenas tensionar demais a corda como se os sócios do euro não fizerem concessões suficientes diante da dimensão política da vitória do Syriza.

Depois de uma primeira semana turbulenta, a Grécia enfrenta outra, fundamental. Atenas surpreendeu os sócios europeus na sexta-feira ao garantir que não quer uma extensão do resgate atual, algo que pode deixar seus bancos sem a liquidez imprescindível do BCE. Consciente da delicada situação, Tsipras usou um tom mais conciliador no sábado, e garantiu que pagará os empréstimos do BCE e do FMI e que buscará um pacto com as autoridades europeias antes de 28 de fevereiro, data em que vence o resgate. Apesar de essas manobras terem encontrado amplo eco, Bruxelas considera que o verdadeiro baile começa agora. A Comissão é partidária de uma extensão do programa atual, diante das necessidades do Estado grego —que não consegue arcar com os 10 bilhões de vencimentos até o verão— e os potenciais problemas de seus bancos. “Mas até mesmo se essa extensão não chegar, é possível conseguir um acordo global que inclua no terceiro resgate —ou seja, nessa linha de crédito preventiva que funciona como um seguro europeu, caso a Grécia seja incapaz de financiar-se sozinha— as condições que não foram cumpridas no programa atual”. “É preciso buscar um acordo, político, para um problema que continua sendo econômico e financeiro, mas que é eminentemente político”, explicam fontes do Eurogrupo.

O fim da troika, símbolo da austeridade aplicada ao país nos últimos cinco anos, virá se a Grécia e os credores chegarem a um acordo

Tsipras tem de esclarecer o que quer. E tem de convencer seu próprio Parlamento no próximo fim de semana, com um programa factível que não lhe cause uma contestação aberta em suas próprias fileiras ou um sonoro não dos credores. Seu pedido de perdão da dívida será negado; em troca, a Comissão sondou vários Governos para propor um cenário alternativo: um alívio da dívida por meio da ampliação de prazos e uma pequena redução de juros, fruto de um acordo do Eurogrupo em novembro de 2012, que servirá de guia. Isso pode ser feito sem perdas para os credores e dará à Grécia uma margem para cumprir parte de seu programa social. Desde que Atenas não fuja do roteiro, Bruxelas proporá romper a troika, “encontrar uma forma de europeus e FMI abordarem a Grécia em separado”. “Esse seria um sinal político importante para Tsipras que não custa nenhum euro”, afirmam as fontes da Comunidade.

Assim, a Comissão encontra na Grécia a desculpa perfeita para acabar com esse trio, uma ideia que vem sendo gestada há tempos tanto nos gabinetes de Bruxelas como nos quartéis do FMI em Washington. A desintegração da troika permitiria a Tsipras demarcar uma linha em relação a seu antecessor, o conservador Antonis Samaras. Permitiria ao Fundo concentrar-se em seus objetivos —a sustentabilidade da dívida, em 175% do PIB— e que os europeus se concentrassem no foco nas reformas. E é uma opção factível se esse acordo geral supuser chegar a um acordo quanto à linha de crédito preventiva citada.

Se tudo sair bem, além disso, o BCE abandonará automaticamente a Grécia: se Frankfurt comprar bônus gregos no programa de compra da dívida em grande escala que acaba de anunciar, deve sair da troika. Frankfurt tomará essa decisão em julho. Mas o fim da troika pode chegar antes se Bruxelas conseguir convencer os sócios de que é uma opção favorável para todos. A Comissão adotou na semana passada uma posição caracteristicamente discreta; foi o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que se expôs com uma viagem polêmica e desnecessária à Grécia. A Comissão —e vários Governos do euro— considerava prematura essa visita e preferiu ganhar tempo. Mas não resta muito. Atenas sabe que está nas mãos do BCE, que financia seus bancos, e que está condenada a entender-se com os sócios do euro. “Vários países não veem com simpatia as concessões, então o normal é que haja confusão até o último dia. Quanto à Grécia, porém, tão importante quanto a sustentabilidade econômica é a sustentabilidade política”, afirmou um ministro do Eurogrupo.

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