Castro pede a Obama que compense os “prejuízos humanos” do embargo

O líder cubano expressa suas exigências para normalizar relações com os EUA

O líder cubano durante a cúpula da CELAC em Costa Rica.
O líder cubano durante a cúpula da CELAC em Costa Rica. (REUTERS)

O presidente de Cuba, Raúl Castro, aproveitou seu discurso no primeiro dia do encontro da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), nesta quarta-feira, na Costa Rica, para repudiar o embargo comercial e financeiro vigente por parte dos Estados Unidos, apesar da nova etapa de diálogo bilateral anunciada no dia 17 de dezembro com o presidente Barack Obama.

“Não será possível (a normalização das relações bilaterais) enquanto existir o bloqueio, enquanto não devolverem o terreno ocupado ilegalmente pela base naval de Guantánamo, não terminarem as transmissões radiais e televisivas violadoras das normas internacionais, não for feita uma justa compensação a nosso povo pelos prejuízos humanos e econômicos sofridos”, declarou Castro para a maioria dos governantes dos 33 países membros da CELAC.

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O líder cubano reconheceu a disposição de Obama de avançar no sentido do restabelecimento das relações diplomáticas depois de mais de meio século de hostilidades, mas afirmou que “o problema principal não foi resolvido”. “O bloqueio econômico, comercial e financeiro, que provoca enormes prejuízos humanos e econômicos, além de ser uma violação ao Direito Internacional, deve terminar”, reafirmou depois de agradecer os demais mandatários pelo apoio no repúdio regional ao embargo. Castro foi o primeiro presidente a chegar à Cúpula, ao meio-dia da terça e nesta quarta-feira foi um dos primeiros a falar com o foco nas relações com os EUA: “Não seria ético, justo nem aceitável que se pedisse algo a Cuba em troca. Se estes problemas não se resolverem, a aproximação diplomática entre Cuba e Estados Unidos não faria sentido.”

A presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, também manifestou apoio ao fim do embargo econômico, durante seu discurso na cúpula. Ela, contudo, aproveitou para elogiar Castro e Obama pelo esforço de ambos na reaproximação entre os dois países.

“Os dois Chefes de Estado merecem nosso reconhecimento pela decisão que tomaram – benéfica para cubanos e norte-americanos, mas, sobretudo, benéfica para todos os cidadãos do continente. Não podemos esquecer, todavia, de que o embargo econômico, financeiro e comercial dos Estados Unidos a Cuba ainda continua em vigor. Essa medida coercitiva, sem amparo no Direito Internacional, que afeta o bem-estar do povo cubano e prejudica o desenvolvimento do país deve, tenho certeza, do ponto de vista de todos os países aqui representados, ser superada”, afirmou Dilma. 

A cúpula se colocou o desafio de atacar a pobreza extrema que afeta 12% da região onde vivem 600 milhões de pessoas. Um objetivo concreto que sairia desta cúpula poderia ser a redução desta porcentagem pela metade, assegurou Manuel González, chanceler da Costa Rica, que entrega ao Equador a presidência pro tempore da CELAC. O presidente anfitrião, Luis Guillermo Solís, deu a bem-vinda em quatro idiomas como um exemplo da diversidade que existe na CELAC e das diferenças convertidas em dificuldades na hora de tomar decisões consensuais, concretas e práticas. A Costa Rica propôs abordar a luta contra a pobreza extrema a partir de um enfoque mais amplo, atacando também a corrupção.

O problema que une a região é a desaceleração das economias que cresceram apenas 1,1%, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). É a taxa mais baixa desde 2009, condicionada pela situação do Brasil, Argentina, México e Venezuela. A média de crescimento das economias é de 2,8%, similar à de 2013, enquanto a geração de emprego também perdeu o dinamismo dos últimos cinco anos.

O tema central, no entanto, não supera em expectativas o assunto cubano. Este é o primeiro encontro multilateral de Raúl Castro desde 17 de dezembro e espera-se que a CELAC apoie a nova etapa diplomática com os Estados Unidos e o chamado ao fim do embargo, como pediu Obama a seu Congresso no discurso sobre o Estado da União, há uma semana. O pedido tem opositores em Washington. Castro afirmou que Obama “poderia utilizar com determinação suas amplas faculdades executivas para modificar substancialmente a aplicação do bloqueio, sem a decisão do Congresso.”

Castro disse que seu país e os Estados Unidos devem “aprender a arte da convivência civilizada”, mas no parágrafo seguinte assegurou que Cuba não cederá em suas posições sobre os assuntos internos: “Não deixaremos que nos provoquem, mas tampouco aceitaremos nenhuma pretensão de aconselhar nem pressionar e m matéria de assuntos internos. Ganhamos este direito soberano com grandes sacrifícios e ao preço de muitos riscos.”

Na quinta-feira os presidentes emitirão uma declaração conjunta contra o embargo, segundo fontes internas da Cúpula realizada em um recinto privado da cidade de Belén, a 15 quilômetros da capital da Costa Rica.

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