Caso Petrobras

O ‘annus horribilis’ da Petrobras não termina

Estatal, que vale 40% a menos na Bolsa, acumulou graves danos à imagem em 2014

Bacia de Pelotas (RS), prevista para leilão de exploração em 2015.
Bacia de Pelotas (RS), prevista para leilão de exploração em 2015.

Os altos executivos da Petrobras estão prometendo há alguns meses uma nova maneira de fazer as coisas, mas não devem confiar que a mudança do ano traga alívio a suas angústias. O colossal caso de corrupção que atinge a maior empresa do Brasil e até envergonha muitos de seus 80.000 funcionários leva a uma situação complicada: sem ser capaz de apresentar balanços sem auditar, tendo perdido quase 40% de seu valor na Bolsa este ano e em meio a um cenário internacional de queda do preço do barril de petróleo, os danos à sua imagem são irreversíveis no curto prazo.

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A presidenta da empresa, Graça Foster, colocou este mês seu cargo à disposição da presidenta da República, Dilma Rousseff (ex-presidenta do Conselho de Administração da empresa), que a manteve no cargo; são esperados, no entanto, mudanças no próprio Conselho de Administração. A determinação de Rousseff não foi afetada pela acusação pública de uma geóloga e ex-funcionária da empresa, Venina Velosa, que diz ter alertado Foster por e-mail em 2009 sobre a corrupção generalizada na empresa (Foster negou veementemente essa informação).

Não há dia em que as manchetes da imprensa não afundem um pouco mais a reputação de uma empresa que há apenas alguns anos tinha sido chamada para garantir “o futuro do país” com a descoberta de jazidas marinhas de pré-sal a 7 mil metros de profundidade. A empresa reagiu em outubro, com a contratação de dois escritórios de advocacia (um brasileiro, outro norte-americano) para impulsionar investigações independentes, com acesso teoricamente ilimitado a computadores e arquivos. A Securities and Exchange Commission (SEC), reguladora do mercado de ações dos EUA também investiga a petroleira por irregularidades e seu impacto sobre o preço das ações.

Os últimos dias do ano foram marcados pela criação de uma nova direção de Governança que será responsável por fazer cumprir a lei e, acima de tudo, pelo congelamento de pagamentos e novos contratos com 23 empreiteiras envolvidas na trama: entre elas estão incluídas as ‘gigantes’ da construção Odebrecht SA, Camargo Correa e Andrade Gutierrez, assim como o grupo ítalo-argentino Techint e a empresa sueca Skanska AB. Completam a lista Alusa, Carioca Engenharia, Construcap, Egesa, Engevix, Fidens, Galvão Engenharia, GDK, IESA, Jaraguá Equipamentos, Mendes Junior, MPE, OAS, Odebrecht, Promon, Queiroz Galvão, Setal, Tomé Engenharia e UTC. A medida audaz vai forçar a Petrobras a buscar novos sócios para seu ambicioso plano quinquenal de investimentos (221 bilhões de dólares, 600 bilhões de reais), destinados a explorar as grandes jazidas descobertas em 2006.

A Polícia Federal, impulsionadora da Operação Lava Jato, e a Procuradoria da República estimam que o volume de dinheiro desviado e lavado em subornos e financiamentos irregulares de partidos políticos pode chegar a 4 bilhões de dólares (10,5 bilhões de reais) tornando-o de longe no maior caso de corrupção conhecido na história do Brasil. Pelo menos 39 pessoas, a maioria delas altos executivos das principais construtoras brasileiras, serão julgados a partir de fevereiro. Políticos relevantes de três partidos, incluindo o PT (no poder há 12 anos), estão implicados, mas até agora nenhum foi formalmente acusado pelo Ministério Público. O processamento formal será o próximo passo em um caso de repercussão ainda imprevisíveis.

“Com a adoção dessas medidas preventivas, a Petrobras busca proteger a empresa e seus sócios de perdas financeiras de difícil reparação e dos danos à sua imagem”, explicou a empresa em um comunicado esta semana sobre as suas últimas decisões. Os problemas, no entanto, continuam a se multiplicar. A estatal reconheceu que o fundo de pensão dos funcionários da empresa, Petros (o segundo maior do Brasil), com 24 milhões de dólares acumulados, também está sob suspeita. Para piorar a situação, o novo atraso na publicação de seu balanço do terceiro trimestre (cujo auditor, PricewaterhouseCoopers, recusou-se a validar em outubro), agora previsto para janeiro, poderia fazer com que a empresa seja declarada em default técnico parcial por uma ação dos detentores de seus bônus nos Estados Unidos, segundo informou a Reuters. A agência de qualificação financeira Moody’s colocou em revisão para possível rebaixamento, a nota da dívida da Petrobras.

No final de 2014, a Petrobras caiu da segunda para a quarta posição na lista de empresas brasileiras com maior valor de mercado, depois de perder mais de 80 bilhões de reais (30 bilhões de dólares) este ano: um reflexo da queda de cerca de 40% no preço nominal de suas ações, arrastadas pelas contínuas denúncias de corrupção e a queda do preço do petróleo. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regula o mercado de capitais no Brasil, anunciou esta semana que abriu a primeira investigação oficial contra a Petrobras. A situação da empresa é tão complicada que algumas fontes citadas por InfoMoney indicam que a petroleira poderia paralisar alguns projetos e demitir até 10.000 trabalhadores. Seu peso na economia nacional é tão relevante que muitos políticos e empresários prendem a respiração enquanto esperam que o castigo das construtoras acusadas não paralise as obras em andamento e desacelere ainda mais, se for possível, o crescimento da sexta economia mundial.