Reforma ministerial

Atletas se dizem “envergonhados” com o novo ministro do Esporte

Pouca afinidade do deputado George Hilton (PRB-MG) com a pasta que assumirá e caso polêmico em seu currículo geram reações da base governista e do setor esportivo

Futuro Ministro do Esporte, George Hilton
Futuro Ministro do Esporte, George HiltonZeca Ribeiro (Câmara dos Deputados)

O novo ministério de Dilma Rousseff ainda não foi empossado mas alguns nomes já confirmados estão gerando fortes reações, como é o caso do novo ministro dos Esportes, George Hilton. Mineiro, deputado pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB), e pastor evangélico, Hilton chama a atenção pela pouca afinidade com a pasta que assumirá, e ainda, por uma passagem obscura no seu currículo. Em 2005, o pastor da Igreja Universal foi flagrado e detido pela Polícia Federal no aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, com 11 caixas com cheques e notas, num total de 600.000 reais, mas depois foi liberado. O deputado foi expulso do PFL, que era seu partido na época, apesar de ter justificado que o dinheiro vinha de doações de fiéis da Igreja Universal.

Quando seu nome foi anunciado, na semana passada, setores do PT e da base governista começaram a pressionar para que a sua nomeação fosse revertida. Nesta segunda-feira, representantes do mundo esportivo decidiram se manifestar publicamente. O grupo "Atletas pelo Brasil", uma ONG que reúne atletas e ex-atletas que buscam a melhoria do esporte no País, criticou a escolha de Hilton para o cargo. O grupo formado por atletas como Kaká, Rogério Ceni, Rubens Barrichello, Bernardinho, Gustavo Borges, Raí e Hortência disse, em comunicado, que a presidente “abriu mão de uma oportunidade de melhorar a gestão do esporte” ao colocar o pastor nesse Ministério, ainda mais faltando pouco mais de um ano para as Olimpíadas.

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O grupo afirmou ainda que o Ministério do Esporte é usado, há anos, como instrumento de barganha política. “Não se trata de decidir quem seria a melhor pessoa para ocupar o cargo, mas qual partido o terá de acordo com as alianças e que decidirá a seu bel-prazer quem o representará”, critica. Os atletas disseram que “estão se sentindo envergonhados e desprestigiados, vendo que o esporte no Brasil continua sendo encarado como algo menor”.

Deputado federal pelo PRB-MG desde 2007, George Hilton não apresentou nenhum projeto de lei sobre temas ligados a esporte em sua passagem pela Câmara. Nas diversas vezes em que discursou no plenário, tampouco mencionou políticas esportivas — desde que foi indicado, contudo, passou a publicar nas redes sociais posts alusivos ao tema. Na Câmara Federal, apresentou cerca de 140 proposições dentre projetos de lei, indicações, requerimentos, propostas de emendas à Constituição, e relatou cerca de 48 propostas. Ele foi relator, por exemplo, do Projeto de Lei 4700/2012, que altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que tem por objetivo identificar, cadastrar e atender alunos com altas habilidades – também chamados de superdotados, na educação básica e superior.

Sem recuo

A nomeação de Hilton também não agradou ao PC do B que tinha esperanças que o atual ministro do Esporte, Aldo Rebelo, permanecesse à frente da pasta nas Olimpíadas do Rio e desse continuidade a sua administração já que é um dos interlocutores no Comitê Olímpico. Rebelo assumirá o ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação.

O presidente do PRB, Marcos Pereira, afirmou que apesar das pressões não aceitará um recuo da presidente, nem a troca da pasta. Em entrevista ao Estado de S.Paulo, Pereira avisou que caso o convite seja cancelado, o PRB irá para oposição. “Se ela recuar, o PRB sai da base e vai para a oposição. Qualquer mudança vai levar a esse tipo de atitude da minha parte e do meu partido”, afirmou.

Uma possível saída do PRB não tiraria da base governista a maioria dos deputados da Câmara, mas causaria problemas para aprovar emendas constitucionais, cujo mínimo é de 308 votos. Caso o PRB tirasse seu apoio, os aliados da Dilma seriam reduzidos a cerca de 300 deputados.

O senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) divulgou no fim de semana nota na qual negou responsabilidade pela indicação de seu companheiro de partido. Segundo Crivella diz na nota, "foram os próprios méritos do candidato que o credenciaram" para ocupar o cargo no novo governo.