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Bazileu Margarido | Porta-voz nacional da Rede Sustentabilidade

“Apoio de Marina a Aécio Neves no segundo turno foi a decisão certa”

Porta-voz diz que Rede se consolidou como alternativa ‘progressista’ neste ano

Marina Silva com apoiadores. Ampliar foto
Marina Silva com apoiadores. MSILVA ONLINE

Idealizada pela ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva desde 2013, a Rede Sustentabilidade pretende deixar de ser uma ideia para se tornar um partido oficial em 2015, quando espera obter do Tribunal Superior Eleitoral seu tão esperado registro. A legenda nem saiu do papel, mas já viveu dias intensos neste pouco mais de um ano e meio desde o seu anúncio: viu quase a metade das 904 mil assinaturas que coletou serem rejeitadas pela Justiça eleitoral; se aliou ao PSB na condição de vice do presidenciável Eduardo Campos e, diante da tragédia da morte do ex-governador pernambucano, passou a encabeçar a chapa do Partido Socialista Brasileiro. Mas, ao decidir apoiar no segundo turno das presidenciais a candidatura do senador Aécio Neves (PSDB), Marina perdeu apoiadores que, em um manifesto, repudiaram a aliança – que consideraram um “grave erro político”— e deixaram o projeto. Alguns deles se articulam para fundar um novo partido, o Avante, com inspiração na sigla espanhola Podemos.

Apesar dos imprevistos no percurso, a cúpula da Rede avalia que 2014 deixou um saldo positivo para Marina Silva, que obteve cerca de dois milhões de votos a mais que os conquistados em 2010, quando concorreu à Presidência pelo PV. Agora, se empenha para obter até março as cerca de 30 mil assinaturas que precisa para conseguir seguir carreira ‘solo’. Em entrevista ao EL PAÍS, Bazileu Margarido, porta-voz nacional da sigla, faz um balanço dos erros e acertos da trajetória da Rede Sustentabilidade.

Pergunta. Como o partido avalia o último ano e quais os planos para 2015?

Resposta. A rede enfrentou um desafio enorme com uma candidatura à Presidência da República, como um partido que nem se constituiu. A avaliação que nós fizemos é que, apesar da derrota eleitoral numérica nas últimas eleições, nós consolidamos a nossa posição de alternativa. A Marina, mesmo com o marketing selvagem do PT contra ela, até ampliou a votação que tinha tido em 2010. Agora nós temos a perspectiva de iniciar o ano com o registro formal no TSE, até o final de março ou abril, e iniciar a estruturação do partido em nível nacional. Em agosto ou setembro devemos fazer um congresso nacional, que além da renovação do elo (diretório) nacional a gente, vai servir como uma discussão muito importante para a revisão estatutária e revisão programática.

P. E quando a Marina deixa o PSB?

R. Assim que o TSE aceitar o nosso registro.

P. O apoio da Marina ao Aécio fez com que um grande número de pessoas deixassem a Rede desiludidos – alguns deles, inclusive, ensaiam a criação de um novo partido. Como o senhor avalia isso? Foi um erro essa aliança?

R. O apoio ao Aécio foi uma decisão consensual do elo* (diretório) nacional, que é a instância máxima do partido. Não foi uma decisão que saiu da cabeça de um ou de outro. E não foram tantos assim os descontentes. Acho que é um processo normal. Nós, inclusive, reafirmamos no nosso último encontro (no início de dezembro), que o apoio foi uma opção correta frente àquela conjuntura. Mas foi uma opção tática para o segundo turno da eleição. Isso não sinaliza uma ação conjunta que ultrapasse esse limite temporal. Agora nós vamos ter uma posição mais independente, tanto em relação ao governo Dilma quanto em relação aos encaminhamentos, às decisões políticas do PSDB.

Vale lembrar ainda que a declaração de voto pessoal de Marina Silva foi condicionada aos compromissos assumidos pelo candidato com o aprofundamento da democracia e das políticas sociais, como a reforma agrária e de distribuição de renda, com prioridade para as áreas ligadas à juventude, educação e saúde públicas e com uma visão estratégica de desenvolvimento orientada pela sustentabilidade.

P. Na Espanha, o Podemos se apresenta como um partido de esquerda. A Rede foi inicialmente um projeto que atraiu vários dissidentes da esquerda, descontentes com os partidos tradicionais, como o PT. Qual é hoje o posicionamento da Rede?

R. A Marina sempre disse que a Rede não seria a esquerda clássica, até porque a esquerda clássica tem um viés de sectarismo que não faz parte do nosso modo de ação política. Acho que a gente está mais no campo da sustentabilidade, e num campo que a gente chama de progressista. Não vemos a política como uma questão de esquerda ou direita, mas sim como havendo um campo progressista e um campo conservador, que eu acho que são coisas diferentes. E a gente se coloca então como sustentabilistas progressistas.

P. Alguns dissidentes da Rede apontam que houve uma guinada à direita. O senhor concorda?

R. É séria essa pergunta? É o que eu disse, a esquerda clássica tem um certo sectarismo. Acho que enxergar a candidatura do Aécio como uma candidatura de direita, na nossa avaliação, existe aí um certo sectarismo. Acho que direita tem implicações mais graves sobre o ideário político. É inclusive essa visão que a gente procura evitar. A nossa compreensão é que era uma candidatura no campo da social democracia, com quem era possível dialogar perfeitamente, mas não necessariamente atrelado ou um diálogo em que você concorda 100%, no qual a Rede preservaria a sua identidade, sem problemas. Inclusive, dialogamos com alguns setores do PT sem problemas...

P. Na sua avaliação, como será o caminho até 2018 para a Rede e a Marina Silva

R. A Marina saiu maior (das eleições de 2014) porque em 2010 a candidatura dela era considerada uma candidatura outsider, que não estava efetivamente no centro do embate, não era muito questionada. Nessa eleição, ela teve no centro do embate e um embate absolutamente desigual, o de o peso da força econômica da candidatura da Dilma e o peso daquela aliança de A a Z que proporcionava 12 minutos de televisão contra 2 era absolutamente desigual. Mesmo colocado sob o ataque feroz desse marketing selvagem ela consolidou a sua posição de alternativa.

A gente costumava dizer, ainda em 2013, que a Rede era um bebê de 22 quilos, porque a Marina já aparecia com 22%s intenções de voto em outubro do ano passado, depois das manifestações de junho, etc. Então a gente precisa agora reforçar esse berço pra dar sustentação a esse bebê.

*Em nota enviada ao EL PAÍS, posteriormente à publicação da entrevista, Margarido afirmou que a Rede não apoiou nenhum dos candidatos. O partido decidiu, por meio de Resolução do Elo Nacional, que "não se sentia representado por nenhum dos projetos em disputa e que, se opondo ao continuísmo, delegava a cada militante a avaliação de qual alternativa poderia melhor representar o desejo de mudança qualificada". O apoio a Aécio era, ao lado do voto nulo ou branco, uma das alternativas possíveis de escolha pela militância", afirmou o porta-voz da Rede.

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