Parlamento russo aprova as primeiras medidas para acalmar a população

O montante de depósitos bancários garantido pelo Banco Central será duplicado

Ao fundo, o presidente russo, Vladimir Putin, durante uma reunião militar.
Ao fundo, o presidente russo, Vladimir Putin, durante uma reunião militar.AP

A Duma Estatal da Rússia (Câmara do Parlamento) aprovou, sexta-feira, duas leis para enfrentar a crise financeira e restabelecer a confiança dos cidadãos, que, ignorando o otimismo manifestado por seu presidente, Vladimir Putin, continuam a estocar uma grande quantidade de mercadorias, a sacar dinheiro dos caixas eletrônicos e a fechar suas contas nos bancos em Moscou. As informações sobre outras províncias indicavam reações análogas por parte dos cidadãos de todo o país. Os rumores, desmentidos, sobre a suspensão de provisões de roupa estrangeira à Rússia contribuíram para a formação de filas imensas nos shoppings.

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Os legisladores aprovaram duas leis que deverão passar pelos trâmites do Conselho da Federação e ser assinadas pelo presidente, o que ocorrerá antes do fim deste ano, de acordo com previsões. A primeira lei, que já estava guardada há muito tempo nas gavetas da Duma, duplica o montante máximo dos depósitos bancários garantidos pelo Banco Central. Os 700.000 rublos cobertos atualmente (cerca de 31.600 reais) passarão a 1,4 milhão de rublos (aproximadamente 63.200 reais). Contabilizados em divisas e considerando a queda do rublo, a cobertura do seguro restabelece as equivalências anteriores à crise.

A outra lei aprovada pela Duma contempla a recapitalização dos bancos com um trilhão de rublos (mais de 45 bilhões de reais) e chegou do Governo ao Parlamento na quinta-feira à noite. Alguns deputados expressaram o temor de que a injeção de liquidez no sistema bancário acabe se transformando, de novo, em divisas. Os deputados questionaram os critérios de repartição de fundos, que, segundo os representantes do Governo, serão entregues aos bancos que constituem a coluna vertebral do sistema financeiro. Da lista, foi excluído o Sberbank, que é o maior banco do país, muito afetado pelo pânico dos pequenos investidores. O Sberbank receberá uma ajuda especial diretamente do Banco Central. Os representantes governamentais deram a impressão de estar improvisando sobre o andamento das novas leis na Duma, segundo meios jornalísticos que acompanharam a sessão. A deputada e economista Oksana Dmitrieva, do grupo Rússia Justa, considerou que a recapitalização dos bancos significa dar a eles carta branca para fazerem o que quiserem com o dinheiro recebido, garantindo, além disso, que o Executivo os ajudará se quebrarem.

A Câmara decidiu recapitalizar os bancos com mais de 45 bilhões de reais

O presidente Putin afirmou na quinta-feira, em seu comparecimento anual perante a imprensa, que a Rússia sairá da crise em dois anos, mas o economista Igor Nikolaiev, diretor do Instituto de Análises Estratégicas, garantiu ao EL PAÍS que as turbulências durarão entre três e cinco anos e que só no final desse período será possível retomar o crescimento estável da economia, o que não significa a recuperação dos níveis anteriores à crise. "O ano de 2015 será de recessão para a Rússia", afirmou Nikolaiev. Segundo ele, a previsão de Putin parte do pressuposto de que os preços do petróleo, que estão sendo cotados a níveis mínimos históricos, subirão e de que a economia russa se diversificará. No entanto, de acordo com o especialista, os preços do petróleo não recuperarão os níveis do passado devido às novas fontes de energia que chegam ao mercado, além do fato de a economia russa não ser capaz de fazer, em dois anos, o que não fez nas duas décadas anteriores.

"O pânico será sufocado, mas as causas da desvalorização do rublo serão conservadas", disse. "A fraqueza da economia russa começou antes da crise, as sanções chegaram depois, mas agora, se forem mantidas, não poderemos sair da crise", ressaltou o economista. Segundo Nikolaiev, a renda média real dos russos diminuiu 4,7% (de novembro de 2013 a novembro de 2014). A Rússia tem 416 bilhões de dólares em reservas (aproximadamente um trilhão de reais), incluindo os fundos especiais, mas estes recursos já foram, em parte, adjudicados a projetos como o anel de circunvalação de Moscou e outros de infraestruturas ferroviárias no Extremo Oriente e na Sibéria, lembrou Nikolaiev, que defende que não se deve gastar as reservas além do nível crítico, que para a Rússia é de 240 bilhões de dólares (o equivalente a cerca de 638 bilhões de reais).

Os economistas se mostram céticos diante do otimismo de Putin

Os problemas da economia russa podem obrigar Putin a corrigir sua política e talvez a buscar uma solução para o conflito bélico nas regiões ucranianas de Donetsk e Lugansk para evitar as enormes despesas contraídas pela Rússia ao apoiar os separatistas por um tempo prolongado. É preciso analisar em que medida é possível estabelecer uma regra que permita que Putin possa manter a postura para aqueles que apoiaram seus planos de reconstituir o "Mundo Russo" e perante os próprios separatistas. Evgueni Gontmajer, vice-diretor do Instituto de Economia Mundial e de Relações Internacionais, calcula que manter os três milhões de residentes nas zonas controladas pelas autodenominadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk custaria dois bilhões de dólares ao ano (5,3 bilhões de reais), de acordo com os padrões ucranianos, e quatro bilhões de dólares (10,6 bilhões de reais), com níveis russos. A Criméia, segundo Gontmajer, custou 200 bilhões de rublos (mais nove bilhões de reais) à Rússia este ano, sem incluir as despesas militares. No próximo ano, estes gastos serão de 300 bilhões de rublos (13,5 bilhões de reais), afirmou.

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