DIÁLOGO DEPOIS DE CINCO DÉCADAS

A chave do embargo

O bloqueio asfixiou o cidadão e serviu para o regime justificar o controle político

Celebração em um colégio de Havana / Foto: AP | Vídeo: Reuters
<a href=http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/17/album/1418841557_528637.html#1418841557_528637_1418894203>FOTOGALERIA | Uma nova etapa</a>

Há aproximadamente 30 anos, em meados de 1984, tive de ir fazer a cópia de uma chave em uma loja de ferragens que havia na rua San Miguel, no coração do movimentado bairro de Centro Havana. Era um dos poucos negócios estatais da cidade que oferecia esse tipo de serviço com alguma garantia, pois em outros lugares as reproduções eram feitas artesanalmente, limando a olho moldes de chaves similares, pois a maioria das fechaduras instaladas na ilha eram de fabricação norte-americana. Devido ao embargo dos Estados Unidos, que começou quase simultaneamente ao triunfo da revolução do Fidel Castro, não entravam moldes de chaves originais, o que complicava ainda mais a coisa, mas por sorte o ferrolho de meu apartamento era fabricado nos países socialistas, por isso, pensava eu, não deveria haver maiores dificuldades.

El Llavín, era como se chamava o negócio em questão, era “Coletivo Vanguarda”, segundo rezava um letreiro vermelho pendurado na parede, e tinha uma moderna máquina para fazer as reproduções. O empregado encontrou um molde sem dificuldade, colocou-o em uma máquina junto à original e em poucos minutos tinha minha cópia. Quando a testei ao chegar ao edifício na esquina da 12 com o Malecón, onde vivia, a chave não entrava na fechadura. Nem a ponta da chave entrava! Bastante aborrecido, peguei de novo um ônibus lotado e voltei à loja. Depois de 40 minutos de fila, o trabalhador do El Llavín me disse que eu não tinha nenhum direito de reclamar.

Mais de dois terços dos 11 milhões de cubanos que residem na ilha atualmente não tinham nascido quando os Governos de Washington e Havana romperam relações

“Devia ter olhado antes a advertência”, afirmou. Efetivamente, em cima da máquina, escrita sobre um papelão, a frase dizia o seguinte: “As cópias de chaves são feitas sem garantia”. Eu era recém-chegado e ainda não havia assimilado que a eficiência e o tempo no socialismo tinham outra dimensão, mais ainda se, por uma pirueta histórica, esse sistema se desenvolve no Caribe e ainda por cima somam-se variáveis como o embargo e a inimizade declarada dos Estados Unidos. Assim, a discussão no El Llavín foi subindo de tom, e quando o empregado se sentiu encurralado soltou uma frase que depois ouviria muitas vezes: “A culpa de tudo isso é dos Estados Unidos, que nos mantêm bloqueados há 25 anos”.

Mostrei a ele pela terceira ou quarta vez que minha chave era russa, mas o homem continuou com o mesmo argumento diante do olhar cansado das pessoas, que permaneciam em fila. Muitos dos clientes poderiam ter passado pela mesma situação alguma vez, mas consideravam inútil protestar; problemas desse tipo eram inerentes ao sistema, como a caderneta de racionamento ou a ineficiência das empresas estatais, não tinha nenhum sentido lutar contra algo que era de uma forma determinada e ninguém iria mudar isso.

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A história vem ao caso porque mais de dois terços dos 11 milhões de cubanos que residem na ilha atualmente não tinham nascido quando os Governos de Washington e Havana romperam relações, e o enredo de restrições e proibições que dão corpo ao embargo já estava em vigor.

O embargo, ou “bloqueio”, segundo o nome oficial em Cuba, sem dúvida provocou milhares de problemas aos cubanos, embora, como Barack Obama reconheceu corajosamente ontem, essa política não tenha servido de nada em seu propósito de derrubar o regime.

O embargo está codificado no DNA do cubano, e do mesmo modo o está o endurecimento do regime diante dos Estados Unidos como reação a essa política de asfixia, cuja existência serviu de argumento e desculpa para justificar tudo

O desabastecimento crônico de determinados produtos, a péssima qualidade de outras mercadorias e alimentos comprados antes nos antigos países socialistas – compotas intragáveis da Albânia, conservas búlgaras e russas saborosas por causa da fome, mas incrivelmente eficazes para a azia, ou vinhos de obscuras e remotas procedências – , além das restrições financeiras internacionais e da dificuldade de conseguir medicamentos de última geração, que seria mais simples e econômico comprar nos Estados Unidos, afetaram a maioria dos cubanos desde que nasceram. O embargo está codificado no DNA do cubano, e do mesmo modo o está o endurecimento do regime em relação aos Estados Unidos como reação a essa política de asfixia, cuja existência serviu de argumento e desculpa para justificar tudo: foi a um escritório em horário público e estava fechado, culpa do embargo; um turista pedia um mojito na Bodeguita del Medio e não havia limão nem hortelã (produtos nacionais), o embargo de novo. E assim até o infinito.

Raúl Castro disse ontem que o restabelecimento das relações com os Estados Unidos e as medidas anunciadas não punham fim ao problema “do bloqueio”, cuja abolição não depende do presidente Obama, mas sim do Congresso, de maioria republicana. Tampouco Obama liberou ainda o turismo norte-americano, outra peça chave, mas o primeiro passo está dado. Na semana passada este jornalista esteva em Havana com os estudantes do navio escola norte-americano M. V. Explorer, 624 jovens de 250 universidades dos Estados Unidos em visita à ilha. Aquilo era o futuro. Já não há no horizonte Llavín que valha a pena usar como desculpa.

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